Uma história de cinema

Luis Lomenha, fundador do Cinema Nosso e da produtora Jabuti Filmes, conta sobre sua trajetória pela 7ª arte e seu trabalho, que forma jovens carentes que querem estudar cinema

Luis Lomenha
Luis Lomenha

Nascido no Rio de Janeiro e criado no bairro de Inhaúma, Luis Lomenha sonhava em fazer cinema para contar suas histórias. A descoberta de que era isso que ele queria para sua vida se concretizou quando surgiu a oportunidade de participar do filme ‘Cidade de Deus’, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund. Filho de pai sambista, compositor, produtor e cantor, Luis, ainda na adolescência, desenvolveu o dom da escrita. O jovem menino do subúrbio do Rio ganhou um concurso de redação, se interessou por Literatura, entrou para o teatro e percebeu que sua paixão era a sétima arte. “Depois de ver mais de 15 vezes o filme ‘Central do Brasil’ no cinema do Shopping Nova América decidi que era isso que eu queria para minha vida”, conta Luis. Hoje, formado em Letras pela PUC-Rio e fundador do Cinema Nosso e da produtora Jabuti Filmes, Lomenha atua formando jovens carentes com a linguagem cinematográfica, além de dirigir filmes e séries através da sua produtora.

Criado em 2001, o Cinema Nosso surgiu com a ideia de manter os atores do filme ‘Cidade de Deus’ unidos. A ajuda de Katia Lund e Fernando Meirelles foi crucial no momento em que o grupo começou a esfriar. “Foi aí que eu entrei em cena, pois já tinha uma experiência com teatro, grupos e formação”, revela Luis. Hoje ele se emociona ao falar da satisfação de poder oferecer uma formação gratuita e de qualidade aos jovens. Para ele, cada caso é uma vitória, uma conquista digna de roteiro de cinema. “Ver esses meninos e meninas formados, trabalhando no mercado é algo difícil de descrever. Tenho muitos exemplos. O Jussimar, um jovem negro, que saiu do interior do Rio Grande do Sul e veio para o Rio de Janeiro viver em uma favela, em Curicica, com sonho de fazer cinema, e hoje é técnico de áudio, conhecido e respeitado. O Eduardo, que veio do Jardim Catiri, em Bangu, estudou animação aqui e foi trabalhar na Sport TV. Se formou em Design e um belo dia ele me manda uma foto em uma cabine do Estádio Santiago Bernabeu, do Real Madrid, com a sua equipe, trabalhando nas vinhetas para a Final da Champions League que entravam ao vivo durante a programação. Isso é incrível… São muitos exemplos”, conta emocionado.

A produtora transmídia Jabuti Filmes nasceu com o objetivo de realizar os projetos e filmes que Luis estava envolvido. Ele só não esperava que a sua ideia fosse crescer tanto. “Hoje estamos produzindo com grandes diretores como Katia Lund e João Wainer”, comemora. O documentário ‘Luto como Mãe’, as séries ‘Minha Rua’ e ‘O Rio que me Inspira’ são alguns dos principais trabalhos da Jabuti Filmes. “O mais prazeroso da Jabuti é poder trabalhar com toda essa galera que eu citei. ‘Minha Rua’ (protagonizada por Leandro Firmino, o Zé Pequeno de ‘Cidade de Deus’) foi realizada com eles e por eles. Para a série, por exemplo, temos uma equipe na qual 90% dos  profissionais foram formados no Cinema Nosso e posso afirmar que é a maior equipe de negros no Cinema”.

No ano passado, Luis produziu a série de filmes-documentário que integraram o Festival ReimagineRio, da organização americana RiseUp & Care e que contaram a história de cinco comunidades cariocas e de pessoas – meninos, meninas, homens e mulheres que romperam com o descaso do estado em seus territórios para inventar o novo. Para essa empreitada – os documentários retratam as histórias e transformações de pessoas ligadas aos projetos Circo Crescer e Viver, Miratus Badminton, Nós do Morro, Jongo da Serrinha e Cinema Nosso – Luis Lomenha convidou Kátia Lund e Lili Fialho para assumirem a direção e João Wainer para a fotografia.

E com tantas ideias e projetos a frase dita pelo cineasta americano, Orson Welles, nunca fez tanto sentido. “O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho”.  Luis Lomenha é a prova viva disso e, por coincidência ou acaso, essa é a citação preferida dele no cinema.