Paisagem e arquitetura se misturam na exposição “Desmedidas” no Espaço Cultural BNDES/Rio

Edu Coimbra (foto: Divulgação)
Edu Coimbra (foto: Divulgação)

O artificial e o real. O original e a cópia. A verdade e a mentira. O inventado e o concreto. A imagem e seu reflexo. Em vez de se repelirem e se oporem, conceitos que se encontram e se fundem. No lugar da dicotomia, diálogos. Arquitetura e paisagem se misturam e se confundem na exposição Desmedidas, em cartaz no Espaço Cultural BNDES, no Rio de Janeiro,até o dia 03 de fevereiro

Concebida especialmente para a Galeria do Espaço Cultural BNDES, em um prédio que é considerado um dos marcos da aquitetura carioca da segunda metade do século 20, Desmedidas tem curadoria de Felipe Scovino e traz obras de Amália Giacomini, Eduardo Coimbra e Artur Lescher. A partir da relação do curador e dos artistas com o espaço, uma paisagem é inventada, um lugar é revelado, uma realidade surge. 

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A relação entre a urbanidade do prédio do Banco, estrutura vertical que conquista e ocupa seu espaço no Centro da cidade, e a falta de conexão da galeria com a paisagem e seu entorno – mesmo sendo parte integrante dele -, foram o ponto de partida para a concepção da exposição.

“A partir dessas duas questões centrais – arquitetura e paisagem – que se articulam decisivamente com a arte contemporânea, os três artistas criaram a ideia de uma paisagem inventada ou a aparição de um lugar”, explica Scovino. “De alguma forma, como arquitetos sem precisão, eles trazem uma paisagem desmedida para dentro do cubo branco, o espaço sagrado da galeria”.

Nesta reflexão, os dois mundos – dentro e fora – podem dialogar. No entanto, a conversa parte de uma invenção, de um questionamento do que é real e do que é imaginário. “A ideia é brincar com o olhar do espectador, instiga-lo a buscar diferentes prismas, ver de diferentes formas o mesmo objeto”, propõe o curador.

Dentro desta proposta, o convite é feito: o visitante pode apreciar as obras a partir do mezanino: de cima, a perspectiva é outra. Assim, como o prédio, a exposição é verticalizada, é apreciada sob outro ponto de vista, sai do chão, vai para o céu. É como se, com suas obras, os artistas quisessem mensurar o infinito. Atingir o impossível com suas grades, nuvens, pêndulos, monilitos, torres e cubos.

Os artistas e as obras
Na obra de Amalia Giacomini (Paisagem elástica, 2016), um elemento central é a linha e, mais especialmente, a grade. Sua obra tem uma propulsão ao infinito, de expandir os espaços de forma a não conseguirmos mais nos localizarmos. Ao delimitar áreas partindo da sobreposição de linhas, sua obra cria uma relação de figura e fundo, permitindo a continuidade e ao mesmo tempo desvios nessa paisagem construída. A obra convida o visitante a caminhar ao longo deste horizonte no fundo da galeria.

Formada em Arquitetura e Urbanismo pela USP e mestre em Linguagens Visuais pela EBA-UFRJ, Amalia já realizou mostras individuais e participou de coletivas em importantes instituições do Brasil e do exterior, entre elas Itaú Cultural, Museu de Arte Contemporânea (MAC/Niteroi), Instituto Tomie Othake,  Museu da República, Galeria Nacional de Praga e Cité des Arts em Paris, entre outros.

De uma maneira onírica, Eduardo Coimbra (Superficiel, 2016) fez com que céu e terra se encontrassem. Portanto, o que era da ordem do ar e da visão pode – poeticamente – ser finalmente experienciado também através do toque. Nuvens introduzidas no cubo branco funcionam como uma situação de dobra, no sentido deleuziano do termo, como se nada pudesse separar os dois espaços, já que eles seriam “um espaço de montagem contínua”, constituindo um “dentro” que é a “dobra do fora”. As curvaturas da dobra se entrelaçam sem conseguirmos distinguir o que está fora ou dentro.

Graduado em Engenharia Elétrica, com pós-graduação em História da Arte e Arquitetura no Brasil (PUC Rio), Eduardo Coimbra já realizou mostras individuais e participou de coletivas em instituições do Brasil e exterior, entre elas III Bienal do Mercosul em Porto Alegre e Panorama da Arte Brasileira em São Paulo (2001), 29a Bienal de São Paulo (2010) e Natureza da Paisagem no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2007), entre outros.

Artur Lescher adiciona ficção e imprecisão ao cotidiano. Suas obras abordam uma situação de medição, construção de lugares e (des)orientação. Em sua obra, uma espécie de monolito, ou um objeto inesperado, desproporcional, mal se vê o que ele contém – a não ser quando adotamos determinadas perspectivas, cujas escolhas estão diretamente conectadas a como nos relacionamos com o espaço da galeria.

Suas obras nos transformam em um errante, aquele que anda sem destino certo, que não se fixa em um local, e sua sina é incessantemente ter a busca como ideal. Quando finalmente vislumbramos o topo do monolito, a imagem do errante ganha mais força, pois o que se coloca diante de nós são instrumentos de (im)precisão: pêndulos, bússolas e outros objetos que tiveram suas funções desajustadas e se tornaram imperfeitos, pois não cessam de girar e apontar um norte que constantemente se refaz.

Os trabalhos de Artur integram as coleções do The Museum of Fine Arts, Houston, e Philadelphia Museum of Art (ambos nos EUA), MALBA – Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Argentina), Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre outras. O artista participou das Bienais de São Paulo, em 1987 e 2002, e da Bienal do Mercosul, em 2005

Curador
Felipe Scovino é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi curador de diversas exposições dentro e fora do País, entre elas Lygia Clark: Pensamento mudo (Dan Galeria, São Paulo, 2004), Arquivo contemporâneo (MAC, Niterói, 2009), Décio Vieira: investigações geométricas (Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, 2010), O lugar da linha (Paço das Artes, São Paulo; MAC, Niterói, 2010), Entre desejos e utopias (A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, 2010), entre outras.

Serviço

Desmedidas 

Exposição de Amalia Giacomini, Eduardo Coimbra e Artur Lescher. Curadoria de Felipe Scovino

Período expositivo: de 14 de dezembro de 2016 a 03 de fevereiro de 2017

Local: Galeria BNDES – Espaço Cultural BNDES

Endereço: Avenida Chile, 100 (próximo ao metrô Carioca)

Visitação: segunda a sexta, das 10 às 19 horas

Entrada franca

Livre para todos os públicos

Mais informações: 

www.bndes.gov.br/espacobndes

​Ouvidoria: 0800 702 6307

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