Mercado mundial se abre aos sambistas brasileiros após o carnaval

Festivais de samba e carnaval em países da Europa, Américas e Ásia, estrangeiros ávidos por aprenderem a tocar instrumentos a sambar e comprarem fantasias carnavalescas. Mercado aberto à apresentação de ritmistas, passistas, intérpretes. Escolas de samba como referência internacional.  Sim, o carnaval no Brasil passou, mas, na entressafra um mercado mundial se abre.

Mas como o pessoal do samba pode se beneficiar desta mega exposição proporcionada pelo chamado “maior espetáculo da terra”?  Quais os benefícios para o país? Como se dá a internacionalização do gênero musical? Essas são algumas das questões presentes na webtese (www.sambaglobal.net/web-tese), lançada pelo professor e pesquisador Jair Martins de Miranda sobre o samba e suas oportunidades culturais e de negócios.

Célia Domingues, presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil, Amebras, com sua experiência na produção e exportação de produtos do carnaval, diz que o samba, vinculado ao carnaval, ocorre durante o ano inteiro e deve ser olhado como uma oportunidade: “A economia criativa nesse momento de crise deve ocupar seu verdadeiro espaço. Hoje já há número significativo de pessoas que tem essas atividades como principal fonte de renda.”

Célia destaca que há oportunidades, desde a produção de souvenir do carnaval para venda aos turistas na Passarela do Samba à organização de desfiles no exterior, passando pela confecção de fantasias e instrumentos musicais. Lembra da experiência que teve em São Luiz, na Argentina, quando organizou um projeto de qualificação, com oficinas e finalizado com um desfile: “Chegamos a levar 80 passistas, mais bateria, baianas, coordenadores etc.  Todo mundo já saía daqui com o cachê no bolso e muitas baianas faziam suas programações anuais pensando naquele dinheiro. Já pegavam pra consertar uma caixa d’água, comprar um sofá novo, uma televisão, uma geladeira, bom demais.”

Nilce Fran, responsável pela formação de passistas na Portela, com a experiência de quem já levou sua especialidade a 17 países, diz que os sambistas brasileiros ainda não sabem aproveitar o mercado que têm. Destaca que, apesar disso, muitas das crianças que hoje fazem a ”dança do samba” ao longo do ano, já têm a arte como principal fonte de renda.

O percussionista Carlinho Pandeiro de Ouro, que vive no exterior há 52 anos onde faz shows, ministra aulas e acompanha músicos de diferentes nacionalidades, em 2011 recebeu um prêmio como melhor professor de artes pelo Colégio de arte da Califórnia, com direito a um banquete no Senado Americano e audiência na Casa Branca com o  presidente Barak Obama. “Aqui no Brasil os músicos não têm reconhecimento que recebem pelo mundo”, afirma, depois de 60 anos de desfiles na Mangueira.

Jair Miranda lembra que o gênero musical brasileiro inspira carnavais em diferentes partes do mundo, com eventos como, por exemplo, o “Helsinki Samba Carnaval”, na Finlândia; os “Samba Parade Paris”, “Samba Parade Marseille” e “Samba Parade Toulouse”, na França; o “Coburg Internacional Samba Festival”, na Alemanha; o “Notting Hill Carnival”, na Inglaterra; o “Asakusa Samba Carnival” em Tókio, no Japão; o “Brazilian Street Carnival” nos Estados Unidos, além de sambistas, profissionais, grupos carnavalescos e escolas de samba na Suécia, Dinamarca, Portugal, Espanha, República Tcheca, Argentina, Holanda Itália e Canadá.”

“A alegria, a descontração, a comunhão e uma forma de vida muito rara e desejada em países ditos de primeiro mundo é o que nos abre portas”, afirma Jair.  Por isso, acredita que uma fantasia de carnaval, como as feitas para os desfiles das escolas de samba, tem um valor simbólico muito maior do que o imaginado: “O Rio, o samba e o carnaval, são marcas muito poderosas no mercado de cultura e turismo. Assim como os nossos instrumentos musicais típicos, uma cuíca, um agogô, um pandeiro. Uma aula de samba no pé, tudo isso é negócio com mercado aficionado, mas que não valorizamos e não sabemos aproveitar.”

Na tese Jair mostra como o samba se tornou um produto de consumo mundial e sua trajetória, inclusive o que seria uma contradição entre a condição de patrimônio cultural imaterial (Iphan e Unesco) e sua apropriação material pela velha indústria cultural ou pela nova “economia criativa”. Originada em uma tese de doutorado, a webtese adota  um formato  que a tira do mundo fechado da academia e a abre na internet , com espaço para comentários e estímulo à contribuição dos possíveis colaboradores.

O trabalho tem o rigor da pesquisa exigida pela academia, mas é fortemente permeado pela experiência de vida do autor, que, até 1995, viveu no subúrbio carioca, entre Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro e Madureira; quando se mudou para boêmia Lapa e virou sócio de uma casa de samba, o Espaço Cultural Arco da Velha, e fundou o bloco “Tem gringo no samba”. Dessa forma, convivem lado a lado referências a sambistas como Paulo da Portela, Paulo Vanzolini, Antônio Rufino ou Antônio Caetano, à mãe Brasilina, merendeira de uma escola municipal e pensadores como Fu-Kiau, Kizerbo, Espinoza, Deleuze, Guattari, Muniz Sodré, Antônio Negri, Ney Lopes, Giuseppe Cocco, Norbert Elias, Pierre Bourdieu, Regina Marteleto, entre outros.