Beatriz Azevedo (Foto: Leo Aversa)
Beatriz Azevedo (Foto: Leo Aversa)

Um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil será discutido e recriado, nos dias 8 e 9 de abril, em Mariana e Ouro Preto. As cidades, símbolos da arte barroca, receberão, respectivamente, os projetos “Antropofagia” e “Roteiro das Minas”, desenvolvidos pela atriz, poeta e compositora Beatriz Azevedo. A iniciativa faz parte de um grande projeto multicultural e inclui o lançamento do livro “Antropofagia – Palimpsesto Selvagem”, debate sobre o tema e leitura dramática do “Manifesto Antropófago”, escrito por Oswald de Andrade em 1928. O projeto será realizado pela Secretaria de Estado de Cultura, em parceria com as secretarias de Patrimônio de Mariana e Ouro Preto e patrocínio da Cemig, através da Lei de Incentivo à Cultura.

Para o lançamento do livro, considerado “a primeira leitura realmente microscópica do Manifesto Antropófago”, na opinião do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, autor do prefácio e um dos maiores intelectuais vivos do Brasil, estarão reunidos a filósofa e escritora Marcia Tiburi; o pesquisador de música brasileira e de poesia contemporânea, decano do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC Rio, Júlio Diniz; e o jurista Rubens Casara. Os convidados participarão de um debate que terá a Antropofagia como tema. Em seguida, será feita a leitura dramática do“Manifesto Antropófago”, de Oswald de Andrade, por Beatriz Azevedo e José Celso Martinez Correa – que comemora, na oportunidade, os seus 80 anos e recebe homenagem do secretário de Estado de Cultura, Angelo Oswaldo de Araújo dos Santos.

“A Antropofagia é uma filosofia original criada no Brasil, que faz uma reflexão profunda sobre a nossa história cultural, desde os índios Tupinambá, antes da colonização dos europeus. Ela é capaz de questionar e inspirar pensadores e artistas em todo esse período até chegar ao século XXI. É um movimento de criação, reinvenção permanente, sempre voltado para o futuro”, explica Beatriz Azevedo, artista que incorpora a Antropofagia em suas criações, seja na música, no teatro, na poesia e, agora, no cinema.

Em Mariana, o projeto acontecerá no Teatro Sesi Mariana (R. Frei Durão, 22 – 300 lugares), com ingressos já disponíveis na bilheteria. Em Ouro Preto, será realizado no Teatro Municipal Casa da Ópera (R. Brigadeiro Musqueira, 104 – 300 lugares), o mais antigo teatro das Américas, construído em 1769 – esta será a primeira vez de Zé Celso no local -, com senhas distribuídas apenas no sábado, dia 8, das 12h às 16h. Ambas as apresentações têm início às 19h, são gratuitas e estão sujeitas à lotação das casas.

DEVORAÇÃO CRÍTICA DA CULTURA BRASILEIRA  

O Movimento Antropófago nasceu em 1928, tendo como veículo oficial a Revista de Antropofagia, que trouxe, em seu primeiro exemplar, o Manifesto Antropófago – responsável por revolucionar a cultura brasileira. Em 1967, o Teatro Oficina, recém-construído após um incêndio sofrido no ano anterior, levou a cabo um projeto ousado: encenar “O Rei da Vela”, peça de Oswald de Andrade (1890-1954) escrita 33 anos antes e considerada imontável por seu caráter pouco convencional.

Foi um marco para a cena teatral, para a cultura nacional e para toda uma geração de artistas. Foi também o ponto de partida para o nascimento de “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso; e “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, escritas para o Festival da Música popular Brasileira, da TV Record, naquele ano. As canções levantaram a bandeira tropicalista, adotando o caráter de devoração cultural proposta por Oswald de Andrade, e influenciou nas posturas e nos conceitos das composições de um dos maiores movimentos musicais brasileiros, que completa agora 50 anos.

ANTROPOFAGIA – PALIMPSETO SELVAGEM

O livro escrito por Beatriz Azevedo, apresentado pela primeira vez em Mariana e Ouro Preto, é um dos últimos lançamentos da editora Cosac Naify. Com capa e ilustrações de Tunga, é parte de um grande projeto de sua autoria sobre a antropofagia. No livro, a autora coloca em cena reflexões contemporâneas a partir da antropofagia em perspectiva plural, abarcando desde o ritual Tupinambá, antes da chegada dos colonizadores europeus, em 1500, passando pela eclosão do movimento antropofágico durante o modernismo no século XX, o tropicalismo na década de 60, o mangue beat na década de 90, até as primeiras décadas do século XXI.

Resultado de quase duas décadas em contato com o tema, o livro apresenta a pesquisa que aprofunda os significados e ressonâncias deste conceito, tão propalado, mas tão pouco compreendido de fato.

O lançamento é parte integrante do projeto multidisciplinar da artista e inclui também o CD AntroPOPhagia ao vivo em Nova York (gravado ao vivo no Lincoln Center), um filme documentário e umasérie para TV em fase de filmagem, com entrevistas de grandes nomes do movimento ou por ele influenciados, como Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, José Celso Martinez Correa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marcia Tiburi, entre outros.

PROJETO ROTEIRO DAS MINAS

A iniciativa busca, entre outros aspectos, oferecer um novo olhar sobre a cultura nacional a partir da Caravana Modernista, responsável por “descobrir”, em 1924, a identidade do homem brasileiro e criar um movimento de valorização do passado colonial e do barroco mineiro. O grupo, que contou com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, passou por Belo Horizonte, Ouro Preto, São João Del-Rei, Tiradentes, Mariana e Congonhas.

Partindo desse marco histórico, quando a proposição de Oswald de Andrade, “ver com olhos livres” teve aplicação prática e efetiva no reconhecimento do valor artístico do patrimônio barroco, foi criado o projeto Roteiro das Minas, que procura aprofundar esse olhar com o suporte conceitual da Antropofagia, em atividades diversas.