MAR em Cena recebe espetáculo “Matéria de Poesia”

O Museu de Arte do Rio – MAR, sob gestão do Instituto Odeon, apresenta ao público a peça “Matéria de Poesia”, na qual Bianca Ramoneda, Pedro Luis e os convidados Jaqueline Roversi, Dandara Vital e Magenta Dawning/Bruno Henríquez promovem uma leitura cênica e musical dos textos Manoel de Barros, sob direção de Moacir Chaves.  A apresentação faz parte do projeto MAR em Cena, com curadoria do ator Júlio Adrião, e será ambientada na Sala de Encontro – espaço localizado no andar térreo do Pavilhão de Exposições, que convida o visitante para uma permanência prolongada e uma vivência dentro da arte ao criar uma atmosfera de interação, acolhimento, experimentação e reflexão.

“Matéria de Poesia”
Os poemas são parte da obra de Manoel de Barros, uma obra extensa e vigorosa que tem como uma de suas principais características a reflexão sobre o ofício da criação. O poeta usa seu instrumento, a palavra, para falar sobre criação na fotografia, na pintura, no cinema, na música e nas artes visuais, nos trazendo referências, provocações, clareando ideias e afirmando a linguagem como território simbólico e poético. Um lugar que, mais do que nunca, precisa ser compreendido e valorizado. Esse é o encontro proposto: trazer para o espaço de um museu que se dedica tanto ao olhar, uma obra que nos traz muitos instrumentos para isso.

Manoel de Barros é um dos poetas mais populares entre os jovens hoje e também um dos mais vendidos. Sua anarquia – lúdica e lírica, profunda sem perder a graça – é ouro para uma geração cheia de questionamentos. Sua potência em questionar os valores vigentes e propor a subversão que começa pela própria construção das frases – e chega ao desmonte do conceito de “utilidade” na sociedade de consumo – torna-se cada vez mais urgente de ser compartilhada. “Em que mundo queremos viver e como a arte pode nos ajudar nisso?” – é a pergunta que ele põe no colo do leitor. Por ser um poeta que viveu a maior parte de sua vida no centro-oeste do país, e por trazer em seu vocabulário palavras que se referem à natureza, muitos de seus leitores ficam atrelados a um lado mais lírico de sua obra, atribuindo a ela uma aura de pureza. O recorte proposto pela peça amplia essa visão, reunindo pensamentos sobre arte e criação que nunca foram explorados juntos em apresentações. Por exemplo, nem todos sabem que Manoel era cinéfilo, que estudou cinema em Nova York e que essa paixão migrou para seus poemas que são repletos de referências sobre a criação de imagens. Enxergar Manoel como um poeta vinculado somente à natureza é restringir sua obra e perder a possibilidade de refletir sobre essa palavra tão polêmica chamada “arte”. Essa é a “matéria de poesia” sobre a qual ele tanto se debruçou. E é ela que será compartilhada nesse encontro. Uma sala de exposições ou o fundo do MAR são ótimos lugares para isso.

Ficha Técnica
Textos: Manoel de Barros
Em cena: Pedro Luís, Bianca Ramoneda, Dandara Vital, Jaqueline Roversi e Magenta Dawning/Bruno Henríquez.
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos

Manoel de Barros
Manoel Wenceslau Leite de Barros é um dos maiores poetas brasileiros. Nasceu em Cuiabá-MT, em 19 de dezembro de 1916 e mudou-se para Corumbá-MS, onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu livremente, em uma fazenda no Pantanal. No derradeiro texto do Livro das Ignorãças, 1993, Retrato falado, Manoel confessa:

‘Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão, aves, pessoas humildes, árvores e rios. Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos’.

Estudou num colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro. Aqui conheceu pessoas engajadas na política, leu Marx e entrou para a Juventude Comunista. Anos depois, ao deixar o partido, o poeta passou um tempo na Bolívia e no Peru e, depois seguiu para Nova York, onde morou por um ano. Fez curso sobre Cinema e sobre Artes Plásticas no Museu de Arte Moderna.

De volta ao Brasil, conheceu a mineira Stella, no Rio de Janeiro, casaram-se e tiveram três filhos, Pedro, João e Marta. Em 1949 retornou ao Pantanal para tomar conta da fazenda deixada pelo pai. Embora tenha vivido em metrópoles da América e da Europa, para Manoel de Barros, a matéria prima de sua obra nasceu do chão pantaneiro.

Manoel de Barros é autor de 18 livros de poesia, além de livros infantis e relatos autobiográficos. Recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti, duas vezes o Prêmio Nestlé e também foi premiado pela ABL, pela Biblioteca Nacional e pela APCA. O poeta faleceu em novembro de 2014, pouco antes de completar 98 anos. 

Numa entrevista concedida em 1996 a José Castello, no jornal O Estado de São Paulo, ao ser perguntado sobre qual sua rotina de poeta, respondeu:

“Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo ‘lugar de ser inútil’. Exploro há sessenta anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coisas que começam assim: ‘Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem’.

Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Midlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento”.

Manoel de Barros conta com uma consistente fortuna crítica, mas o melhor comentário sobre sua poesia é fornecido pelo próprio, seja em entrevistas, seja nos versos que escreveu – “desexplicando” o próprio trabalho literário. Segundo ele, “ao poeta faz bem desexplicar”, ou melhor, o entendimento de sua poesia não passa pelo crivo cerebral, pois “não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico”. E, num “despoemamento”, sintetiza sua concepção para o entendimento poético:

“Para entender nós temos dois caminhos: o da sensibilidade que é o entendimento do corpo; e o da inteligência que é o entendimento do espírito. Eu escrevo com o corpo. Poesia não é para compreender, mas para incorporar. Entender é parede; procure ser uma árvore”.

Para mais informações, entre em contato pelo telefone (55 21) 3031-2741 ou acesse o site www.museudeartedorio.org.br.  Endereço: Praça Mauá, 5 – Centro.

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