Malvino Salvador encarna bicheiro Boca de Ouro no Sesc Ginastico

Boca de Ouro é um lendário bicheiro carioca, figura temida e megalomaníaca, que tem esse apelido porque trocou todos os dentes por uma dentadura de ouro. Também é conhecido como o Drácula de Madureira. Quando Boca é assassinado, seu passado é vasculhado por um repórter. Sua fonte é dona Guigui, ex-amante do contraventor, mulher que, ao longo da peça, revela diferentes e contraditórias versões do bicheiro.

Este é o mote da tragédia carioca “Boca de Ouro”, cujo papel-título é vivido por Malvino Salvador, na montagem de Gabriel Villela que chega ao Rio depois de quatro meses de sucesso no Teatro Tucarena, em São Paulo. Estão ainda no elenco Mel Lisboa e Claudio Fontana, como o casal Celeste e Leleco; Lavínia Pannunzio, que vive a transtornada Guigui, ao lado de Leonardo Ventura, que dá vida a seu fiel e apaixonado marido Agenor. Chico Carvalho é Caveirinha, o rodriguiano repórter que carrega em si o olhar afiado e crítico Nelson Rodrigues, jornalista que durante anos trabalhou em redações e conheceu ele próprio os vícios e contradições da imprensa. Cacá Toledo e Guilherme Bueno completam o elenco junto a Jonatan Harold, ao piano, e Mariana Elisabetsky, interpretando as 14 canções do espetáculo.

Esta é o terceiro texto de Nelson Rodrigues encenado por Gabriel Villela. Em 1994 montou A Falecida, com Maria Padilha no papel título, e em 2009 Vestido de Noiva, protagonizado por Leandra Leal, Marcello Antony e Vera Zimmerman. 

Malvino Salvador fala de sua experiência na pele do bicheiro de Madureira e da expectativa com a temporada carioca: “Essa peça foi muito importante na minha carreira pelo aprendizado que eu adquiri, por ter dividido o palco com grandes atores, por conhecer o universo do Gabriel Villela, que é um dos nossos maiores diretores, que tem uma personalidade vibrante, impressa nas suas montagens. (…) Para mim está sendo muito importante trazer Boca de Ouro aqui para o Rio que, a gente sabe, é uma das principais praças do Brasil, e onde se criou o universo rodriguiano. Depois de uma temporada de sucesso em SP, tanto de público quanto de crítica, a peça tem o potencial de chegar aqui de uma maneira muito bonita, é isso que eu espero.”

SINOPSE
Boca de Ouro (Malvino Salvador) é um lendário bicheiro carioca, figura temida e megalomaníaca, que tem esse apelido porque trocou todos os dentes por uma dentadura de ouro. Quando Boca é assassinado, seu passado é vasculhado pelo repórter Caveirinha (Chico Carvalho), que vai até a casa da ex-amante Guigui (Lavínia Pannunzio). Lá, ouve a versão da ex-amante, que desanca o bicheiro. Ao saber de seu assassinato, Guigui se arrepende e exalta Boca como uma figura amorosa. Já no terceiro ato, Guigui volta a desancar o bicheiro, pois teme ser abandonada pelo marido Agenor (Leonardo Ventura). Nas três versões relatadas, surge o casal Celeste (Mel Lisboa) e Leleco (Claudio Fontana), que tem relação direta com o assassinato de Boca de Ouro.

UMA TRAMA ATUAL
As diferentes versões de Guigui para a morte de Boca de Ouro levaram Gabriel Viellela a fazer conexões com uma pesquisa recente da universidade de Harvard, sobre um fenômeno contemporâneo chamado “pós-verdade”. Villela explica: “É um produto da modernidade tecnológica: você inventa uma história, realinha ideias, publica, arruma vários seguidores e isso se amplia, viraliza na internet e ninguém mais sabe sobre o que se está falando. Somos todos vítimas disso. (…) A Guigui é insuperável – com três expedientes emocionais e psíquicos, ela conta três vezes a mesma história, embaralhando com maestria para que tudo seja incrivelmente verdadeiro”.

A MONTAGEM

A ambientação idealizada por Gabriel Villela remete a uma gafieira, com mesas e cadeiras, revezando-se entre uma redação de jornal e as casas dos personagens.

Dentro das iconografias do subúrbio carioca, Gabriel se utiliza da simbologia do Candomblé e das mascaradas astecas no espetáculo. A casa de Celeste e Leleco traz muitas representações de Orixás sincretizados. A figura de Iansã (Guilherme Bueno) aparece toda vez que uma cena de morte acontece – ela faz a contrarregragem das mortes.

O Brasil retratado na cena: a política, as narrativas contraditórias, a libido, a festa da gafieira, o jogo do bicho, a fé e a música. Retratos de uma época que nos mostram que o Brasil pouco mudou, e que o dramaturgo nascido em Pernambuco em 1912 e radicado no Rio de Janeiro, nunca foi tão atual.

Além da direção, Gabriel Villela assina os figurinos e a cenografia. A iluminação é de Wagner Freire, a direção musical e preparação vocal são assinadas por Babaya e a espacialização e antropologia da voz por Francesca Della Monica. Os diretores assistentes Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo completam a equipe criativa.

AS MÚSICAS
Cidade Maravilhosa (Andre Filho)
Vingança (Lupicínio Rodrigues)
Ave Maria do Morro (Herivelto Martins)
Lencinho Branco (Dalva de Oliveira)
A Noite do Meu Bem (Dolores Duran)
Na Cadência do Samba (Ataulfo Alves)
Ne Me Quittes Pas (Jacques Brel)
Última Estrofe (Orlando Silva)
Eu Dei (Ary Barroso)
O Ouro e A Madeira (Ederaldo Gentil)
Hino ao Amor (Edith Piaf / M. Monnot)
Não Deixe o Samba Morrer (Edson Conceição e Aloísio Silva)
Bang Bang – My Baby Shot Me Down (Sonny Bono)
De Frente Pro Crime (João Bosco)

FICHA TÉCNICA

Texto: Nelson Rodrigues / Direção, Cenografia e Figurinos: Gabriel Villela / Elenco: Malvino Salvador (Boca de Ouro), Mel Lisboa (Celeste), Claudio Fontana (Leleco), Lavínia Pannunzio (Guigui), Leonardo Ventura (Agenor), Chico Carvalho (Caveirinha Maria Luisa), Cacá Toledo, Guilherme Bueno, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold (ao piano) e Guilherme Bueno /Iluminação: Wagner Freire / Direção Musical e preparação Vocal: Babaya / Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Monica / Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo / Foto: João Caldas / Produção executiva: Luiz Alex Tasso / Direção de produção: Claudio Fontana / Realização: SESC Rio / 

 

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