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Pescoço

por Redação
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O pescoço é uma das partes mais importantes do corpo. Elo entre a cabeça e o tronco, ele é quem, através da cervical, sustenta a cabeça (a parte mais pesada do corpo) e dá a ela movimento, através de um emaranhado de articulações, também chamadas de junturas. É graças ao pescoço que nosso olhar fica mais ou menos abrangente. Para um escritor, o olhar é peça-chave na construção de uma narrativa. O texto literário tem lá suas junturas, que tanto o equilibram quanto o tornam maleável.  E o escritor Thiago Picchi sabe bem disso. Nos últimos anos, ele (e)levou seu olhar para diferentes ângulos, planos e perspectivas. E tais experimentações resultaram em 13 enredos, reunidos por ele em Pescoço (7 Letras), seu terceiro livro de contos e o quinto de sua carreira literária.

O pescoço faz-se, não por acaso, presente em muitas das narrativas. Ora de forma explícita, como no conto que abre o livro (e que dá título à coletânea), junção de três estórias às quais o pescoço é o elo entre elas. E também de forma subliminar, como no episódio lembrado por Zuleica em “Sorvete americano”, no qual rememora a ocasião em que sua mãe lhe ensinou a sacrificar uma galinha quebrando-lhe o pescoço.

Nos textos reunidos no livro, o autor permite-se mesclar à escrita ficcional características de outros gêneros. Dois exemplos são “Decapitação” e “Boxe”. No primeiro, elaborado a partir de um fato real ocorrido numa universidade, estabelece-se uma linha tênue entre o conto e a crônica. No segundo exemplo, o texto tem como personagem central o pugilista Deontay Leshun Wilder, o que faz o relato oscilar entre o perfil jornalístico e a peça de ficção.

Essa liberdade a qual o autor se permite é levada também a experimentações com diferentes formas narrativas. Um exemplo é o de “Um dia na praia”, no qual um grupo formado por adultos e seus filhos desfruta do dolce far niente a beira mar. Num trecho da obra, dois grupos conversam em separado, o de mães e o de cidadãos de bem. A partir de então, o autor ocupa o período com linhas em branco, permitindo ao leitor preencher (ainda que mentalmente) aqueles espaços com discursos que julgue representativos para cada grupo.

Thiago Picchi

Thiago Picchi (Foto: Leo Aversa)

O mais ousado exemplo é o de “Blanka”, não por acaso o conto mais extenso da coletânea. Confinado em razão das restrições sanitárias impostas pela pandemia, um personagem é entretido por acontecimentos remotos, disponíveis no plano de internet. Essa trama une narrativas fragmentadas num emaranhado que abarca desde dicas de modelos de carros SUV, passando por manchetes do noticiário mescladas aos comentários postados por internautas numa rede social (há o que sempre contesta o fato de seu comentário ter sido apagado), incorporados às pegadinhas, aquelas peças pregadas por um comediante em incautos, compondo um quadro fidedigno do isolamento social.

Durante o processo de escrita, Thiago Picchi deve ter perdido a cabeça algumas vezes. O fato é que não perdeu a mão. E isso fica claro em seu novo livro. É também pela mão que ele pega o leitor e leva-o a percorrer os meandros da sua inventividade. Não vale se perder pelo caminho.

Sobre o autor:

Thiago Picchi estreou na literatura com “O papagaio e outras músicas” (7 Letras, 2005). A ele seguiram-se o romance “Os rumores imprecisos das conversas alheias” (2006), “A arte de salvar um casamento” (2013) e “Neste livro cabe uma baleia” (2015). Textos de “O papagaio” inspiraram monólogo homônimo, estrelado por Marcelo Picchi em 2018. Atualmente, o autor concilia a escrita literária com a preparação de elenco para séries como “Eu, a Vó e a Boi” (2019), “As filhas de Eva” (2021) e, mais recentemente, à novela “Quanto mais vida, melhor!”.

Título: “Pescoço”
Autor: Thiago Picchi
Editora: 7 Letras
Lançamento: dezembro de 2021
Formato:  14 X 21cm
Número de páginas: 132
Preço: R$ 49,00

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