IT: A Coisa é uma boa releitura da clássica obra de Stephen King, mas apenas isso

Stephen King

Escrever sobre filmes baseados em obras cultuadas é uma tarefa exaustiva e geralmente as comparações acabam surgindo. Quando se trata de Stephen King então, as coisas ficam mais complicadas. Considerado como um dos maiores nomes do horror na atualidade e com mais de 100 livros escritos e traduzidos para outros idiomas, as adaptações cinematográficas quase sempre são um desastre ou perdem muito da essência original. IT não é um desses casos.

Dirigido por Andy Muschietty (Mama) e com roteiro de Cary Fukunaga (True Detective), o filme conta a história da cidade Derry, que aparentemente tem um número elevado de crianças desaparecidas. Vale lembrar que a obra original, de 1986, se passa em dois momentos: os protagonistas enquanto crianças e depois como adultos. O diretor escolheu dividir o filme em duas partes, sendo que essa aborda apenas a infância dos personagens.

A história começa com a morte de Georgie Denbrough (Jackson Robert Scott), irmão menor de Bill Denbrough (Jaeden Lieberher), um dos protagonistas. Georgie é brutalmente assassinado por um palhaço chamado Pennywise (Bill Skarsgård). A cena é brutal e já deixa o espectador tenso. Durante as férias, Bill e seus amigos Richie Tolzier (Finn Wolfhard), Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) e Stanley Uris (Wyatt Oleff), também conhecidos como “O Clube dos perdedores” acabam conhecendo Ben Hascom (Jeremy Ray Taylor), Mike Hanlon (Chosen Jacobs) e Beverly Marsh (Sophia Lillis), a única menina do grupo.

Além de sofrerem constantemente o bullying de Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e sua gangue, percebem e vivenciam fatos estranhos e aterrorizantes, envolvendo a presença de uma entidade que assume diversas formas, incluindo a forma de um palhaço. Com isso, decidem investigar a causa do desaparecimento das crianças em Derry, o que os levam a descobrir como a pequena cidade não é tão tranquila quanto parece ser. A partir daí, realmente começa a jornada de um grupo de amigos em busca de um terror tão antigo quanto seu próprio lar.

Embora tenha sido escrito em 1986 e ter sido adaptado para a TV em 1990, é praticamente impossível não assistir essa releitura e se remeter ao sucesso “Stranger Things” de 2016. Mesmo esse tendo se baseado também na obra original para construir alguns personagens. Cinema é isso: um ciclo sem fim de leituras e releituras. Até o próprio período temporal da obra foi alterado; a história original se passa em 1958, enquanto a nova em 1988. Obviamente que temos a questão de homenagem à adaptação original, de 1990 (27 anos depois, vocês vão entender ao assistir ao filme), mas também a questão comercial, apoiada no sucesso que Stranger Things obteve.

Nesse quesito, IT: a coisa consegue remontar todo o período da década de 1980: as referências, as vestimentas, a estética do filme, que por sinal lembra a obra “Conta Comigo” (Stand by me, 1986), também adaptada de um conto do autor. A fotografia é excelente, não sendo escura e nem colorida demais, dando o tom certo para as cenas. As tomadas externas e internas cumprem seu papel, com ângulos interessantes para uma produção do gênero. Outro destaque vai para a trilha sonora, que também se encaixa perfeitamente com a trama.

O destaque do filme vai para as atuações. É impressionante ver como os atores conseguem interpretar de forma convincente e fazer o espectador se importar com seus personagens, sem exceção. Talvez os mais “apagados” da obra sejam Stan e Mike, seguidos por Billy, que embora tenha carisma, não consegue acompanhar o restante. Richie realmente parece ter saído do livro e ido para as telas; ele e Eddie dão o tom de humor que arrancam risos a toda hora, quebrando um pouco a tensão. A atuação de Pennywise é ótima, com destaque para a voz e o olhar sombrio do palhaço. Outro ponto de destaque foram as modificações de alguns “medos” de cada um, dando um tom diferente e original para a obra.

Porém o filme possui algumas falhas de roteiro que irritam às pessoas mais críticas, como por exemplo a repetição de cenas com o mesmo arco: o personagem vê algo, vai atrás, surge um medo, depois o palhaço e o personagem foge. Isso se repete durante uma grande parte da obra, chegando a cansar em algumas vezes. Não existe uma razão aparente para os protagonistas não serem mortos naquele momento, mas há sempre uma justificativa preguiçosa para que isso não aconteça. Essa é a única parte que deveria seguir fielmente o livro, que explica com detalhes a sobrevivência de cada personagem e talvez faltasse isso nessa versão.

Obviamente que é difícil colocar tantos aspectos em uma obra de duas horas e meia, mas isso poderia ser condensado em cenas mais curtas e com mais dinamismo. Parece que tudo se encaixa de forma perfeita e plausível, quando na verdade são apenas crianças lutando contra algo que já está ali há muito tempo, e teoricamente é mais “esperto” que todos eles. Talvez uma série em duas temporadas cumprisse melhor o papel de abranger toda a história de Derry e seus habitantes.

IT: A coisa é um bom filme. Melhor que a maioria do gênero com certeza, mas não é o melhor filme de terror do ano, se é que se pode ser classificado apenas como terror. Como adaptação ficou ótimo, mas como filme, tem umas falhas de roteiro que dão nos nervos. Cenas repetitivas, tentativas de scary jumps desnecessárias, história um pouco lenta e segmentada em alguns momentos são uns dos exemplos. Alguns personagens possuem atuações secundárias, que poderiam ter sido melhor desenvolvidas. É um filme melhor que a maioria, mas não está no nível de obras contemporâneas como “A BRUXA”, “It Follows” ou “Babadook”. Vamos torcer para que a segunda parte continue nesse nível.

Avaliação (1-5):
4 – Bom

Ficha Técnica:
Ano: 2017
Título: IT: A coisa
Título original: IT
Roteiro: Cary Fukunaga, Chase Palmer
Direção: Andy Muschietty
Elenco (principais): Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Bill Skarsgård

Patrick "Rick" Ribeiro - Arquivista nas horas vagas. Viciado em Games, Cinema, Séries de TV e Livros. Escreve sobre games aqui pois acha que são a maior sopa cultural de todas.