“Fricção” no Espaço Cultural Sérgio Porto

Um atropelo. Uma criança de 9 anos de idade tem seu corpo violentado. Um menino entre outros tantos abusados a cada dia em todo o mundo. “Fricção” conta a trajetória desse homem, agora já adulto e enrijecido pelo peso das cicatrizes emocionais que o episódio vivido na infância o obrigou a carregar ao longo da vida. Como atravessar a dor e a culpa? Como libertar esse corpo adestrado tão cedo pela violência sexual? Essas questões são o cerne do solo de Breno Motta com direção de Morena Cattoni que estreia dia 15 de julho no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. 

“Cicatrizes são sinais que contam a história de um corpo. E eu senti necessidade de abrir essa ferida quando, aos 30 anos, nessa fase em que começamos a rever e lidar com as questões que atravessaram nossa infância e juventude, percebi que existiam outras tantas histórias semelhantes à minha ainda acontecendo todos os dias, escondidas”, conta Breno Motta, autor do texto que mescla a própria experiência com relatos de outras pessoas também abusadas na infância. “’Fricção’ coloca uma luz sobre esse tema delicado para que seja debatido com sensibilidade e sem julgamentos. É um alerta, precisamos estar mais atentos a nossas crianças e adolescentes”, completa.

Sozinho no palco por cerca de 50 minutos, Breno concentra em um só personagem comportamentos, percepções e traumas partilhados por vítimas de abuso sexual, como a culpa, a vergonha, o isolamento e a desconfiança. “É comum as crianças que são abusadas pararem de falar, se fecharem para o mundo, terem dificuldades para desenvolver relações interpessoais. Eu passei por isso, me isolei. Sentia vergonha do meu corpo e de tudo aquilo que escondia”, revela Breno.

Em um momento do espetáculo, o autor/ator compara essas crianças a animais selvagens, livres, que, de repente, são adestrados agressivamente pela vida. O objetivo é discutir as marcas do abuso no desenvolvimento da relação com o próprio corpo, com o amor e a sexualidade, com os outros e com o mundo.

Provocativo mas sensível – e, por vezes, bem humorado -, o espetáculo não foi construído para “chocar ou esfregar essa realidade na cara de ninguém”, como destaca Breno Motta. “O que queremos é que as pessoas saiam da peça enxergando realmente essas vítimas, com empatia e atenção, sem apontar dedos ou motivos.” A diretora Morena Cattoni completa: “Tem a ver com aceitação, com uma maior generosidade no olhar sobre si e sobre o outro. Estamos falando também sobre tolerância, sobre seguir em frente e transformar a dor.”

Serviço:
Local: Espaço Cultural Municipal Sergio Porto (Rua Humaitá 163 – Humaitá)
Temporada: de 15 de julho a 7 de agosto; sábados, domingos e segundas, às 19h
Ingressos: R$ 30 (inteira) / R$15 (meia entrada)
Capacidade: 20 lugares
Classificação etária: 18 anos
Duração: 50 minutos
Telefone do teatro: (21) 2535-3846  

Ficha técnica:
Dramaturgia e performance: Breno Motta
Direção: Morena Cattoni
Dramaturgismo: Diogo Liberano
Direção de movimento: Fernanda Más
Cenário: Julia Deccache
Iluminação: Pedro Meirelles
Figurino: Ticiana Passos
Trilha sonora: Filipe Freitas
Produção: Rafael Faustini e Paula Loffler
Realização: Faustini Produções