Filosofias da Afirmação e da Negação, de Mário Ferreira dos Santos

Filosofias da Afirmação e da Negação, um livro composto de diálogos fictícios, demonstra de modo inquestionável a capacidade analítica de Mário Ferreira dos Santos – do nível da narrativa ao da exposição, passando também pelo nível do método. A narrativa apresenta personagens que servem como tipos de atitudes espirituais que são determinantes na condução do debate filosófico: homens da tarde, homens da noite e homens da madrugada. Trata-se, respectivamente: dos intelectuais sistemáticos, que se satisfazem com o crepúsculo, se limitando à experiência estética de símbolos exteriores, sem penetrar a realidade das coisas; dos investigadores ávidos, os quais questionam a escuridão, esperam pela madrugada e procuram as estrelas, interessados pela orientação que estas podem fornecer; e daqueles que enfrentaram a noite, passaram do estágio da expectativa ao das respostas e agora afirmam entusiasmadamente aquilo que vislumbraram. Poderia também haver homens do meio-dia, que tivessem alcançado o que os homens da noite procuraram e o que os homens da madrugada começaram a afirmar; mas Mário não atribui a nenhum dos personagens um tão elevado nível. O que temos são Pitágoras de Melo, um homem da noite, dedicado a um modo positivo de fazer filosofia, e seus vários amigos – um ou dois homens da noite como ele, interessados no raciocínio filosófico rigoroso; todos os outros, superficiais e vaidosos, verdadeiramente homens da tarde.

O modo positivo de filosofar, praticado por Pitágoras de Melo e por alguns poucos de seus amigos, consiste, por um lado, em recolher das tradições de pensamento anteriores todas as suas positividades e concrecioná-las em uma única filosofia. Nisto está a capacidade analítica de Mário Ferreira dos Santos a respeito do método. E ela reforça a sensibilidade da sua narração: ele crê que o brasileiro está em condições particularmente propícias para promover uma filosofia plural e ecumênica. Por isso, não tenta transportar nossos personagens para situações alheias a fim de tornar sua obra semelhante a um diálogo platônico; pelo contrário, se vale da linguagem e de cenários propriamente brasileiros para tratar de problemas filosóficos universais. Os diálogos fazem referência a diversas escolas e fases do pensamento filosófico, demonstrando um incomum domínio, pelo autor, da história da filosofia, o qual é incrementado com um impressionante domínio terminológico e conceitual. Mas, definitivamente, não se está diante de uma erudição estéril. Mário possui uma definição precisa e peculiar daquilo em que consiste a positividade de uma tese, o que confere densidade filosófica à sua exposição. Trata-se de não contradizer aquela afirmação elementar e indisputável, “ponto arquimediano” sustentado em Filosofia Concreta: o fato de que algo há. Este é o outro lado do modo positivo de filosofar, e nisto se baseará a análise feita por Mário dos assuntos da metafísica e, principalmente, da teoria do conhecimento, cuja exposição tem garantidas, deste modo, profundidade e coerência, ao mesmo tempo em que uma larga abrangência.

Esta reedição conta com fac-símiles de documentos originais pertencentes ao Arquivo Mário Ferreira dos Santos / É Realizações Editora. 

O autor
Filósofo autodidata de enorme erudição, Mário Ferreira dos Santos escreveu dezenas de obras, entre as quais uma monumental Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, de 45 volumes. Criador de um sistema próprio a que chamou Filosofia Concreta, permaneceu fora dos círculos acadêmicos por toda a vida. Em São Paulo, fundou as editoras Logos e Matese, e, na década de 1960, seus livros tiveram considerável difusão no território nacional. A sua obra tem implicações sobre as áreas de teoria social, psicologia, teologia, religiões comparadas, epistemologia, ontologia e filosofia da matemática. Interessava-se também por economia, história política, oratória e retórica. Era licenciado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atuou também como tradutor, sendo responsável por trazer à língua portuguesa importantes obras de autores como Platão, Tomás de Aquino, Friedrich Nietzsche, Henri-Frédéric Amiel e Walt Whitman.

Título: Filosofias da Afirmação e da Negação
Autor: Mário Ferreira dos Santos
Posfácio: João Cezar de Castro Rocha
Editora: É Realizações Editora
Preço: R$49,90
Nº de páginas: 320

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