Festival Atos de Fala apresenta sua versão AdF.crise

Em sua quarta edição, o Festival Atos de Fala acontece no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. Os curadores Cristina Becker e Felipe Ribeiro convidam artistas-teóricos a se encontrarem e a produzirem diálogos a partir das noções de poder problematizadas por Jacques Derrida em A Besta e o Soberano. Além desse ciclo, o festival conta com duas performances, uma residência artística e uma mostra de vídeos.

Durante três dias, o auditório do CMAHO será o espaço de encontro para Sérgio Andrade, professor do curso de Arte Corporal da UFRJ, Denise Espírito Santo, professora do Instituto de Artes Visuais da UERJ e o grupo cinza, formado pelos dramaturgos Gustavo Colombini e João Turchi. Juntos os artistas/teóricos realizam A Besta e o Soberanoação onde cada palestrante se propõe a pensar o formato de aula como o mote dramatúrgico para sua intervenção – que ao final de cada dia endereça uma pergunta aos outros participantes. Cada pergunta serve de condutora para a intervenção do dia seguinte.

Título da última série de palestras de Jacques Derrida, A Besta e o Soberano, abre mais um capítulo no AdF na investigação de formas de poder e produção de coletividade. A partir deste título podemos discutir, de partida, três relações: 1) entre o homem e a animalidade; 2) A produção neoliberal de políticas de estado e sua migração do provento e direito à repressão – migrando também a lógica de coletivo; 3) as fricções de gênero. O seminário tem o livro de Derrida e suas questões como ponto de partida para que outros desdobramentos aconteçam.

O performer Elilson, conduz sua performance Ré Pública em itinerância do CMAHO ao Campo de Santana. Uma trinca de brasileiros marcha lentamente e de costas pelas ruas da cidade. O performer do centro carrega em mãos um tecido bordado à mão como um corpo. À direita e à esquerda, dois performers carregam pás na posição de ombro arma. Ao término da caminhada, as pás são utilizadas para escavar uma pequena porção de terra onde o tecido é depositado, mas não enterrado. Entre a marcha no contrafluxo, a maleabilidade do tecido e a força da terra que degrada e alimenta, a palavra bordada pode disparar paradoxos e convocar desacelerações e discursos dos transeuntes.

Ré Pública é a quarta performance da série de caminhadas de costas concebidas pelo performer. A série se iniciou com “Massa Ré” (Rio de Janeiro e Recife, 2016), “Massa Ré: variação CLT” (Rio de Janeiro, 2017) e “La tri(u)nca histórica” (Assunção, 2017), sempre propondo fricções entre história e caminhada na tentativa de desvirtuar a forma própria da construção subjetiva da circulação urbana, profanando a expressão absoluta e primeira da ordem e do progresso: o andar para frente.

Flávia Naves, retorna ao Atos de Fala, desta vez com a performance O Capital é Capilar. Nesse instigante projeto a performer propõe ter os pelos do seu corpo arrancados por cera quente usando cédulas de dinheiro ofertadas pelo público. A partir do valor das notas, artista e público negociarão qual parte do corpo terá seus pelos arrancados. Feita a negociação, a cera quente é esfregada sobre a pele, a cédula de dinheiro depositada sobre a cera e em seguida a nota é puxada até que os pelos do corpo da artista sejam totalmente arrancados. O público oferece a nota de dinheiro e a performer oferece ao público a possibilidade de executar as ações. O Capital é Capilar acontece na BOCA, espaço multiuso situado na Praça Tiradentes.

AdF.crise conta com a parceria do Instituto Goethe Rio para a realização da residência artística de Simon Will, artista radicado em Berlin, e o coletivo carioca Bonobando, que conta com Adriana Schneider como integrante e diretora. Juntos os artistas realizam a performance de dramaturgia colaborativa Monumoments, que se constitui como uma pesquisa sobre monumentos históricos da cidade. A ideia de monumento será problematizada em seu sentido político estratégico de validar narrativas históricas hegemônicas e sua relação com a cidade. A partir daí, outros monumentos serão “realizados” e constituídos pelos corpos do coletivo: tornando-se estátuas, portas e edifícios para histórias invisibilizadas e narrativas pessoais. O público será convidado a participar de um passeio guiado por locais determinados propostos em uma cartografia criada na pesquisa. Os turistas (o público) serão levados em um “city tour” para visitar estes monumentos “fictícios”, acompanhados de guias turísticos “especializados” que irão explicar suas relações na cidade.

Desde 2011, Atos de Fala se firma no cenário carioca como um festival pioneiro animado pela força de ação política e poética das palavras. “As palavras devem ser tomadas como um vasto campo de experimento, e quando isso acontece, esburacamos seus protocolos. Como Fazer Coisas com Palavras! “ observa Cristina Becker. “Esta edição acontece em meio a uma crise que reverbera diretamente no campo artístico. Certamente por cessarem as políticas de fomento, mas ainda pior por vermos acontecer aqui no Brasil um fenômeno muito parecido com as chamadas guerras culturais nos Estados Unidos dos anos 1990.  Vemos aqui replicadas aquelas mesmas estratégias de difamação e judicialização da arte experimental e progressista. “ completa Felipe Ribeiro.

AdF.crise conta com a parceria do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, da Prefeitura do Rio de Janeiro, do Instituto Goethe Rio, e apoio da BOCA, e de toda a equipe, colaboradores e artistas envolvidos nessa edição.

Programação – AdF.crise

CMAHO – Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica

Rua Luís de Camões, 68 – Centro

Entrada Franca

Auditório

07 (quinta) a 09 (sábado) de dezembro, classificação etária: livre | das 15h às 17h

A Besta e o Soberano, ciclo de palestras-intervenções

Ideia de seminário onde cada palestrante se propõe a pensar o formato de aula como o mote dramatúrgico para sua intervenção. Ação proposta a partir das noções de poder problematizadas por Jacques Derrida em A Besta e o Soberano, que conta com a participação dos professores Denise Espírito Santo e Sérgio Andrade, e dos dramaturgos João Turchi e Gustavo Colombini (grupo cinza). Ao final de cada dia, um convidado endereça uma pergunta aos outros participantes. Cada pergunta serve de ponto condutor para a intervenção do dia seguinte.

Sala Multiuso

07 (quinta) a 09 (sábado) de dezembro, classificação etária: 16 anos | das 13h às 18h

GatoNet, mostra de vídeos sob copyleft.

Saguão de Entrada

07 (quinta) de dezembro, classificação etária: livre | às 17:30h

Ré Pública, performance itinerante

Quarta performance da série de caminhadas de costas concebidas pelo performer Elilson. Do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica ao Campo de Santana, uma trinca de brasileiros marcha lentamente e de costas pelas ruas da cidade, com um tecido bordado à mão e duas pás. Ao término da caminhada, uma pequena porção de terra é escavada – onde o tecido é depositado, mas não enterrado.

08 (sexta) e 09 (sábado) de dezembro, classificação etária: livre | às 17:30h

Monumoments, performance itinerante

Trabalho desenvolvido a partir de uma residência artística realizada entre os artistas do Coletivo Bonobando, sob a supervisão de Simon Will (do grupo alemão Gob Squad) e Adriana Schneider (Coletivo Bonobando). Monumoments se constitui como uma pesquisa sobre monumentos históricos da cidade. A ideia de monumento será problematizada em seu sentido político estratégico de validar narrativas históricas hegemônicas e sua relação com a cidade. A ação parte do CMAHO e convida o público para um passeio guiado que percorre uma cartografia criada na pesquisa.

BOCA

Praça Tiradentes, 85 – Centro

Contribuição Voluntária

09 (sábado) de dezembro, classificação etária: 18 anos | às 20:00h

O Capital é Capilar, performance

A artista Flávia Naves integra a programação de mais uma edição do Atos de Fala, dessa vez com a realização da performance O Capital é Capilar. Nesse projeto, a performer propõe ter os pelos do seu corpo arrancados por cera quente e cédulas de dinheiro ofertadas pelo público. O público oferece a nota de dinheiro e a performer oferece ao público a possibilidade de executar as ações.

ATOS DE FALA
Direção Geral: Cristina Becker e Felipe Ribeiro
Diretores Artísticos & Co-Curadores: Cristina Becker e Felipe Ribeiro
Coordenação Executiva e Produção: Marcelo Mucida
www.atosdefala.com.br
https://www.facebook.com/atosdefala
https://twitter.com/AtosdeFala
Realização: Atos de Fala

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