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dezembro 16, 2018
Música

Fabio Zanon e Angelica de La Riva – The Art of Olga Praguer Coelho na Sala Cecilia Meireles

Olga Praguer Coelho
Olga Praguer Coelho

Olga Praguer Coelho viveu intensamente quase um século. Sua obra intensa em quantidade e qualidade rendeu-lhe o apelido de “Soprano Insaciável”. Andou esquecida pela música até que a Guitarcoop, uma plataforma online formada por um grupo de músicos com o objetivo de estabelecer parcerias com violonistas contemporâneos e resgatar grandes músicos da nossa história, iluminou seu talento.

Após um minucioso trabalho de pesquisa, limpeza de áudio e adaptação para os padrões atuais de serviços de streaming realizado por Ricardo Marui e Sergio Abreu, a Guitarcoop está lançando a remasterização da obra de Olga Praguer Coelho. Fazendo justiça a uma das mais importantes musicistas brasileiras de todos os tempo.

Com um concerto terça-feira, dia 14 de agosto, às 20h na Sala Cecília Meireles contando com 2 dos maiores músicos brasileiros, o violinistas Fabio Zanon e a soprano Angelica de La Riva, a obra de Olga Praguer Coelho ganhará novamente o lugar de importância fundamental não só no cenário da música mundial.

Angelica de La Riva

Angelica de La Riva
Angelica de La Riva

Vencedora do Prêmio Mérito Cultural Carlos Gomes pela mais alta distinção e mérito pessoal de seu trabalho e atividades pela Música Clássica Brasileira em todo o mundo e elogiada por ter “uma presença deslumbrante, uma voz calorosa, ágil e poderosa, refinamento e postura de uma grande cantora. ”Soprano brasileira/ cubana gravou e interpretou o papel principal em Horas Vacías, uma ópera do compositor espanhol Ricardo Llorca no Alice Tully Hall no Lincoln Center, conduzida por E. Plasson, a mesma produção no Teatro São Pedro com Mo Soriano, assim como sua estréia no Carnegie Hall em 2010 interpretando compositores brasileiros clássicos onde ela se apresenta regularmente. Em 2011, Ms de la Riva teve sua estréia na China cantando com a Orquestra Sinfônica de Shenzhen, conduzida pela produção de Mo. Van de Velde – Melodie Dialogue. Os destaques das performances de Ms. de la Riva incluem L’Italiana in Algieri, de Rossini, com a Orquestra Sinfônica de Praga, sob o comando de Mo. R. Boudharam, em Paris, e a mesma produção com a Orquestra de St. Luke em Lincoln Center, tornando-se a primeira. Soprano brasileira para se apresentar no Avery Fisher Hall; Paixão em Veneza no Museu de Arte Bíblica. Também em NY, De la Riva estreou o papel principal de Filomena em A Ascensão e Queda do Primeiro Mundo, a Ópera de Câmara por Michael Kowalski; Poppea em L’Incoronazione di Poppea; A Condessa no Casamento de Figaro; LaChatte / L’Ecureuil em L’Enfant et les Sortilèges e Desirée em A Little Night Music, de Stephen Sondheim, no Brooklyn Center for the Performing Arts, realizado por Mo. Barret; Sandrina em La Finta Giardiniera; off Titania da Broadway em Fools in Love Sonho de uma noite de verão; Ceres em The Tempest – The Tempest Fools com Manhattan Theatre Group;Liebes Lieder de Brahm e Neues Liebes Lieder. Produção teatral da Disney da Bela e a Fera em São Paulo, Brasil.

Fabio Zanon
Fabio Zanon é um dos artistas brasileiros de maior prestígio internacional. Seu estilo, que explora ao limite o potencial expressivo do violão, bem como sua diversificada atividade como regente, camerista, professor, escritor, organizador e comunicador têm contribuído para ampliar a percepção do violão no cenário da música clássica.

Como solista, já se apresentou em mais de 50 países, em teatros como o Royal Festival Hall e Wigmore Hall em Londres, Carnegie Hall em Nova York, Tchaikovsky Hall em Moscou, Philharmonie em São Petersburgo, Beux Arts Centre em Bruxelas, Les Invalides em Paris, Concertgebouw em Amsterdam, Koerner Hall em Toronto, KKL em Lucerna e Sala Verdi em Milão. Ele toca constantemente nos maiores festivais ao redor do mundo.

Seu repertório inclui mais de 40 concertos com orquestra – muitos deles em estreia mundial – e virtualmente todo o repertório de câmara. Entre as orquestras com que já se apresentou contam-se a Filarmônica de Londres, a Sinfônica da BBC, Orquestra Estatal Russa, Ulster Orchestra, RTÉ Symphony em Dublin,  Orquestra de Câmara de Israel, I Fiamminghi e Deutsche Kammerakademie. Com a OSESP já gravou o concerto de Francis Hime, um disco nominado para o Grammy Latino, e o Concierto de Aranjuez, que deve ser lançado em breve. Ele mantém uma longa parceria com o flautista Marcelo Barboza, mas tem também tocado com músicos tão diversos quanto os violinistas Emmanuele Baldini, Nicholas Koeckert e Daishin Kashimoto, oboísta Christian Wetzel, violonista Yamandu Costa e cantores de todos os estilos como Claudia Riccitelli, Carole Farley, Rosana Lamosa, Rodrigo del Pozo, Toquinho, Ney Matogrosso e Maria Mulata.

Reconhecido também como maestro, ele é possivelmente o único violonista que regularmente se apresenta na qualidade de solista/regente. Sua atuação à frente da estreia sul-americana da ópera O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, de Michael Nyman, foi escolhida como melhor concerto de 2011 pela Vejinha.

Concebeu, escreveu e apresentou cerca de 200 programas para a Radio Cultura, inclusive as séries A Arte do Violão e O Violão Brasileiro, que são adotadas até como material didático.

Fabio estudou inicialmente com seu pai e, mais tarde, com os professores Antonio Guedes, Henrique Pinto e Edelton Gloeden. Mudou-se para Londres em 1990, onde estudou na Royal Academy of Music com Michael Lewin, e participou das master classes de Julian Bream e John Williams; obteve seu mestrado na Universidade de Londres.

Apesar de não se inclinar à competição, Fabio teve um impulso excepcional em 1996, ao vencer os dois maiores concursos internacionais de violão, o Certamen Francisco Tarrega na Espanha e o Concurso Internacional da Guitar Foundation of America (GFA). É recipiente de um grande número de distinções, entre elas o Prêmio Carlos Gomes e o Prêmio Bravo!. Foi eleito Fellow da Royal Academy of Music, um título reservado para antigos alunos de excepcional destaque como Sir Simon Rattle, Sir Harrison Birtwistle e Dame Evelyn Glennie.

É Visiting Professor da Royal Academy of Music desde 2009; também atua regularmente como professor no Master Guitarra Alicante (Espanha), no Festival de Lisboa-Estoril e foi professor residente no Conservatório Real de Estocolmo em 2008. Tem dado cursos e master classes nos maiores festivais e conservatórios ao redor do globo, da Juilliard em Nova York até os principais conservatórios do extremo Oriente. Desde 2014 tem atuado como coordenador artístico e pedagógico do Festival de Inverno de Campos do Jordão, onde supervisiona as atividades de centenas de alunos orquestrais.

Fabio Zanon é autor do livro Folha Explica – Villa-Lobos e suas gravações são agora lançadas com exclusividade pela GuitarCoop.

Sobre Olga Praguer Coelho, escreveu Luiz Antonio Giron:
A soprano Olga Praguer Coelho continua a cantar, e bem, aos 92 anos, embora tenha sido esquecida pela música. É uma das deusas do canto nativo nos anos 20 e 30. Sua discografia atinge duas centenas de títulos, entre discos de 78 rotações e LPs, gravados no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Europa e até Oceania, onde realizou uma turnê, na década de 40. Um álbum duplo com alguns de seus mais importantes desempenhos deve sair até o fim do ano em Nova York pela BMG. Em 1998, Olga participou do programaEnsaio, da TV Cultura de São Paulo, e ainda quer gravar uma segunda parte, só com canções, para futura edição em CD. Atende o telefone de seu apartamento que fica no oitavo andar de um prédio em Laranjeiras, construído em um terreno da casa de sua infância. É fácil marcar a entrevista, e, à chegada, a empregada oferece água e café na tarde tórrida de fim de abril. Os fatos parecem correr de acordo com o roteiro combinado. Mas Olga, no papel de diva, impõe uma espera vagarosa. A empregada não vem mais e só se ouvem ordens da cantora, que arruma o penteado. Duas horas se passam e, por insistência da reportagem, Olga concede em surgir, com cabelos desfeitos e a boca manchada de batom.

Caminha com lentidão nervosa, de bengala. É seguida pela cachorra Pitucha, que pula ao seu colo tão logo se acomoda a uma cadeira. O sol despenca mais que a cotação da Nasdaq e o fotógrafo se esfalfa para pegar os restos da luz. A matéria parece fracassada. No entanto, ao ritmo do crepúsculo veloz do Rio, a conversa se avoluma e a senhora rejuvenesce à medida que as sombras maquiam-lhe o rosto. A diva desfia lembranças; possui o dom de convencer. Agora está com 3 anos, escapa do camarote dos pais e se apresenta ao chefe de orquestra de sopros de um navio alemão que leva a família de Salvador à primeira viagem à Europa. “Sou cantora!”, anuncia. O maestro ri, mas dá o sinal para os músicos atacarem os acordes de uma ária da opereta A Viúva Alegre, de Lehár. A menina canta em alemão, língua que aprendeu com a governanta, Christina Elizabeth, nascida em Heidelberg. Os pais e Álvaro, o irmão 7 anos mais velho, aplaudem o recital improvisado. Corre o ano de 1912.

Olga nasce em Manaus em 12 de agosto de 1909, mas sua família vem da Bahia. “Meu pai, o doutor Antônio Barreto Praguer, detestava o fato de eu ter nascido no Amazonas e fez questão de que eu fosse batizada em Salvador.”

As informações se atropelam. A memória erra por um mundo perdido que só figura nos livros, discos e filmes. A voz está quatro ou cinco graus mais grave, mas se assemelha àquela que fascinou o compositor Béla Bartók em Budapeste em 1936 com uma abordagem feroz do ponto de macumba Xangô – seu maior êxito.

Olga acompanha-se ao violão, cujos rudimentos aprendeu com Patrício Teixeira (1893-1972), mito do samba e um dos pioneiros da era elétrica. Aliás, Olga inaugurou a tecnologia ortofônica de gravação e o rádio… Para não falar de sua feérica vida amorosa: bela, talentosa e cobiçada por astros e estrelas, abandonou o casamento com o poeta Gaspar Coelho, no fim dos anos 30, em Nova York, para viver com o violonista espanhol Andrés Segovia (1893-1987). Caprichos da fatalidade.

Olga pensa que as origens familiares lhe deram parte de sua fortuna. O avô, o engenheiro Heinrich Prager, nasceu em Viena e aportou na Bahia por volta de 1880. O céu lhe remeteu à Côte D’Azur. Resolveu se instalar em Salvador, onde constituiu família. A mãe de Olga, Edelvina Alves Praguer, Lulita, queria seguir carreira como pianista e, até o episódio do navio, não imaginava o talento da filha. “Os músicos tocavam de pé e eu cantei em cima de uma mesa. Um sucesso!” Lulita passou a lhe dar aulas de piano. Aos 12 anos, mudou-se com a família para o Rio porque o pai assumiu a direção de um hospício. Olga trouxe consigo um repertório de modinhas antigas. “Papai cantava ao violão essas modinhas, que aprendeu com os escravos. Mas não queria que tocássemos pois achava que era instrumento de capadócio”, diz, explicando que “capadócios” eram os malandros que viviam de vender músicas.

Conta 13 anos quando o tio baiano, em visita ao Rio, lhe dá 60 mil réis. Com o dinheiro, Olga resolve comprar um violão. Escoltada pelo tio, vai à loja A Guitarra de Prata, na rua da Carioca. Lá, um balconista negro escolhe um bom instrumento e ela começa a ensaiar, escondida do pai, com a complacência de Lulita. “’O violão ficava na despensa da cozinha.” O pai flagra-a dedilhando o instrumento sobre a mesa da cozinha e ordena que ela o devolva à loja. “Mas acabou cedendo por causa do doutor Miguel Couto, amigo dele, que aceitou trabalhar para mim a fim de convencê-lo.”

O pai manda chamar Patrício Teixeira, afamado professor de violão das moças da sociedade. “Era um negro com linda voz de barítono. Arnaldo Guinle o descobriu. Trabalhava como chofer dele. Aí Arnaldo o despachou para a vida artística. Falava bem e ensinava eu e meu irmão por cifras de acordes.” Aos 15 anos, por estímulo do professor, estréia num palco, num dos prédios da Exposição de 1922, no centro do Rio, em espetáculo promovido pela poetisa Ana Amélia Carneiro de Mendonça. Logo se dá um recital, acompanhando-se ao violão, na Escola Nacional de Música. “Papai ficou furioso, mas se emocionou.”

Conhece o poeta Gaspar e se apaixonam. “Queríamos casar, mas ele era pobre. Tive de convencer meu pai de que podia trabalhar para ajudar Gaspar. Daí comecei a dar aulas de violão para moças.” Em 1928, Patrício leva-a ao microfone da Rádio Clube do Brasil (a primeira emissora comercial brasileira), onde mantém um programa. Canta acompanhada por Patrício, ganha fama. “O estúdio ficava perto do prédio da Caixa Econômica, e a gente cantava por um vidro. Ospeaker ficava do outro lado, sinalizando.” A cantora se embaraça para adaptar violão e voz a um mesmo microfone. “Não estava acostumada aos aparelhos.” Pelo “aquário”, a governanta alemã está de prontidão.

Para consolidar carreira, estuda harmonia com o compositor Lorenzo Fernandez. Em 1929, o empresário Fred Figner, pai de uma amiga, convida-a para gravar na Casa Edison, na cúpula do Teatro Fênix. Patrício e Canhoto, ao violão, acompanham seu primeiro disco, para o selo Odeon, com a embolada “A mosca na moça” e o samba do norte “Sá querida”, da também cantora Celeste Leal Borges. “Celeste era minha aluna de violão e sua música me agradou. Foi o começo.” O disco, lançado em dezembro de 1929, causa repercussão. Olga é recebida pela nata musical brasileira. Torna-se amiga dos cantores Francisco Alves e Carmen Miranda. Conhece os compositores Sinhô e Noel Rosa, “que não tinha o céu da boca”.

Casa-se aos 22 anos, realiza temporada na Rádio Belgrano em Buenos Aires. “Carmen me avisou que o dono da emissora explorava os cantores, e era verdade. Mas devo muito ao público de Buenos Aires.” Recorda da timidez de Francisco Alves: “Fez excursões com Patrício. Mudo em palco, tinha vergonha de repórter.” A mulher de Chico, Célia Zenatti, de tão ciumenta, não deixa o marido ser fotografado com outras mulheres. Faz exceção a Olga, por ser casada. Olga inaugura a Rádio Tupi, em 25 de setembro de 1935. O cantor mexicano Pedro Vargas aparece por lá no início do ano seguinte. “Os artistas brasileiros boicotaram Pedro e fui a única a lhe dar boas-vindas. Ficamos tão amigos que fez questão de gravar, em dueto, ‘Boi, boi, boi’ no meu terceiro disco na Victor.” A sessão aconteceu em abril e foi lançado em julho de 1936. O motivo baiano “Boi, boi, boi” figura no lado B; na face contrária, o duo interpreta “Canto de expatriação” (Humberto Porto). Na rádio, Olga se especializa em folclore planetário; apresenta um programa, no qual explica o conteúdo das canções. Não agrada a todo o mundo. Aluna da Escola Nacional de Música, é apoiada por Lorenzo Fernandez, conhece Heitor Villa-Lobos (que lhe sugere uma interpretação em acelerando do ponto Xangô, para imitar o movimento do transe das mães-de-santo), contrata aulas de canto com a russa Riva Pasternak e a italiana Gabriela Besanzoni (1890-1962) – contralto romana famosa por sua Carmen. “A voz dela era grave. Dizem que gostava de mulher”, revela. “Foi perseguida por uma fã excêntrica. Um escândalo. Mas comigo nunca houve nada. Era um modelo para mim. Fiquei frustrada quando me disseram que eu não era contralto. Gabriela me ensinou a importância da respiração.”

Com a mãe, Olga viaja a São Paulo e visita o crítico Mario de Andrade, recomendada por Fernandez, para convidá-lo para o recital. “Mario era todo empinado e afetado. Queria entender de música, mas não entendia. Recebeu-me sem educação. Fiquei de pé diante dele, sentado, embora houvesse outras cadeiras no escritório.” Mario examina o programa e exclama: “Tudo errado! A senhora deveria cantar só música brasileira!” Olga retruca: “O programa está aprovado por Fernandez, que sabe mais de música que o senhor. Aliás, o senhor pode me devolver o ingresso. É melhor que não vá ao concerto!” E se retira. O recital é um sucesso; contam-lhe que Mario estava na platéia. Crítica dele não sai no jornal. Felizmente, ele não tem influência no Rio. Com a ajuda de um fã, Macedo Soares, ministro das Relações Exteriores, Olga é nomeada por Getúlio Vargas representante da música brasileira na Europa “sem ônus para o Tesouro Nacional”. Mesmo assim, Soares paga a viagem para ela e Gaspar. O casal embarca no Graff Zeppelin rumo a Berlim, na última viagem que o dirigível faz na América. Após cinco dias no balão, chega à capital alemã a tempo de participar do encerramento das Olimpíadas. “Fui convidada ao camarote brasileiro, que ficava do lado esquerdo do de Hitler. Conheci o sujeito, que me pareceu impertinente. Recusei-me a dizer heil, Hitler.” A conselho de Villa-Lobos exige que as rádios alemãs transmitam os recitais em ondas longas para que o público local possa conhecer o folclore brasileiro. Viaja pelo continente com a exigência das ondas longas. No teatro Nacional de Budapeste, sente alívio. “Estava longe de casa. Se fosse vaiada, ninguém saberia. Aí me avisaram que Bartók estava na primeira fila. Gelei, mas depois ele foi ao camarim me elogiar. Gostou do folclore brasileiro, especialmente por causa do ritmo.”

Consagrada, de volta ao Brasil, Olga arranja mais viagens. Por indicação de Villa-Lobos e do escritor Erico Veríssimo, é convidada pelo governo americano para se apresentar em Washington e Nova York. Em 1938, canta na Casa Branca para Eleanor Roosevelt e assina contrato com a RCA Victor. Ela e Gaspar se instalam num apartamento na Sétima Avenida, defronte ao Central Park. Seu concerto no Town Hall é um sucesso. A crítica solta rojões. Camargo Guarnieri a convoca para lançar árias suas, para inveja de Elsie Houston (1902-1943), soprano amiga de Mario de Andrade que, até a chegada de Olga, tinha monopólio do folclore verde-amarelo em Nova York. “Elsie falava mal de mim e brigava com todos. Era problemática. Casou-se com um barão belga, que a roubava. Terminou por se atirar do seu quarto de hotel em Manhattan, deixando o filho de 11 anos à janela e Camargo Guarnieri à espera dela na estação, pois iam fazer um recital em Washington.”

Tudo corre bem para Olga e Gaspar. Ele se emprega na CBS como locutor. Então aparece Andrés Segovia, grisalho e Don Juan. “Era fascinada por ele desde os 15 anos. Acompanhei a carreira dele pelos jornais espanhóis que Lorenzo Fernandez assinava. Ele me cumprimentou dizendo: ‘A sus pies‘. Irresistível. Primeiro, recebi-o no apartamento. Servi-lhe um jantar baiano e lhe apresentei uma amiga cubana assanhada. Segovia me convidou para ir a seu quarto de hotel, para me ensinar segredos de sua nova técnica de violão”, lembra. “O hotel ficava perto da minha casa. Era um quarto sem suíte, só com a cama. Ensaiávamos ali mesmo. Ele acariciava minha mão, eu resistia, e até me confessei a um padre francês na igreja de St. Patrick. Tinha o recital marcado para Washington e ele quis ir no mesmo vagão, só que Gaspar não gostou. E não é que ele se hospedou no mesmo hotel que nós?” Em Washington, o romance se revela irresistível. Olga separa-se de Gaspar e segue o violonista em suas turnês intermináveis. A partir de então, a carreira da soprano ganha força: percorre o mundo, desbrava públicos para a música brasileira, como em Báli e Nova Zelândia. Com Segovia, gera dois filhos, Miguel e Glória – que, porém, adotaram Gaspar como pai real, já que o virtuose não tinha tempo para a família. “Minha vida com Segovia durou duas décadas. Foi internacional, de hotel em hotel, até que ele, aos 70 anos, se enfeitiçou por uma aluna de 20 anos, a ‘inocente’ Emilia. Teve um filho com ela. Gaspar ainda vivia quando da separação. Devotou-se a meus filhos. Foi locutor até morrer. Poeta, traduziu para o português, em versos, as legendas do filme Hamlet, com Lawrence Olivier. Nunca deixou de me amar.”

A gente deve se resignar ao destino, aconselha. O dela foi pontuado por colcheias de sorte. A noite agora se completa e Olga não atenta em ligar o abajur. Despede-se na penumbra, rechaçando fontes externas de luz. Sua glória – ou desforra – é cantar vivendo.

 

*Guitarcoop é uma iniciativa pioneira no Brasil que vem revolucionando o modo de produção e multidistribuição de gravações, já acumula dezenas de lançamentos de registros tanto contemporâneos quanto de resgate de performances indispensáveis à história do violão

Programa do concerto
CD The Art of Olga Praguer Coelho. Segundo volume da série “historical recordings” lançado pela Guitarcoop 

Serviço

Fabio Zanon, violão e Angelica de La Riva, soprano – A Arte De Olga Praguer Coelho

Dia: 14 de agosto, terça-feira
Horário: 20 horas
Local: Sala Cecília Meireles – Largo da Lapa, 47 – Centro, RJ
Telefones: 21 2332-9223; 21 2332-9224
Ingressos : R$ 40,00 e R$ 20,00 (idosos, estudantes de música)
Estacionamento na Rua Antônio Regadas
Vendas antecipadas: www.ingressorapido.com.br

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