Cromossomo 21, de Alex Duarte, questiona com história de amor

Clarice Falcão e Lenine participam da trilha sonora O filme, que aborda a relação entre uma jovem que tem Down e um rapaz que não tem, estreia dia 30 de novembro em várias cidades do país

Dirigido e roteirizado por Alex Duarte, o longa-metragem Cromossomo 21 se debruça sobre a rotina da jovem Vitória. E a rotina dela, na prática, é a igual a de todo jovem: ela estuda, vai às baladas, sai com as amigas, briga com a irmã, se queixa da mãe, se apaixona. Ela, no entanto, tem medo de perder a pessoa que ama, o namorado Afonso, por causa do preconceito da família dele. É questionadora, destemida e vai lutar por sua autonomia e seus ideais. Quem interpreta a protagonista é Adriele Pelentir, uma jovem com Síndrome de Down, formada em Nutrição pela Faculdade de São Luiz Gonzaga.

Alex Duarte tinha apenas esta ideia quando decidiu fazer o filme, sete anos atrás. Acabou totalmente envolvido na causa da inclusão social e hoje dá palestras sobre o tema pelo país. Cromossomo 21 deixou de ser apenas um filme e tornou-se um grande projeto. Em 2015 foi lançado o livro duplo: “21, do diagnóstico à independência” e “Cromossomo 21”, escritos pelo diretor. Em 2017, a web série Geração 21 aportou no Youtube.

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Realização de baixo orçamento, produzida de forma cooperativada, o longa-metragem teve Menção Honrosa no Festival de Gramado 2016, venceu como filme destaque no Los Angeles Brazilian Festival e premiado como Melhor Filme (voto popular) no Festival Internacional de Cinema de La Mujer.

Os anos que separam o início das filmagens do lançamento do filme, transformaram não somente a vida de Adriele, mas também a do ator Luís Fernando Irgang, que elegeu como tema de seu trabalho de TCC a inclusão social nas empresas. A vida de Alex Duarte, entretanto, mudou no dia em que ele conheceu Adriele e ela lhe fez a pergunta que complementa o título do longa: O que você faria se fosse impedido de amar? “Eu quero saber quais respostas as pessoas podem dar a esta pergunta depois de ver o filme”, diz Alex.

Estreia dia 30 de novembro

Em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Curitiba, Brasília e Salvador

– os ingressos já estão disponiveis para compra pelo site www.itaucinemas.com.br / www.ingresso.com/belo-horizonte/home/cinemas/cine-belas-artes

Ficha técnica

Cromossomo 21
Brasil, 2016, 91 min, 10 anos 

Elenco: Adriele Pelentir (Vitória), Luís Fernando Irgang (Afonso), Marisol Ribeiro (Aline, irmã de Afonso), Deborah Finocchiaro (Catarina, mãe de Vitória)  Susy Ayres (Antônia, mãe de Fernando), Fernando Barbosa, Patrícia Marques, Saulo Meneghetti, Tatiana Monteiro e Fernanda Ávila

Direção, roteiro e montagem: Alex Duarte
Direção de Fotografia: Helder Martins
Trilha Sonora: Clarice Falcão, Lenine, Alexandre Fontoura e André Trento
Figurino: Suzi Perotti
Assistente de direção: Enyel da Rosa e Marcio Bohrer
Maquiagem: Suzi Perotti e Giovana Poppe
Assistente de Som: Márcio Bhorer, Enyel Rosa, Carolina Silvestrin, Tati Saute
Colorista: Lígia Tiemi Sumi
Câmeras: Helder Martins, Tyrell Spencer (Galo de Brigas filmes), Marcos Rocha(7db filmes) , Juliano e Ambrosini
Edição de Som e Mixagem: Kiko Ferraz Studios
Efeitos Especiais: Paulo Torres Morais e Andreia Pierina
Facebook: https://www.facebook.com/Cromossomo21/
Instagram: @cromossomo21
Twitter: @cromossomo21 

 ENTREVISTA COM ALEX DUARTE

De acordo com você, o seu encontro com a Adriele gerou a vontade de fazer o filme. O que foi tão motivador neste encontro?
Eu tinha acabado de fazer meu documentário sobre o Haiti e já buscava ideias para outro filme, quando fui escalado para entrevistar a Adriele para o jornal local onde eu estagiava. O motivo da matéria: ela tinha passado no vestibular para Nutrição. Quando eu comecei a conversar com ela, percebi que ia ter que rever meus pontos de vista a respeito do que era interagir com uma pessoa com Síndrome de Down. A Adriele me fez logo de cara uma pergunta que me desconcertou, ela falou se eu tinha um melhor amigo, eu disse que sim e perguntei por quê, ela respondeu: “porque eu não tenho, Alex. Você quer ser meu melhor amigo?”. A pergunta me desconcertou e ela continuou:. E o que você faria se nessa vida não pudesse amar? A partir deste dia, passei a frequentar a casa dela, nossas famílias se aproximaram, nos tornamos grandes amigos, ao mesmo tempo em que amadurecia a vontade de fazer um filme com ela. Foi então que me veio a ideia de uma história de amor entre uma garota que tem Síndrome de Down e um jovem que não tem.

Adriele tem o papel mais importante no filme. Que tipo de preparação foi feita, já que ela nunca tinha trabalhado como atriz?
Fizemos um teste e ela se saiu muito bem. Então demos início a um laboratório que durou oito meses. A Adriele rouba a cena de Cromossomo 21, e não tem nada a ver com o cromossomo a mais que ela carrega. Adriele busca tudo aquilo que ela quer. Conseguiu transitar do cômico ao dramático e teve maturidade para encarar as cenas de amor.

As cenas de amor trouxeram alguma dificuldade?
Nenhuma. Foi super tranquilo de fazer, tanto para a Adriele como para o Luís Fernando. O Luís é um ator de grande sensibilidade, foi muito importante para conseguirmos um resultado verdadeiro com a trama.

De onde vieram os recursos para dar início às filmagens?
De forma independente, com recursos do próprio bolso. Depois, fomos juntando colaboradores na cidade. Uma parte do filme Cromossomo 21 foi produzido de forma cooperativada. Em 2016 captamos via Lei de Incentivo à Cultura os recursos que faltavam para a finalização, colorização, dublagem, como por exemplo, a correção de áudio com  a coordenação do mestre Kiko Ferraz.

Você acha que ter realizado o documentário no Haiti te trouxe um diferencial para a produção de Cromossomo 21?
Documentar no Haiti me colocou dentro da realidade, e Cromossomo 21, apesar de ser uma ficção, tem muita coisa da vivência real. Todo o laboratório que eu fiz com a Adriele foi muito real, muitos diálogos que estão no filme resultaram de falas dela, de experiências dela. Estes sete anos transitando dentro da inclusão no Brasil me possibilitou imprimir no filme uma visão realista do amor sob o ponto de vista de uma jovem com síndrome de down.

Nestes últimos anos, você se dedicou a dar palestras sobre Síndrome de Down, escreveu um livro sobre o tema, criou uma web série e produziu o longa-metragem. Fale um pouco desse projeto. Cresceu, não?
Sim, cresceu muito. O livro foi lançado em 2015, e ele tem um formato duplo: de um lado, ele conta a história do filme, do ponto de vista da protagonista; do outro há o relato de casos de muitos jovens com Síndrome de Down que têm conquistado a sua independência, a sua autonomia. As palestras, eu venho fazendo ininterruptamente desde 2010. É muita dedicação, os retornos são sempre muito importantes. Desde o ano passado, eu comecei a documentar encontros com pessoas com Down e criei uma web série chamada Geração 21 (disponível no youtube), mostrando 12 jovens com Down na busca de sua autonomia. A série já foi selecionada para diversos festivais do Brasil.

ADRIELE PELENTIR
Adriele estreou como atriz em Cromossomo 21. Dedicou-se de corpo e alma ao filme, “porque eu sabia que era um trabalho importante”. Ensaiou centenas de vezes, decorou textos longos, improvisou e trouxe muitos diálogos e vivências para dentro da história. Construiu uma sólida amizade com o diretor Alex Duarte e o ator Luís Fernando Irgang, com quem diz que conheceu o companheirismo. “O Luís é muito simpático e muito querido”, enfatiza ela.

Desde a morte da mãe há cerca de 2 anos, ela mora com a irmã na mesma São Luiz Gonzaga (RS) de sua infância. Mas agora, aos 29 anos, ela experimenta uma diferença: Cromossomo 21 trouxe mudanças muito significativas para sua vida. Adriele conheceu gente nova, fez mais amigos. Além disso, o filme lhe gerou outras perspectivas na busca de sua autonomia. Protagonizar um filme sobre a vida de uma jovem como ela abriu-lhe portas para uma nova profissão e muitas reflexões. “Foi natural interpretar, mas me ver na tela de cinema foi uma experiência muito diferente.” Ela diz que aprendeu “muitas coisas de interpretação com as atrizes mais experientes, aquelas já famosas”. Aprendeu tanto que quer continuar com o ofício. Gostaria de fazer, por exemplo, uma novela pra ver qual é a diferença. E também porque gosta muito de assistir novelas, assim como adora ir à academia se exercitar todas as manhãs, depois de tomar seu chimarrão. “Ah, também adoro música sertaneja!”, conta ela. “E de dançar… e de viajar”.

A respeito do filme, tem opinião formada: “É uma história verdadeira. As pessoas devem assistir porque ela mostra o amor, não só o preconceito”.

LUÍS FERNANDO IRGANG
Luís Fernando chegou à equipe de Cromossomo 21, por causa da sua atuação no teatro universitário da Unijuí (RS). Alex o viu em cena e o convidou para um teste. A inexperiência com cinema não pesou, já que o diretor priorizou outros requisitos: boa atuação e possibilidades de empatia com a atriz Adriele Pelentir, protagonista do filme.

“Depois disso, foram muitos encontros para laboratório junto com ela, o que incluiu conhecer a rotina de cada um, a cidade de cada um, famílias, gostos, hobbies, etc.”, conta o jovem de 27 anos, que acaba de trocar a cidade de Ijuí por uma nova vida em Blumenau. Ele chega à cidade catarinense para trabalhar na área administrativa, depois de ser aprovado num concurso público. Ao mesmo tempo, pretende subir mais um degrau na universidade, juntando ao diploma de Bacharel em Administração um de mestrado. O TCC de Luís ecoa os bons ventos de Cromossomo 21. Cooptado pela causa, o ator que nunca tinha tido contato com uma pessoa com Síndrome de Down antes do filme, elegeu como tema de seu trabalho de graduação a inclusão social de pessoas com deficiência nas empresas.

Considera que fazer Cromossomo 21 o desafiou de duas formas: desconstruir preconceitos e desconstruir-se também como ator. Os preconceitos que ele teve de rever não diferem dos de muitos de nós: ele não imaginava que uma pessoa com Down pudesse ser como Adriele, ter uma vida bastante ativa, desejar mais autonomia, buscar desafios, lutar por seus objetivos. No plano da atuação, ele teve que deixar de ser ator de teatro (“a minha atuação sempre foi muita farsesca”) para tornar-se um ator que tem diante de si uma câmera (“onde tudo é amplificado”). Mas não abandonou o teatro. Continua a apresentar o espetáculo “As primas”, trabalho cômico que realiza há seis anos com outro ator pelas cidades gaúchas. 

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