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maio 21, 2019
Teatro & Dança

Com amor, Vinicius ou como sobreviver nesta selva oscura e desvairada

Com amor, Vinicius - Foto: Rafael Blasi
Com amor, Vinicius - Foto: Rafael Blasi

Musical que mostra o lado humanista do poeta Vinicius de Moraes será visto no Imperator, em única apresentação, dia 14 de março

A partir dos anos 70, quando os shows de música migraram em definitivo das boates para os teatros, Vinicius de Moraes adota um formato de apresentação que seria sua marca até morrer, em 1980. O grande poeta e compositor subia o palco tendo a companhia de um exímio violonista e de uma cantora de timbre marcante. Enquanto o violão foi dedilhado por Dori Caymmi, num primeiro momento, e por Toquinho (um dos seus parceiros musicais mais freqüentes), a cantoria ficava a cargo de nomes expressivos como Maria Bethânia, Maria Creusa, Clara Nunes, Marília Medalha, Joyce, Miúcha e até mesmo o Quarteto em Cy. Muitos desses encontros originaram LPs (o com Clara Nunes rendeu o histórico “O poeta, a moça e o violão”). Pois esse conceito de show é o ponto de partida de “Com amor, Vinicius — Ou como sobreviver nesta selva oscura e desvairada”, novo musical de Hugo Sukman e Marcos França, que fecha a trilogia composta por “Deixa a dor por minha conta”, sobre Sidney Miller, e “Nara – A menina disse coisas”, sobre Nara Leão. No novo musical, Vinicius é vivido pelo próprio Marcos França, que divide a cena com a cantora Luiza Borges, com o violonista Victor Ribeiro e com o baterista/percussionista Matias Zibecchi. O espetáculo tem direção de Ana Paula Abreu e, após três bem-sucedidas temporadas (Teatro dos 4, Casa de Cultura Laura Alvim e Teatro da UFF), fará única apresentação no Centro Cultural João Nogueira — Imperator, dia  14 de março, quinta-feira, às 19h.

Esse formato de apresentação não era algo engessado. Tinha um quê de informalidade. Vinicius cantava, dizia poemas e tinha com o público uma conversa franca sobre temas que julgava pertinentes. E esse clima é justamente levado à cena pelos autores e pela direção. O roteiro traz canções emblemáticas do poeta com seus muitos parceiros  — Pixinguinha, Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Chico Buarque e o já citado Toquinho — misturadas a textos (poemas e trechos de cartas) e a algumas de suas falas, reproduzidas de entrevistas dadas por ele. Estão lá, por exemplo, “Janelas abertas” (com Jobim), “Gente humilde” (com Chico Buarque sobre melodia de Garoto), “Maria Moita” e “Sabe você” (ambas com Lyra), “Mais um adeus” (com Toquinho) e “Berimbau” (com Baden), entremeadas a poemas como “Pátria minha”, “Poema de Natal”, “Operário em construção” e com “A carta que não foi mandada”, entre outros.

O musical não se atém somente a emular um formato de show. Até porque a apresentação teve, como já dito, diferentes formações e temporadas. Também não se propõe a ser didático/biográfico, seguindo a linha comum a muitos musicais de ir do início ao fim da vida artística de um personagem. O que o público irá conhecer são algumas das facetas que compuseram a persona de Vinicius de Moraes. Trata-se de um Vinicius terno (o poeta não era dado a rompantes e ataques, ao contrário de muitas celebridades de hoje), mas um Vinicius em total sintonia com questões sociais da vida, mais ligadas ao que conhecemos como direitos humanos, e também preocupado com o fim das liberdades, fossem elas a de expressão, artística, e mesmo a de ir e vir.

Para fazer desse retrato o mais fiel possível ao personagem, a dramaturgia tem como pilares três épocas diferentes. A montagem começa em 1969, com um esbaforido poeta chegando atrasado a um show devido aos protestos populares que ocorriam na cidade. Volta-se ao ano de 1964, quando o golpe militar instala-se derrubando assim o sistema democrático de governo, avançando em seguida até a década de 70, onde a narrativa estabelece-se.

E quem é esse Vinicius afinal? Um cara que não fugia de questões importantes da vida (da sua própria e da dos cidadãos). Um Vinicius que sabia que a liberdade era peça-chave para uma sociedade mais igualitária. Um Vinicius que tinha na figura da mulher amada um objeto de total veneração (ele chegou a se casar nove vezes) e que, justamente por isso, foi vanguardista ao exigir respeito a elas (e às suas causas). E que ninguém pense que era ele um machista, como muitos homens de sua geração. Há na peça o trecho de uma entrevista em que o poeta defende o amor em sua liberdade, citando inclusive o amor entre pessoas do mesmo sexo.

Vinicius não era de meias palavras. Há o Vinicius que é cassado do Itamaraty  em razão do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Apesar de avesso às formalidades daquele órgão (que o obrigava a se apresentar de terno e gravata) há, por outro lado, o reconhecimento de que o Itamaraty foi de extrema importância para moldar sua visão humanista. Foi como diplomata que ele viajou pelo país e conheceu, assim, suas desigualdades sociais. “Eu era um homem de direita tornei-me um homem de esquerda”, reconhece ele numa de suas falas. Nesses tempos em que muito se reivindica um “lugar de fala (ou da fala)”, o público poderá (re)conhecer um homem que, em nome do seu amor à vida e à liberdade, falou por todos nós, independentemente de etnia, credo e demais preferências. Com amor, sempre.

Ficha técnica:

Com amor, Vinicius
Com: Marcos França (Vinicius de Moraes), Luiza Borges (cantora), Victor Ribeiro (violão) e Matias Zibecchi (bateria e percussão)
Roteiro e idealização: Hugo Sukman e Marcos França
Direção: Ana Paula Abreu
Direção musical: André Siqueira
Iluminação: Luiz Paulo Nenem
Cenografia: Pati Faedo
Figurinos: Marcela Poloni e Rafaela Rocha
Desenho de som: Branco Ferreira
Programação visual: Thiago Ristow
Fotos: Rafael Blasi
Operador de luz: Mário Júnior
Gestão de leis de incentivo: Natalia Simonete
Direção de produção: Ana Paula Abreu e Renata Blasi
Realização: Informal Produções Artísticas e Diálogo da Arte Produções  Culturais

Serviço:
Dia: 14 de março, quinta-feira
Hora: 19h
Local: Centro Cultural João Nogueira — Imperator (Rua Dias da Cruz, 170, Méier. Tel: 2597-3897)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Duração: 80 minutos
Classificação: Livre

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