Black Mirror mantém a excelente qualidade em sua quarta temporada

Mesmo antes de ser uma série popular do Netflix e até mesmo se tornar um jargão (“isso é muito Black Mirror”), a série já abordava questões sociais pelo viés da tecnologia, geralmente fazendo duras críticas a sociedade de consumo desenfreado e o “desligamento” das relações entre seres humanos com os seus semelhantes, substituídas por dispositivos portáteis e relações virtuais. A quarta temporada (2017), composta de 6 episódios mantém o ótimo nível das temporadas anteriores, além de inovar em algumas temáticas, trazendo inúmeras discussões relevantes e visões bastante distintas.

Logo no primeiro episódio, “USS Callister”, de Toby Haynes, somos apresentados a um universo virtual no qual as pessoas estão jogando uma simulação que lembra o famoso seriado “Star Trek”. Todos os elementos da série clássica estão ali, fazendo com que o piloto dessa temporada possa ser considerado como uma homenagem. Porém nem tudo é fantasia e logo somos apresentados a um universo sombrio e com implicações morais perturbadoras. Nitidamente esse episódio faz uma referência ao conto “Não tenho boca e preciso gritar”, do escritor Harlan Ellison, por sinal uma das histórias mais aterradoras já escritas.

Saindo da atmosfera Sci-fi em direção a uma discussão social e humana, o episódio “Arkangel”, dirigido por Jodie Foster, leva o espectador a uma sociedade na qual crianças são submetidas a um implante no cérebro para que seus parentes possam tomar conta das suas atitudes através de um dispositivo móvel. Esse episódio discute e critica bastante a relação demasiadamente protetora das mães, além de refletir sobre o direito de cada indivíduo a sua privacidade, uma questão discutida atualmente com plataformas e sistemas com localizações cada vez mais precisos.

Crocodile”, dirigido por John Hillcoat, é sem dúvida um dos episódios mais sombrios de todas as temporadas. Um casal de amigos bêbados presencia um acidente na estrada e quinze anos depois, começam a sofrer suas consequências. Esse episódio faz um trabalho primoroso ao abordar a questão da análise da memória e subjetividade, além de possuir um clima detetivesco que se remete a séries como “True Detective”, “Mindhunter” e longas como “Minority report”. É visceral, denso e definitivamente um dos que mais deixarão o público perturbado, especialmente por se passar em um futuro não tão distante.

Para quebrar o clima pesado, temos uma história sobre relacionamentos com um tom mais leve talvez com a mais bela fotografia e trilha sonora da temporada. “Hang the DJ”, de Timothy Van Patten, faz uma crítica profunda aos aplicativos de relacionamentos como o Tinder, permitindo ao espectador tirar suas próprias conclusões sobre a artificialidade das relações atuais. Basicamente é uma discussão sobre algoritmos de gostos e se os mesmos são suficientes para conseguir combinar casais com características em comum. Embora possua um clima leve, há algo de macabro na história, especialmente nas cenas mostrando os casais “perfeitos”.

Já “Metalhead”, dirigido por David Slade, trabalha com uma atmosfera de horror pós-apocalíptica, lembrando bastante produções como “Mad Max” e a franquia de jogos “Fallout”. Na história, um grupo de viajantes em uma terra devastada por alguma catástrofe, é perseguido por um ser definitivamente diferente e sem misericórdia com os seres humanos. Possivelmente é o episódio com a mais bela direção de arte, sendo totalmente em P&B, criando toda uma atmosfera noir e acrescentando um charme à obra, além de se direcionar mais para os filmes de terror clássicos.

Finalmente, em “Black Museum”, o último episódio da temporada, somos apresentados à uma coletânea de contos dentro da própria série. A personagem principal, Nish (Letitia Wright) visita um museu que possui diversas histórias, todas relacionadas com crimes e muitas referências a episódios de temporadas anteriores. É muito interessante como esse episódio brinca com a meta linguagem da série, a todo momento se auto citando e trabalhando com conceitos desenvolvidos ao longo das 4 temporadas. Dirigido por Colm McCarthy.

Black Mirror continua sendo uma série obrigatória para quem quer discutir os efeitos sociais da tecnologia, ou para os apreciadores da ficção científica voltada para distopias. É um tipo de obra que pode ser vista no sentido literal ou então levar à uma reflexão filosófica, talvez sendo essa a razão de ser tão famosa e agradável à gregos e troianos. Mesmo parecida em alguns aspectos com a temporada anterior, com episódios mais “leves” e feitos para um público diferente do que acompanhava a série desde o início, Black Mirror se consagra com uma das melhores obras de 2017 no serviço Netflix, com roteiros bem escritos, histórias bem desenvolvidas e além disso, uma qualidade técnica impecável.

Avaliação (1-5):
5 – Muito Bom

Ficha Técnica:

Ano: 2017
Título: Black Mirror
Título original: Black Mirror Series 4
Roteiro: William Bridges (primeiro episódio), Charlie Brooker (todos),
Direção (por ordem de episódios): Toby Haynes, Jodie Foster, John Hillcoat, Timothy Van Patten, David Slade, Colm McCarthy.
Elenco (principais): Jesse Plemons, Cristin Milioti, Rosemarie DeWitt, Andrea Riseborough, Kiran Sonia Sawar, Maxine Peake, Douglas Hodge, Letitia Wright.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.