Um sábado que não existiu

Hábil com as palavras, o escritor Renato Modernell nos convida a mergulhar em um dos gêneros de texto mais marcantes da literatura nacional. Os seis ensaios reunidos em seu novo livro exploram, cada qual ao seu modo, o universo da cultura, das comunicações sociais e do aprendizado. Diferentes na temática e na abordagem, os textos compartilham uma herança genética. Neles se ouve a voz de alguém que continua a ser, na essência, um jornalista.
 
Com linguagem leve e ágil, o ensaio é um gênero de texto eficaz na abordagem de assuntos ligados às ciências humanas e à vida contemporânea, permitindo ao escritor articular a atividade intelectual com certo tom romanesco. Assim se define o livro Um sábado que não existiu (144 p., R$ 32,90), lançamento da Summus Editorial, em coedição com a Editora do Mackenzie, do escritor, jornalista e professor Renato Modernell. A obra, que ultrapassa a esfera acadêmica, combinando substância teórica, informação precisa e carga poética, busca revitalizar essa vertente tão marcante da cultura brasileira. Explorando temas transversais na fronteira entre o jornalismo e a literatura, o autor apresenta textos prazerosos, instigantes, com breves visitas a pensadores de magnitude universal, como Jung, Bakhtin, Benjamin, Prigogine, entre outros. Ao mesmo tempo, traz uma visão bem fundamentada sobre grandes criadores literários, como Saramago, Dante e Guimarães Rosa. Tudo isso sem discurso hermético e pedantismo intelectual: apenas retratando o mundo com os olhos do repórter.

Mas que mundo é esse? “É o mundo do efêmero projetado sobre uma base que lhe dá peso poético, ali onde a engenharia da frase ocupa o centro do palco”, explica o autor. Ao longo da obra, Modernell apresenta reflexões sobre pessoas, lugares, ideias e maneiras de exercer o ofício. Segundo ele, a unidade dos textos é dada menos pelo tema do que pelo modo de observação. “Neles, o leitor talvez encontre resíduos nostálgicos de um jornalista que o destino transformou em professor, como para lhe dobrar a língua”, diz o escritor.

A longa experiência de Modernell como professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), ancorada em seu doutorado em Letras, fundamenta as reflexões desenvolvidas na obra. O ensaio “Um sábado que não existiu”, que dá título ao livro, foi elaborado para um congresso de Jornalismo Literário, na Finlândia. “Nele, procuro explicar a um público estrangeiro como é e como surgiu a crônica nos moldes em que a conhecemos no Brasil”, conta o autor. Trata-se, segundo ele, de um gênero literário muito peculiar e bastante representativo do caráter nacional, à semelhança da Bossa Nova. O texto inclui ainda a análise de uma reportagem publicada pela revista Realidade em 1966, de autoria de José Carlos Marão.

Em “Autoria e originalidade”, o autor parte da comparação entre duas frases semelhantes, uma de Jung e outra de Einstein, nas quais uma leitura apressada poderia detectar indícios de plágio. No ensaio, ele discute justamente até que ponto uma ideia pode “pertencer” a alguém, se as matrizes do pensamento, por sua dinâmica interna, tendem a determinar resultados tão semelhantes em áreas de atuação tão distintas. “O que nos parece plágio, portanto, em muitos casos, em vez de tratar-se de cópia ou usurpação, poderia ser apenas uma simples coincidência no ponto de chegada”, complementa.

Já os ensaios “Ex Oriente lux” e “Reencontro com o mestre” contemplam, por vias diferentes, o aprendizado, o ensino e a transmissão do saber – como esse processo ocorre ou não ocorre e por quê. “Não penso no ensino como um sistema, pois não sou um estudioso da educação, mas como um fenômeno que flui no cotidiano”, revela o professor. Às vezes, diz ele, ensinar e até um pequeno milagre, como a bolha de sabão.

“Os dez mil polos de Marco Polo” é mais uma tentativa de consolidar suas reflexões sobre o ato de viajar – interesse que remonta aos verões da sua infância. “A viagem é, sobretudo, o jeito de viajar. Marco Polo soube disso como ninguém”, afirma Modernell. Ele encerra o livro com uma análise comparativa entre dois romances históricos. Em “Gomes e Saramago”, procura averiguar que fatores e procedimentos tornam A solidão segundo Solano López e História do cerco de Lisboa duas obras-primas da língua portuguesa, e em que pontos elas convergem ou contrastam.

O autor
Renato Modernell é professor e jornalista. Nasceu em 1953 no extremo sul do Brasil, onde sua família, com raízes no Uruguai e na Itália, possuía um hotel de veraneio. Aos 18 anos, radicou-se em São Paulo, cursou Jornalismo e atuou como repórter de viagens. Publicou os seguintes livros: Um sábado que não existiu (2015), Mare Magnum (2013), A notícia como fábula (2012), Gird (2012), Em trânsito (2011), Viagem ao pavio da vela (2001), Edifício Mênfis (1996), Os jornalistas (1995), O grande ladrão (1990), Sonata da última cidade (1988), Meninos de Netuno (1988), O homem do carro-motor (1984), Che Bandoneón (1984) e Meados dos anos setenta (1979).

Título: Um sábado que não existiu
Autor: Renato Modernell
Editora: Summus Editorial, em coedição com a Editora Mackenzie
Preço: R$ 32,90 (E-book: R$ 22,90)
Páginas: 144 (14 x 21 cm)
ISBN: 978-85-323-1027-9
Atendimento ao consumidor: (11) 3865-9890
Site: www.summus.com.br

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