Teatro Casa Grande – 50 anos de glória

Noviça Rebelde (Divulgação)
Matéria de jornal na fachada do antigo teatro com os sócios
Matéria de jornal na fachada do antigo teatro com os sócios

Se a Mangueira se auto celebrou no samba  “50 anos de glória estão no Palácio do Samba”, o mesmo se pode dizer deste outro ícone carioca, o Teatro Casa Grande, que completa a mesma idade. Referência  do teatro  brasileiro,  palco de grandes montagens , shows que ficaram na memória de quem por lá passou e território de resistência à censura, com debates políticos que fizeram do teatro uma casa onde cultura e cidadania provaram, ou deveriam, estar no mesmo lado da  moeda. Fundado em 1966 por Max Haus, Moyses Ajhaenblat, Moisés Fuks e Sérgio Cabral (pai)  o Casa Grande surgiu como um café-teatro, com shows dos mais variados estilos musicais, galeria de arte, restaurante para mais de 500 pessoas, loja de discos, livraria, tudo isso funcionando de segunda a segunda, numa atmosfera de efervescência que atraía jornalistas, intelectuais e um público eclético e  ávido por um local como aquele. Garantia de diversão e de qualidade artística. Nas  noites dedicadas aos jovens talentos da época, apresentavam-se  ninguém menos do que Caetano Veloso, Gal Costa, Joyce e Sá e Guarabira, entre tanto outros hoje artistas consagrados da nossa MPB.

CASA GRANDE E SENZALA
O  Sopa Cultural, que não poderia deixar de prestar uma homenagem a este grande palco da cultura brasileira, conversou com a mulher de Max, já falecido, Vilma Haus,  que segue até hoje à frente do teatro com o sócio Moyses Ajhaenblat –   Os outros dois saíram logo no início da empreitada. Cabral, que fazia a programação musical do Café-concerto, para  fundar o jornal de resistência O Pasquim.  Ela nos conta que o nome Casa Grande surgiu pela proximidade do teatro com o que na época era a Favela do Pinto no Leblon  (hoje o condomínio Selva de Pedra), e como a casa era em estilo colonial, com grandes janelas de madeira pintadas de azul, logo surgiu a associação com o livro de Gilberto Freyre, “Casa Grande e Senzala”, e assim ficou.  João Saldanha na época chamou  atenção de que Max Haus em alemão significa Casa Grande, o bastante para sugerir o lugar que o teatro ocupou na vida da família, tanto que Vilma e Max se casaram um ano depois da inauguração, numa festa para 300 pessoas no próprio teatro. Os filhos, Leonardo Haus e Silvia Haus, atualmente gestores do teatro junto aos sócios majoritários, passaram a infância nas coxias, assistindo a  peças infantis como “Dom Pixote e Zé Chupança”, com Regina Duarte e Ney Matogrosso, ou a montagens menos adequadas ao público infantil  como “Hair”, com cenas de nudez que não os espantava em nada, tal o espírito livre da família.

Max Haus (foto: Álbum de família)
Max Haus (foto: Álbum de família)

DE CAFÉ CONCERTO A TEATRO CASA GRANDE
Passados os anos iniciais daquela festa diária da casa de shows, que consumia toda a energia dos sócios,  chegava a hora de encarar o desafio de realizar o sonho de ter um verdadeiro teatro. Assim, em 1969, o Café Concerto se transforma em  Teatro Casa Grande, com um show de Sílvio Caldas inaugurando o novo estilo de  programação da casa, vindo a seguir um show  de Os Mutantes, ambos fracassos totais de bilheteria. Afundado em dívidas e pronto prá desistir do sonho,  Max encontra por acaso na rua Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), que não se conforma com o fechamento daquele  espaço já referência para a classe artística e intermedeia junto a Paulo Pontes a montagem no teatro de “Brasileiro Profissão Esperança”, com Maria Bethânia  e Ítalo Rossi,  direção de Bibi Ferreira. A partir daí o sucesso veio para ficar, com peças como “Gota d’água” e “Mandrágora” com Dina Sfat, o show de  Chico Buarque  “ Tempo contratempo”, em que apresentou o repertório de sua peça Calabar, logo censurada. Hélio Eischbauer virou o palco ao contrário, quando a censura proibiu seu cenário original na véspera da estreia; Shows como  “Cena Muda” com Maria Bethânia e “vem que tem, vem que tem”, com João Nogueira e Roberto Nascimento, seguiam o espírito eclético e democrático que foi a marca registrada do lugar.

TERRITÓRIO LIVRE DA DEMOCRACIA

Tancredo Neves e a campanha pelas Diretas - 1984 (Divulgação)
Tancredo Neves e a campanha pelas Diretas – 1984 (Divulgação)

Esta frase, gravada até hoje no foyer do teatro, foi dita por Tancredo Neves, em 1984, quando ali esteve reunido com a classe artística que lhe entregou uma carta de reinvindicações contra a censura. O ato seguiu-se aos constantes  ciclos de debates ocorridos na década de 70, quando   o teatro abrigou, em 1974, a primeira reunião política do país, depois de anos de proibição. Nesses ciclos discutiam-se as  mais variadas questões do Brasil na época,  levando ao teatro destacadas figuras nacionais, como Fernando Henrique Cardoso, Célio Borja, Zuenir Ventura, Antonio Houaiss, Cacá Diegues e Luiz Carlos Barreto, entre tantos outros;  Recebeu  pela primeira vez no Rio o  metalúrgico Luiz Inácio da Silva,  Lula, que falou para uma platéia de políticos e estudantes. Esses  eventos  às vezes aconteciam em meio à ameaças de bombas e  Vilma ri ao lembrar que o marido, conhecido por sua capacidade nata de fazer amigos por onde passasse, era chamado pelos oficiais militares para esclarecer o tom dos debates que ali ocorriam e voltava  feliz da vida dizendo que tinha passado horas agradabilíssimas com os generais. O teatro ia muito além dos debates políticos, abrigando no espaço familiares de presos políticos, demonstrando que o  engajamento humanista ia muito além das discussões teóricas. Aquele palco, onde  foi também  realizada a primeira campanha pelas Diretas,  foi escolhido para assinatura do  decreto que pôs fim a censura no Brasil, em reconhecimento ao papel desempenhado pelo Casa Grande em sua luta pela abertura.

ONDE O SUCESSO MORAVA
Vilma Haus conta ao Sopa Cultural que foi a partir do espetáculo de Jô Soares, “Um gordoidão no país da inflação”, em 1983, que o Casa Grande  afirmou sua vocação teatral, com   peças de sucesso retumbante como “O Mistério de Irma Vap”, “Como encher um biquíni Selvagem”, “Nardja Zulperio”, “Louro, alto, solteiro procura” “A Partilha” e shows antológicos como os de Gal Costa “Gal Tropical”, Moraes Moreira “coisa Acesa”, que levava a cada noite o dobro de pessoas que cabia na casa, Kleiton e Kledir e Edson Cordeiro, que arrebatou o público com sua voz de tenor e hoje vive na Alemanha. Esse sucesso nunca impediu a recepção calorosa da família aos artistas que lá montavam seus espetáculos e a cada estreia, eram  recebidos com flores por Vilma e salgadinhos que Max por vezes levava das festas do vizinho Scala.

TAL QUAL FÊNIX
Em 1997, durante uma temporada de “O Burguês ridículo”, adaptado por Guel Arraes e João Falcão, um incêndio de proporções  inimagináveis  poderia ter posto todo o sonho abaixo, mas a força e o amor pelo teatro não deixaram ninguém de braços cruzados. Num galpão anexo aos escombros do teatro, foram montadas peças que comprovaram para sempre que o Teatro Casa Grande não deixaria nunca de existir nem de dar ao seu público o melhor da cena teatral carioca, pois das cinzas surgiram  “ A Máquina”, de João Falcão, revelando atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, a genial peça dirigida por Aderbal Freire Filho, “O que diz Molero” e a brilhante remontagem de ‘Woyzech”, desta vez com Tânia Alves e Matheus Nachtergaele.

Passados quase dez anos do incêndio,  o teatro reabriu em 2008 com o patrocínio da Oi, em parceria com os sócios de sempre, Vilma e Moyses, transformando o Casa Grande numa referência de ponta no que de melhor há em termos de recursos técnicos que um teatro pode almejar, seja na parte de som, nos equipamentos de palco e no conforto da sala, ampliada para quase mil lugares.  Assim, somos brindados com musicais dignos de qualquer casa de espetáculos do gênero. A reinauguração aconteceu com a estreia de “A Noviça Rebelde”, produção de Luiz Calainho, seguido de sucessos como “Um violinista no telhado”, “Elis, o musical”, “A Gaiola das loucas”, de Falabella, os block-busters de Paulo Gustavo “220 volts” e “Mamãe é uma peça”, o musical sobre Candeia e tantos outros.

Vilma volta no tempo e relembra, de olhos marejados, o fim da temporada de sucesso de Cláudia Jimenez, lá pelos idos de 90, quando a atriz,  na última sessão da peça “Como encher um biquíni Selvagem”, beijou o palco e profetizou: “aqui começa uma nova história para mim”. Como o Teatro Casa Grande, que começa uma nova história a cada montagem.  Que venham mais 50! O público agradece!

DEIXE UM COMENTÁRIO