“Se eu fosse Iracema” faz curta temporada no Sergio Porto

Idealizado por Fernando Nicolau e Fernando Marques, monólogo é interpretado por Adassa Martins que dá voz a diversos personagens ligados à questão indígena. Após estrear no Teatro Sesc Tijuca, peça chega à zona sul a partir do dia 14 de maio

foto: João Julio Mello (Imatra)
foto: João Julio Mello (Imatra)

Uma carta escrita pelos índios guarani kaiwoá, em 2012, despertou o interesse do ator e diretor Fernando Nicolau para a condição indígena no país. No texto, pediam que sua morte fosse decretada, em vez de tirarem sua terra. Sensibilizado, convidou o dramaturgo Fernando Marques para mergulhar numa profunda pesquisa. Juntos, iniciaram o processo de criação do monólogo Se eu fosse Iracema. Estrelada por Adassa Martins, a peça fará uma curta temporada no EMC Sérgio Porto, entre 14 de maio e 6 de junho, de sexta a segunda.

A peça não tem a intenção de levantar uma bandeira e, sim, uma reflexão. Branco, mestiço, índio, ocidental. É possível coexistir? Abordando a questão indígena no Brasil, a montagem pretende examinar a questão da possibilidade de convivência das diferenças. “As contradições estão presentes em diversos relatos e textos documentais que usamos na concepção”, explica o diretor. “O Fernando apresenta o projeto de forma tão apaixonada que me senti honrada pela possibilidade de falar sobre este assunto. Olhamos tão pouco para os índios, parece que ficaram em 1.500”, destaca Adassa.

Se eu fosse Iracema tem início com a figura do pajé – pessoa de extrema importância na tribo que representa a sabedoria – e que traz Adassa interpretando um texto em guarani inspirado no cacique Raoni, que participa do documentário Belo Monte, anúncio de uma guerra, de André D’Elia. Em seguida, a atriz vive uma mulher bêbada lendo os primeiros quatro artigos da Constituição de 1988.

Após o prólogo, a dramaturgia une mitos e ritos de passagem, não necessariamente de forma linear. “Escolhemos trabalhar o ciclo da vida: a origem do mundo, a infância, a adolescência, a fase adulta na figura da mulher e o ancião, na figura do pajé chegando ao fim do mundo”, explica o diretor. Alguns trechos foram traduzidos para o guarani pelo cineasta indígena Alberto Álvares. Para dar voz a alguns personagens, Adassa desenvolveu uma interlíngua: “ouvi os pajés e diversos índios falando em documentários e percebi os fonemas mais presentes. A ideia é criar uma fusão do português com uma língua indígena”, conclui a atriz.

Fernando Nicolau e Fernando Marques são capixabas e se conheceram em Vitória, no Espírito Santo, onde o diretor teve aula de teatro com o dramaturgo. Juntos, participaram de diversos processos de pesquisa e criação cênica, construindo uma trajetória comum. Se eu fosse Iracema teve como inspiração e referência filmes como Índio cidadão?, de Rodrigo Siqueira; Belo Monte, anúncio de uma guerra e  A lei da água, ambos de André D’Elia. Recém-lançado no Brasil, o livro francês A queda do céu – Palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, também foi uma importante referência tanto para o autor quanto para o diretor. Obras de Darcy Ribeiro, Alberto Mussa, Betty Mindlin e Manuela Carneiro da Cunha também fizeram parte do processo, assim como encontros e entrevistas com estudiosos.

No cenário de Licurgo Caseira, apenas um tronco de árvore cortado por uma lâmina de vidro. O figurino de Luiza Fradin não faz um retrato carnavalesco da cultura indígena. Usando materiais como látex e borracha, o figurino revela a miscigenação do povo brasileiro. A trilha sonora original de João Schmid pontua diversos momentos do espetáculo.

ADASSA MARTINS
Graduada em Artes Visuais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e integrante da companhia carioca Teatro Inominável, Adassa atuou em montagens de destaque em 2015: A Santa Joana dos Matadouros, direção de Diogo Liberano e Marina Vianna; Contra o vento, um musical, direção de Felipe Vidal e texto de Daniela Pereira de Carvalho; Ensina-me a viver, texto de Coling Higgin, e direção de João Falcão; Para os que estão em casa, texto e direção de Leonardo Netto e Temporada de verão, direção de Renato Livera.  

Adassa percorreu festivais e mostras pelo Brasil como Festival de Curitiba, Mostra Rumos Itaú Cultural (SP), Fit São José do Rio Preto (SP), Festival de Teatro de Grupo Trema! (PE), Festival de Teatro de Presidente Prudente (SP), Festival do Palco Giratório de Porto Alegre (RS). Na televisão, atuou nas séries Rio, belezas e afetos e Megassaudável, ambas dirigidas por Miguel Przewodowski (Multirio); na TV Globo participou de Amazônia, do especial Por toda a minha vida e das novelas Joia rara, Em família e Além do horizonte; no Multishow esteve nas séries Sensacionalista e Adorável psicose. No Cinultema, atuou em curtas-metragens independentes filmados e produzidos no Rio de Janeiro.

FERNANDO NICOLAU
Fernando Nicolau tem formação como ator pela Casa das Arte de Laranjeiras CAL (RJ) e pela Escola de Teatro e Dança FAFI (ES), como publicitário pela Faculdades Integradas São Pedro FAESA (ES) e é pós-graduado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (RJ) em Design Estratégico. Iniciou sua pesquisa de linguagem ao dirigir o espetáculo Capivara na luz trava, em 2012, que esteve em cartaz no Rio de Janeiro, além de participar dos festivais internacionais de Londrina e Recife, ambos em 2013.

FERNANDO MARQUES
Dramaturgo, diretor e ator. Integra o Grupo Z de Teatro desde sua fundação, em 1996. Seus trabalhos mais recentes são Vizinhos, recém-estreado e Insone, contemplado pelo Prêmio Funarte Klauss Vianna que circulou nacionalmente pelo Palco Giratório. Com o Z, já montou Incessantemente – também Prêmio Klauss Vianna, e O grande circo ínfimo e Dom Casmurro – ambos Prêmio Funarte Myriam Muniz entre outros. Trabalhou como dramaturgo e diretor, a convite de companhias como a Quorum Cia de Dança, Grupo Beta de Teatro, Grupo Quintal de Teatro e Companhia do Outro.

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Fernando Marques
Direção: Fernando Nicolau
Elenco: Adassa Martins
Iluminação e cenografia: Licurgo Caseira
Figurino e caracterização: Luiza Fradin
Trilha sonora original e desenho de som: João Schmid
Assistência de direção: LuCa Ayres
Direção de arte e projeto gráfico: Fernando Nicolau
Escultura do busto: Bruno Dante
Caracterização: Luiza Fardin
Fotografia: João Julio Mello (Imatra)
Direção de produção e produção executiva: Clarissa Menezes
Realização e produção: 1COMUM
Idealização: Fernando Nicolau e Fernando Marques 

SERVIÇO

Espetáculo: Se eu fosse Iracema
Temporada: De 14 de maio a 6 de junho de 2016.
Local: Galeria Marcantonio Vilaça – ECM Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 – Rio de Janeiro
Informações: (21) 2535-3846
Dias e horários: Sexta, sábado e segunda, às 20h. Domingo, às 19h.
Capacidade: 20 pessoas
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Gênero: DramaIngressos: R$20 (inteira) e R$10 (estudantes e idosos)

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