Rumbo Reverso apresenta “II”, produzido por Mancha Leonel e Diogo Valentino (Supercordas)

A atmosfera é sombria. Sons de teclado reverberam perdidos, solitários, até ganhar a companhia de dedilhados de guitarra. Amplia-se por mais alguns segundos o mistério. O baixo aprofunda os sentidos e a bateria põe ação à cena.

Ganha vida “Formiga Gardens”, quinta faixa de “II”, novo disco do Rumbo Reverso, produzido por Diogo Valentino (que também assina a mixagem do álbum) e Mancha Leonel e masterizado por Fernando Sanches. Tal qual a orelha infestada de formigas de David Lynch em “Veludo Azul” ou, para seguir na cinematografia dos insetos, como a mão perfurada por bichanos em “Um Cão Andaluz”, de Luis Buñuel.

Os paulistas do Rumbo Reverso seguem tocando imagens lindamente desencontradas no seu mais recente trabalho, sucessor de “I”. Após percorrer a cena underground da Paulicéia, centros de cultura e Sesc com sua tônica floydiana, o grupo ressurge das profundezas dos estúdios com mais do lo-fi, dark folk, psych experimental, electric ou, simplesmente, música caseira e imagética.

“A concepção do disco foi meio que baseada na forma como se faz um filme de cinema, ou seja, se tem um roteiro e não necessariamente se começa pelo início. Conforme eu fui me desenvolvendo com a composição, percebi que o que mais me atraía eram esses padrões mântricos de hipnose mesmo. Em vez de explorar a mudança de harmonia por arranjos harmônicos e convenções rítmicas complexas, eu pensei em explorar uma mesma estrutura melódica repetidamente e pesquisar todo o espectro de texturas e timbres que essa mesma estrutura pode dar”, relata Cacá Amaral (guitarra, bateria e efeitos em loop).

Ao longo do seu roteiro imprevisível, “II” faz dançar de olhos fechados com faixas como a transcendental “Novembro”. O riff de baixo protagoniza destemidamente em parceria com a não menos impávida bateria. “II” embaralha a trama em experimentações sintéticas através do vazio, do som cotidiano, da “não música”, da desconstrução e da melodia camuflada no ruído de “Quais Cenas Ele Pode Conter?” a “Improvável Probabilidade do Imprevisível Acontecer”, passando pelo “Dissolvidor de Rancores.” Sinta o drama e a dor de “Archie Tema”, prenúncio do fim, fim que é igual ao início e pode ser o exato oposto do começo.

Rumbo Reverso é a realização dos experimentos, pesquisas e improvisos musicais de Cacá Amaral, através da utilização de loops. A ordem é subverter a própria ordem pela busca do resultado sonoro, revisitando características que remetem a lugares diversos, densos ou isolados, com progressões nem sempre apegadas a início, meio e fim.

Nos shows, Rumbo pode se apresentar solo com Cacá Amaral ou com o tecladista Leandro Archela, o baixista Rodrigo A. Hara e Ricardo Pereira (metalofone e efeitos), ou ainda, com outros músicos amigos fazendo com que cada show tenha características únicas e distintas. Caca Amaral também integra os projetos Firefriend, com Yury Hermuche e Julia Grassetti, e Salão Extremo – ao lado de Henrique Diaz, André Calvente, Leandro Archela, Ricardo Pererira e Mauricio Takara.

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