Composto por mulheres ligadas a tradições culturais em diferentes partes do Brasil, o projeto Retrato: substantivo feminino, idealizado pelas artistas Laura Tamiana e Tatiana Devos Gentile, chega ao Rio de Janeiro pela primeira vez. A temporada carioca do projeto, que tem o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, está baseada em 3 propostas: encontro inédito entre mulheres do Jongo da Serrinha e representantes femininas das manifestações culturais do Cavalo Marinho*, Reinado** e Batuque de Umbigada***; oficina de criação coletiva de retratos em fotografia e vídeo junto a jongueiras da Serrinha; e intervenções pela cidade.

Oficinas
O projeto Retrato: substantivo feminino realiza oficina junto a 10 jongueiras, de diferentes gerações. A vivência, que acontece de 08 a 17 de abril, é um convite a essas mulheres para uma criação coletiva em vídeo e fotografia, em que todas poderão fotografar e filmar. O trabalho parte do diálogo entre o olhar pra si mesmo e o encontro com o outro; e do afeto como matéria prima para contar histórias, para contar sua própria história. Muitas das participantes estarão tendo contato com a fotografia pela primeira vez. Como é o caso de Tia Maria, 95 anos, grande ícone do Jongo da Serrinha. “Acredito que independente da idade, a gente nunca deve deixar de aprender. Essa oficina é uma oportunidade única de conhecer essa forma artística tão bonita, que é a fotografia. Estou ansiosa para começar!”, conta.

Tendo trabalhado com mulheres de diferentes locais do Brasil em residências artísticas mais longas, essa é a primeira vez que as artistas experimentarão este formato de oficina. “Sendo o trabalho tão baseado no tempo do convívio, é um desafio desenvolvermos esse formato mais enxuto. Mas vemos nele o potencial de ir ao encontro de mais grupos de mulheres, compartilhando a experiência audiovisual como ferramenta para que cada uma possa contar sua própria história e sempre mantendo a perspectiva de colocar esses grupos em contato. Sentimos que com as oficinas estamos abrindo uma nova fase do projeto, depois desse primeiro ciclo de 7 anos”, conta Laura Tamiana.

O Encontro
No segundo final de semana da oficina as artistas promovem um encontro inédito entre as mulheres do Jongo da Serrinha e outras representantes femininas da cultura brasileira que integram o projeto, como Nice Teles, uma das mulheres mais ativas na tradição do Cavalo Marinho (PE) e Belinha, como é conhecida Isabel Casimira, recém-coroada Rainha Conga da Guarda Treze de Maio (MG). O evento é uma oportunidade única de intercâmbio de experiências vividas aos longos dos anos por essas mulheres atuantes nas manifestações da cultura brasileira.

No dia 17 de abril um evento de encerramento, com a presença de todas, conta com uma roda de Jongo, cantos do Cavalo Marinho e do Reinado, além da exibição da intervenção “Retrato: substantivo feminino” e uma mostra de resultados da oficina.

“As nossas fotografias são feitas com o nosso olhar. O nosso sagrado é ressaltado por nós. Porque o sagrado nosso é diferente do sagrado do outro. A percepção do povo do Reinado, do povo do Cavalo Marinho, do povo Batuque é outra, é diferente. Pra quem está de fora tudo é folclore. Pra quem é de dentro tem uma conotação sagrada, porque ela aprendeu com o pai, com os avós, com os tatas.”, diz Belinha, sobre sua experiência no projeto, do qual faz parte desde 2010.

Intervenções
A temporada do projeto também contempla mais 7 intervenções em diferentes pontos da cidade. A intervenção é composta por vídeos e fotografias realizados pelas artistas e as 25 mulheres de diferentes partes do Brasil que integram o projeto: fotografias em monóculos e tecidos impressos; vídeo-retratos de cada integrante, exibidos em um dispositivo em forma de “caixinha”, para visualização individual; correspondências em vídeo trocadas pelas integrantes de um local a outro do país; e intervenções sonoras criadas pelo músico pernambucano Helder Vasconcelos, a partir dos sons gravados pelas mulheres. Imagens produzidas pelas mulheres do Jongo da Serrinha também serão exibidas.

Há 7 anos na estrada, esta é a primeira vez que o projeto visita o Rio, cidade de Tatiana, uma das idealizadoras. “É uma oportunidade especial estar aqui na minha cidade, trabalhando com o Jongo, referência da cultura carioca, e ocupando espaços públicos com arte, o que acredito ter um grande potencial de transformação”, conclui.

Mais sobre o projeto “Retrato: substantivo feminino”:
Retrato: substantivo feminino é um projeto de criação coletiva em foto e vídeo idealizado por Laura Tamiana e Tatiana Devos Gentile. Desde 2009, elas trabalham com mulheres ligadas a tradições culturais no Brasil, de diferentes gerações, propondo, a partir do encontro, a confecção de retratos. Integram o projeto 25 mulheres, de 13 a 95 anos, das tradições do Cavalo Marinho (PE), Reinado (MG) e Batuque de Umbigada (SP).

O projeto nasceu em Pernambuco, durante uma residência artística proposta pelas artistas a mulheres ligadas à tradição do Cavalo Marinho, em Condado, na Zona da Mata Norte. De lá pra cá, cresceu e ganhou a estrada: foram realizadas mais duas residências com mulheres ligadas a outras tradições culturais, um grande encontro entre todas as mulheres envolvidas, exposições e intervenções em diversas cidades no Brasil e também na França.

O processo de criação:
A produção das obras que integram o projeto se deu ao longo de três residências artísticas realizadas por Tatiana e Laura junto às mulheres ligadas às tradições culturais. “O ponto de partida do trabalho é o encontro, um encontro de olhares, de histórias, de percepções, de tempos. O retrato é proposto como processo lento e cuidadoso de fabricação de um olhar, de uma subjetividade. Retrato como forma de contar uma história”, explica Tatiana.

As artistas propõem que as mulheres realizem os retratos em foto e vídeo a partir da ideia de uma “caixinha pessoal”, aquela caixinha onde se guardam as coisas mais preciosas, um objeto da infância, uma carta, um retrato. Durante as residências artísticas, por meio de motes como “1 amor em 3 imagens” e “3 partes do corpo”, cada integrante foi compondo sua “caixinha”, feita daquilo que é mais precioso para si, só que na forma de fotos e vídeos.

As tradições são a porta de entrada, mas o projeto tem como foco principal as histórias de vida dessas mulheres. Permitir que cada uma delas possa, a partir do encontro com as demais, revelar sua própria história é um dos diferenciais do trabalho.

Sobre as idealizadoras:

Laura Tamiana – De família mineira, nasceu e cresceu em São Paulo, morou em Paris e hoje vive em Recife. Artista e produtora, trabalha com as artes visuais, a música, as artes cênicas e as tradições populares, buscando sempre promover o encontro, de cada pessoa consigo mesma, de umas com as outras e entre saberes e contextos diferentes. Tem especialização em Cooperação Artística Internacional, pela Universidade Paris 8, França. Como artista visual, idealizou e realiza desde 2013 o projeto “Céu e Terra”, em torno de experiências ligadas ao cuidado com a terra no sertão do Brasil, na Índia e na França. Sobre essa temática, realizou o curta “Por que não o paraíso?” (2015). Possui sua própria estrutura de produção, a Terreiro Produções, em parceria com o artista Helder Vasconcelos, e é integrante do coletivo Sexto Andar, no centro do Recife. Desde 2006, integra os grupos Boi Marinho e Maracatu Rural Piaba de Ouro, manifestações do Carnaval pernambucano. Motivada pelo que se passa quando mulheres compartilham dos seus tempos, idealizou e realiza o projeto Retrato: substantivo feminino em parceria com Tatiana Devos Gentile.

Tatiana Devos Gentile – Nasceu e cresceu no Rio de Janeiro, morou em Paris e hoje vive e trabalha no Rio de Janeiro. É uma curiosa de mundos. Adora viajar, cinema e encontros. Com o seu avô, que é fagotista, aprendeu a olhar o mundo de uma forma diferente. Faz cinema e artes visuais, é habitada de memórias, músicas, afetos e imagens. Em 2013/2014 foi residente da 5ª Bolsa Pampulha com o trabalho “Da memória dos outros”.  Desenvolve o projeto de instalação em vídeo-dança “Mire Veja:” e realizou o curta “Meu Avô, o Fagote” (2010), selecionado para festivais no Brasil e exterior. Em parceria com Leticia Nabuco, desenvolve o projeto “Hedonês” sobre o erotismo feminino na maturidade. Ganhou da sua mãe o livro “Mulheres que correm com os lobos” e com ele nasceu o desejo de conhecer outras mulheres, outros mundos. Idealizou e realiza o projeto Retrato: substantivo feminino em parceria com Laura Tamiana.

Cavalo Marinho:
Manifestação cultural da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Ligada ao ciclo natalino, se desenvolve na forma de um teatro de rua com música e dança. Composto antigamente só por homens, é ainda hoje majoritariamente masculino. “Retrato: substantivo feminino” nasceu do desejo das artistas de descobrir, encontrar, revelar o feminino desse universo. Integram o projeto mulheres ligadas aos grupos Estrela de Ouro e Estrela Brilhante, da cidade de Condado-PE.

Reinado:
Popularmente conhecido por Congado, é uma manifestação cultural e religiosa afro-brasileira presente em alguns estados brasileiros, muito forte em Minas Gerais. Integram o projeto mulheres dos Reinos Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário e São Jorge de Nossa Senhora do Rosário, do bairro Concórdia. Aqui, as mulheres tem um papel forte de liderença.

Batuque de Umbigada:
Da família dos Batuques, assim como o Jongo, o Batuque de Umbigada é uma dança de par, presente em diferentes locais do estado de São Paulo. Integram o projeto mulheres dos batalhões, como são chamados os grupos, de Piracicaba e Capivari. 

http://www.retrato-substantivofeminino.blogspot.com.br/

https://pt-br.facebook.com/RetratoSubstantivoFeminino

SERVIÇO

“Retrato: substantivo feminino”

– Oficinas
Datas: 08, 09, 10, 15, 16 e 17 de abril
Local: Casa do Jongo e arredores
Endereço: Rua Silas de Oliveira, 101 – Madureira

– Encontro entre jongueiras e mulheres de outras manifestações culturais
Datas:  de 14 a 17 de abril
Local: Casa do Jongo e arredores
Endereço: Rua Silas de Oliveira, 101 – Madureira 

– Celebração de encerramento
Data: 17 de abril
Horário: de 10 às 13h

Aberto ao público
Local: Casa do Jongo e arredores
Endereço: Rua Silas de Oliveira, 101 – Madureira

– Intervenções
De 18 a 25 de abril

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