A exposição chega ao Rio de Janeiro com três fotografias recém-incorporadas à coleção, que se somam a mais 132 imagens de mestres como os cariocas José Oiticica Filho e Osmar Peçanha, e de outros como Thomaz Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca; juntas, formam um raro panorama do movimento fotoclubista do país, a partir da década de 1940; na semana seguinte à abertura, o curador da mostra Iatã Cannabrava e a curadora do MoMA, de Nova Iorque, Sarah Meister, recebem o público para um bate-papo sobre fotografia moderna 

Em mais uma parceria do Itaú Cultural e o Paço Imperial, Moderna para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú Cultural chega ao Rio de Janeiro onde permanecerá em cartaz para o público de 22 de setembro a 20 de novembro. No dia 21 (quarta-feira), a abertura da exposição que tem curadoria do fotógrafo e pesquisador Iatã Cannabrava é marcada com coquetel para convidados. A mostra é itinerante e, após passar com recortes específicos por 10 cidades brasileiras e outras três da América Latina, chega na íntegra ao Paço. No total, são 135 obras do acervo de fotos modernistas do Itaú Cultural, incluindo três inéditas, recém-adquiridas pelo instituto – Sem Título (1950), de Eduardo Salvatore, Sem Título (s.d.), de Marcel Giró e Elos (1950), de Mario Fiori.

Os trabalhos são assinados por 32 artistas que pertenceram ao movimento fotoclubista brasileiro, lançado no final da década de 1930, na capital de São Paulo. Todas as obras de autoria deles, nesta exposição, remontam aos anos 1940 e 1970, quando na esteira do modernismo europeu e americano, fotógrafos brasileiros entraram na discussão sobre os limites da arte fotográfica.

Na semana seguinte à inauguração, no dia 29 de setembro (quinta-feira), às 18h, o curador da mostra e Sarah Meister, curadora de fotografia do MoMA (Museum of Modern Art), de Nova Iorque, conversam com o público sobre fotografia moderna e as suas influências na produção contemporânea da imagem. Sem restrição quanto à formação dos participantes, a duração prevista do encontro é de 1h30, com entrada gratuita e os ingressos são distribuídos com uma hora de antecedência.

As cidades que já receberam Moderna para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú Cultural, sempre com diferentes recortes, são Fortaleza, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Ribeirão Preto, São Paulo, Santos, Recife, Brasília e Curitiba, no Brasil. No exterior, a mostra passou por Assunção, no Paraguai, Cidade do México, no México, e Lima, no Peru.

A exposição
Instalada no primeiro pavimento do Paço Imperial, Moderna para Sempre, agora apresentada em sua totalidade, exibe obras consideradas raras e que formam a coleção de fotografia modernista do acervo do Itaú Cultural. Em destaque, as três aquisições recentes: Sem Título (1950), de Eduardo Salvatore, que teve importante papel no cenário fotoclubista como um dos fundadores do Foto Cine Clube Bandeirante, em 1939, em São Paulo, autor ainda de Formas (1950), também  presente na exposição; a vintage, de data indefinida, Sem Título, do catalão que viveu exilado no BrasilMarcel Giró, de quem também são exibidas outras nove fotografias, como Botellas (1950), Estudo de Sombra (1950) e Auto retrato com sombra (1953), e Elos (1950), de Mario Fiori, de quem até então não havia qualquer obra no acervo de fotos modernistas do instituto.

Algumas das imagens em exibição remontam a registros do Rio de Janeiro antigo, como Bailarina do Balé da Juventude UNE, Rio de Janeiro – RJ, de 1947, assinada por Thomaz Farkas. Obras dos fotógrafos cariocas, José Oiticica Filho e Osmar Peçanha também integram a mostra. Do primeiro, tem sete fotografias feitas entre 1949 e 1958, todas com a sua marca de forte contraste de claros e escuros e a relação entre pessoas, espaços vazios e a geometria, como em Triângulos Semelhantes, de 1949. Do segundo, há quatro obras – Palmas (1951), Equilíbrio (1960), Estacas (1981) eLinhas (1993).

Entre outras fotografias consideradas preciosas está Telhas, de 1947. Realizada por Thomas Farkas, mesmo com o título ao lado da fotografia, o observador duvida de qualquer referência às telhas ou telhados que lhe dão o nome. “Esta imagem, por exemplo, nos leva a um passeio por luz e movimento, e particularmente lembra as bandeiras de Volpi, que na verdade não nasceram bandeiras, mas sim telhados”, explica Cannabrava.

O abstrato-geométrico de Ademar Manarini, de quem há 10 trabalhos, como Janelas II (1953), Sem título (1950), In Extremis (1950) e Arquitetura (1950), se alinha a Arabescos em Branco (1960), de Gertrudes Altschul, uma das raras representantes do gênero feminino no fotoclubismo a partir da década de 1940. As obras deles se juntam à eternamente contemporânea Abstração #5, que nada mais é do que cartazes rasgados capturados por Rubens Teixeira Scavone.

Entre outras obras, Espiral (1944), de Gaspar Gasparian, chama atenção por se tratar de uma imagem com características surrealistas, também recorrentes no modernismo dos fotoclubistas, e remete a uma cena de cinema em preto e branco. Para citar mais algumas, a mostra apresenta, ainda 12 fotos de German Lorca, que impressionam por seu abstracionismo, 23 trabalhos de outro importante expoente do movimento, José Yalenti, além de trabalhos de Gunter E.G. Schroeder, Geraldo de Barros, do também escritor André Carneiro, Fabio Moraes Bassi, Paulo Pires, entre outros.

Mais sobre Fotoclubismo
O fotoclubismo brasileiro teve início em São Paulo, no Foto Cine Clube Bandeirante, em 1939, e se alargou para outros fotoclubes da cidade paulistana. Em geral, era composto por fotógrafos amadores que, livres das obrigações de um trabalho comercial, puderam experimentar e quebrar regras.  Nesses núcleos aterrissaram artistas como Geraldo de Barros, José Yalenti e German Lorca. “Nas imagens, encontramos as buscas por formas e volumes, abstracionismos e surrealismo, em uma evidente influência das antigas vanguardas europeias”, conta o curador. 

Os trabalhos destes artistas começaram pictorialistas, imitando os padrões da pintura do século XIX. Com o desenvolvimento e crescimento econômico do país, desembocaram no celeiro da fotografia moderna brasileira, a chamada Escola Paulista. “As obras parecem uníssonas porque têm forte unidade temática, divididas em dois grupos: cidades ou formas, sejam elas geométricas, elaboradas ou simétricas”, explica Cannabrava. “A partir deste momento, texturas, contraluzes, enquadramentos sóbrios, linhas, solarizações, fotomontagens, fotogramas, entre outros tópicos, passam a integrar o vocabulário criativo”, reforça.

Vale observar, também, que a maioria dos membros dos fotoclubes era de imigrantes de origem europeia ou descendentes refugiados das guerras do hemisfério norte, estabelecendo no Brasil uma produção com olhar mais otimista e de esperança no futuro, distante de assuntos sociopolíticos que predominavam nos trabalhos da época, e diferenciando-se do movimento europeu focado nas dificuldades sociais.

Para o curador, este grupo se antecipou ao atual universo dos blogs, Facebooks e Flickrs montando o que poderia ser chamado de primeiras redes sociais de que se tem conhecimento na área de fotografia. Por meio de salões, catálogos e concursos formaram uma teia internacional que divulgava a produção nos grandes centros da fotografia mundial e também do Brasil.

Iatã Cannabrava
Fotógrafo, editor, curador e agitador cultural, Iatã Cannabrava possui três livros publicados – Casas Paulistas (2000), Uma Outra Cidade (2009) e Pagode Russo (2014) –, fotos nas coleções MASP-Pirelli, Galeria Fotoptica, Joaquim Paiva e MAM-SP e trabalhos publicados em oito livros de autoria coletiva. 

Atualmente é diretor do Valongo – Festival Internacional da Imagem, é idealizador e coordenador do Fórum Latino Americano de Fotografia de São Paulo, realizado pelo Itaú Cultural, e até o ano passado foi diretor e realizador do Festival Internacional de Fotografia de Paraty – Paraty em Foco. Entre seus projetos permanentes estão o Madalena Centro de Estudos da Imagem, a Livraria Madalena e a Editora Madalena ao lado de Claudia Jaguaribe e Claudi Carreras.

Lista de artistas e quantidade de obras na exposição:

  1. Ademar Manarini (10)
  2. Alberto Figueira (1)
  3. André Carneiro (1)
  4. Chakib Jabour (1)
  5. Dalmo Teixeira Filho (1)
  6. Délcio Capistrano (1)
  7. Eduardo Enfeldt (2)
  8. Eduardo Salvatore (2)
  9. Fabio Moraes Bassi (1)
  10. Francisco Albuquerque (1)
  11. Francisco Quintas Jr. (1)
  12. Gaspar Gasparian (2)
  13. Georges Radó (4)
  14. Geraldo de Barros (11)
  15. German Lorca (12)
  16. Gertrudes Altschul (3)
  17. Gunter E.G. Schroeder (3)
  18. Jacob Polacow (1)
  19. João Bizarro da Nave Filho (1)
  20. José Oiticica Filho (7)
  21. José Yalenti (23)
  22. Julio Agostinelli (1)
  23. Lucilio Correa Leite Júnior (1)
  24. Marcel Giró (7)
  25. Osmar Peçanha (4)
  26. Nelson Kojranski (1)
  27. Paulo Pires (20)
  28. Roberto Marconato (1)
  29. Rubens Teixeira Scavone (4)
  30. Thomaz Farkas (5)
  31. Tufi Kanji (1)
  32. Dalmo Teixeira Filho (1)

SERVIÇO

Moderna Para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú Cultural

No Paço Imperial, Rio de Janeiro

Abertura para convidados: 21 de setembro, às 18h30

Visitação: 22 de setembro a 20 de novembro

Horário de visitação: de terça-feira a domingo, das 12h às 18h

Entrada gratuita

Classificação indicativa: Livre

Bate-papo com fotógrafosIatã Cannabrava e Sarah Meister

Dia 29 de setembro, quinta-feira, das 18h às 19h30
Na Sala dos Archeiros
Entrada gratuita

Distribuição das senhas com uma hora de antecedência

Paço Imperial

Praça XV de Novembro, 48

Tel.: 21. 2215-2093/ 2215-5231

www.pacoimperial.com.br

Itaú Cultural

Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô

Fones: 11. 2168-1776/1777

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