O passeio pela câmera interna e pelo espaço externo, no livro Intramuros, de Astrid Cabral

A grande dama da literatura brasileira em pleno vigor artístico

Foto AstridO livro de poemas Intramuros, de Astrid Cabral foi publicado originalmente em Curitiba, estando em segunda edição pela Valer de Manaus. Conquistou o importante prêmio de literatura Helena Kolody. É uma obra que atinge as reflexões fundamentais sobre subjetividade e objetividade, o dentro e o fora, a natureza e o artificial, percorrendo espaços que preenchem as lacunas da presença, sendo esta imaginativa ou realista. Como a autora mesma explica num texto teórico que percorre a trajetória de sua obra artística: “A coletânea Intramuros/Extramuros revela, desde o título, a proposta de um espaço poético fechado e de outro aberto”. Quando a poeta cita as laranjas no poema que inaugura o livro, mostra seu desencantamento com relação à natureza morta na miniatura de sua casa, no prato matinal, como se lá fora, elas fossem mais plenas e leves e não condizentes com o peso da rotina. O dentro tem suas mágoas que entorpecem a vida externa. No mesmo poema, o azul do pássaro faz lembrar ao eu-lírico que esta imagem do bule da louça é uma representação débil da realidade vibrante que ela tanto almeja. Logo no primeiro poema do livro, encontra-se o diálogo entre o intra e o extramuro. Para o Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, muro pode indicar “separação”. Aqui, há a agressividade da natureza adentrando a vida doméstica, como se aquela em seu estado puro não se revelasse tão ameaçadora sem o contato do humano, seja a partir do olhar que este lança sobre o fora, seja pelo artefato que ele produz através do natural, sua base.

Na poesia, a linguagem, para Astrid, ameaça o silêncio ameno do esquecimento. As palavras jorram em direção dos entrelugares, em que corpo e pausa, toque objetivo e seu olhar abstrato se intercalam: “A xícara de louça/aparentemente muda/me fala de horários/chás cafés chocolates…” A “cerimônia do dia”, como a poeta mesma anuncia é uma representação falha da natureza. Temos uma ritualística dos objetos, fugindo à liberdade dos pássaros fora das gaiolas e das xícaras; a natureza é a tão sonhada utopia do eu-lírico, que no interior da casa adquire a coagulação do sangue fresco das tintas do artista preso à sua interioridade objetiva. O muro aqui é símbolo de uma ultrapassagem da separação, de uma fronteira entre o fora e o dentro. A verticalidade deste espaço se desmorona, dando lugar à habitação poética. O poetizar é a forma de Astrid subverter o lugar que cabe apenas à concretude das coisas. O olhar traspassa tudo. A experiência subjetiva da poeta adquire vida e aniquila o que está morto a sua volta, o que é rotina, horário, passagem. No belíssimo e afinado prefácio de Fausto Cunha a este livro de Astrid: “O mundo real permeia a obra de Astrid Cabral desde os contos de Alameda (1963).” Certamente que a realidade é a matéria-prima do poeta, mas o olhar entrecruzado desta escritora, pespontando as linhas invisíveis de duas margens: o universo doméstico e exterior, transforma o hábito em drama, em movimento, trama, intercalando memórias diversas num mesmo ser que se atualiza em cada vislumbrar do momento.

Em “Piscina”, Astrid ri e ironiza a representação da natureza a partir deste objeto que se encontra nas casas e serve de prazer para as crianças. Utiliza uma metáfora riquíssima para falar com seu tom sarcástico sobre o confinamento da natureza no espaço doméstico: “mar domesticado”. O saudosismo do eu lírico é perfurar esta muralha que separa o concreto das habitações para percorrer os espaços imaginários da natura tão esnobada e rejeitada pelo homem moderno que prefere os artificialismos estéticos das construções arquitetônicas. A forma como Astrid lê o universo doméstico, seus objetos, o adentrar da natureza que ultrapassa a sua porta é o acordar para a realidade. Nisto reside a realidade de que fala Fausto Cunha. Refletir sobre o fora no dentro e a partir do dentro do eu lírico é que requer uma originalidade excepcional  desta poeta singular. Para Schopenhauer, em A arte de escrever: “O estilo é a fisionomia do espírito.” E estilo, Astrid Cabral tem de sobra. A estilização do fora é colocar o olho de dentro como uma máquina fotográfica que capta o externo com cores diferentes e inaugurais, quebrando a rotina de que tanto a poeta reclama. Em “Ovo estrelado”: “Do céu do prato/um sol me olha/com olho de ouro.” O macroscópico, o grandioso e o pequeno, familiar se intercalam saltando faíscas líricas de criatividade sobre o real. Este tecido artístico através das palavras é que é capaz de driblar o cansaço do mesmo, da univocidade.

Gilles Deleuze, em Diferença e repetição, disse: “O Ser se diz num único sentido de tudo aquilo de que ele se diz, mas aquilo de que ele se diz difere: ele se diz da própria diferença.” Aqui o dentro e o fora se dedilham, o ser e a linguagem se tocam, como se o discurso engendrasse uma diferença necessária para o mito do ser essencial e sempre igual a si mesmo, pois é a partir destes dois muros (intra e extra) aqui em Astrid que a palavra se extrapola dos muros da essência subjetiva. O objetivo lança um olhar ameaçador ao interior do eu lírico que expele toda sua dor e prazer diante da realidade. O olhar adquire estado de coisa, o objeto se aprofunda no dentro e o jogo torna possível a passagem de um para outro plano.

Fugindo ao espaço doméstico, a parte final “Extramuros” relata sobre lugares vivos, as naturezas vibrantes de fora e espaços pelos quais a poeta viajou. Tem-se a “Catedral de bambu”, onde o eu lírico se regozija com a beleza mística da natureza, mesclando objetos da igreja com as folhas naturais. Mais uma vez a “separação” dos muros é só um artifício para esta escritora fantástica fazer sua brincadeira elegante que quebra com as fronteiras do fácil. Nos postais sul-americanos e de Paris, tem-se mais uma vez a versatilidade de Astrid Cabral em cortar as distâncias entre o dentro e o fora. Nesta série de poemas, o corpo da natureza se conecta com o artificialismo das construções e o olhar do leitor dança e paira por sobre os muros das espécies, num jogo presentificado e raro. Os postais não poderiam ser a estilização do olhar do eu lírico? Não sua forma física em fotografia, mas o ferir do olho da câmera interior no passeio imagético pelas cidades pelas quais a poeta viajou? Portanto, pode-se dizer que a objetividade se cumpre neste seu livro, mas não deixa de ter o peso da câmera interna do eu-lírico que tece um tapete fotográfico imaginário e subjetivo, num passeio pela lente do leitor que completa estes verdadeiros postais com linhas de várias cores. Este livro tem o que dizer sobre espaços ainda não ditos pelo olho comum.

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Biografia da Astrid
http://malabarismospoeticos.blogspot.com.br/2015/09/a-grande-dama-da-literatura-nacional-e.html


 

Fonte: Divulga Escritor
Por Alexandra Vieira de Almeida

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