O Olho Azul da Falecida

Texto mais famoso de Joe Orton reestreia no Teatro do Leblon

O Olho Azul da Falecida - foto: Guga Melgar
O Olho Azul da Falecida - foto: Guga Melgar

Um homem de luto pela morte da mulher, uma serial killer viúva de sete maridos, um ladrão em conspiração com um agente funerário, um tesouro e um cadáver fazem arte desta comédia escrita por Joe Orton há 50 anos e levada agora aos palcos numa montagem da Cia Limite 151. A farsa de Orton, com tradução de Barbara Heliodora e direção de Sidnei Cruz reestreia nova temporada dia 10 de julho no Teatro do Leblon.

Um dos dramaturgos mais criativos do século 20, Joe Orton nasceu em Leicester, Inglaterra em 1933. Dramaturgo conhecido por seu humor negro subversivo, utiliza em suas peças diálogos epigramáticos e tramas farsescas para satirizar a autoridade e subverter a moral convencional. Assassinado pelo amante Kenneth Halliwell em 1967, Orton teve uma carreira curta mas bem sucedida. Escreveu um romance surrealista, um roteiro inédito para um filme dos Beatles, seis peças, um diário e alguns roteiros para televisão. De 1963 a 1967 fez uma carreira meteórica. “Pela qualidade e originalidade da sua escrita pode se imaginar para onde mirava sua artilharia verbal. Diálogos fulminantes, humor corrosivo, uma máquina de triturar convenções humanas e estruturas institucionais, mestre em instauração de situações absurdas e cruéis numa velocidade delirante. Cortejava o público ao mesmo tempo que rosnava na sua cara sorridente, um olho na bilheteria e outro na arte de escrever”, garante o diretor Sidnei Cruz.

O Olho Azul da Falecida - foto: Guga Melgar
O Olho Azul da Falecida – foto: Guga Melgar

Em O Olho Azul da Falecida (Loot no original) a sagacidade subversiva de Orton ataca a família, o luto, a justiça, o casamento, a religião. O texto trata de roubo e assassinato numa trama que mistura comédia de erros com trama policial. É a morte, com toda a pompa e circunstância de um funeral, em toda a sua solenidade do luto, quem protagoniza o jogo da cena. Um jogo poderoso, onde a mola propulsora são as ideias em processo de construção para um teatro da destruição. Os valores mais caros à sociedade, inventados para sustentá-la diante de todas as crises, com a finalidade de manter sempre as aparências, são derrubados aos golpes de marteladas (vingança premonitória do que viria a acontecer com o próprio autor alguns anos mais tarde). “A encenação rastreia o percurso do jogo teatral do autor, seguindo as pistas que se desdobram ao longo das tramas, ao sabor de uma sinfonia de disparates, abrindo escutas a cada uma das entradas e saídas de portas que formam a engrenagem de uma farsa macabra, que quer propor algum pensamento ao público e, se for o caso, provocar o riso”, completa Cruz.

Uma das fundadoras da Cia Limite 151 (ao lado do maestro Wagner Campos e do produtor e ator Edmundo Lippi), a atriz e diretora Gláucia Rodrigues define o texto de Orton como espetacular. “O autor é um demolidor dos costumes e da moral. Tem uma maneira de escrever muito própria. Apesar de ter sido escrito em 1965 o texto é atualíssimo. Uma crítica bem humorada à religião, às relações familiares.  E a direção do Sidnei (Cruz) tem uma certa loucura que também sinto no Orton”, afirma a atriz que interpreta a serial killer Fay.

Montada pela primeira vez em Cambridge, Inglaterra, no ano de 1965, a peça narra a história de Hal, no dia do enterro de sua mãe. Um jovem extremamente inteligente e perspicaz que resolve assaltar um banco e usar o dinheiro para fugir do universo católico em que foi criado e que considera hipócrita. Quem interpreta Hal é Rafael Canedo, que divide os ensaios com as gravações da nova temporada do seriado Pé na Cova, onde interpreta o personagem Ruço quando jovem. “Hal é construído pelo autor de forma inteiramente paradoxal. É um cara barra pesada que assalta turistas, deflora moças de boa família, pouco se comove com a morte da mãe mas ao mesmo tempo pertence a Irmandade dos Filhos da Divina Providencia e não consegue de maneira nenhuma mentir. E são essas contradições que trazem comicidade e vida a esse personagem”, conta o ator.

Encarregado de descobrir o assassino, o detetive Truscott é interpretado por Tuca Andrada que o descreve como uma grande homenagem a todos os famosos detetives da literatura, de Sherlock Holmes a Hercule Poirot. “É uma grande brincadeira com todos esses famosos detetives. Ele não acerta nada, faz milhões de trapalhadas, mas no final tudo dá certo. O texto de Orton é uma trama muito bem armada que, ao mesmo tempo que põe abaixo qualquer ideia pré-concebida sobre a morte, é extremamente divertida”, garante o ator.

O Olho Azul da Falecida - foto: Guga Melgar
O Olho Azul da Falecida – foto: Guga Melgar

Um vaudeville macabro
Na trama, o Sr. McLeavy (Mário Borges) é um homem de luto pela morte da mulher. Seu filho, Hal (Rafael Canedo), assalta um banco tendo como comparsa o agente funerário Dennis (Helder Agostini), que é também seu amante. Quando o detetive Truscott (Tuca Andrada) começa a investigação e vai até a casa do Sr. McLeavy, a dupla criminosa decide esconder o dinheiro roubado no caixão da mãe. Como não há espaço suficiente, eles escondem o cadáver no armário. Nesse meio tempo, aparece Fay (Gláucia Rodrigues), a enfermeira serial killer responsável pelo assassinato da Dra. McLeavy, que tem planos de se casa com o viúvo e depois matá-lo.

FICHA TÉCNICA:
Texto – Joe Orton
Tradução – Bárbara Heliodora
Direção – Sidnei Cruz
Cenário – José Dias
Figurinos – Samuel Abrantes
Música original e direção musical – Wagner Campos

ELENCO:
Tuca Andrada – Truscott
Gláucia Rodrigues – Fay
Rafael Canedo– Harold
Helder Agostini – Dennis
Johnny Ferro – Meadows

Ator convidado: Mário Borges – McLeavy

SERVIÇO:
Temporada de 10 de julho até 30 de agosto
Local: Teatro do Leblon (sala Fernanda Montenegro)
Tel.: 2529 7700
Horário: sexta e sábado às 21,30/domingo às 20,30
Preço: sexta e domingo R$ 80,00 / sábado R$ 90,00
Classificação etária: 10 anos
Lotação do teatro: 346 lugares
Duração do espetáculo: 1h40min
Comédia

 

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