O Arraiá do Grupo Moça Prosa acontece neste fim de semana e traz samba, forró e muita resistência

Todo terceiro sábado do mês, a “nega reclama” e quem comanda são elas

Foto: Cris Vicente

Será que samba combina com forró? Junho é o mês perfeito para descobrir. No próximo sábado (18), o grupo Moça Prosa faz a sua já tradicional roda de samba na Pedra do Sal e apresenta, nesta edição, o ‘Arraiá das Namoradeiras’. O evento tem início às 17h e, além de ser gratuito, traz a sambista de Minas Gerais, Júlia Rocha, promovendo também uma mistura dos gêneros musicais. Com um repertório repleto de grandes compositoras do samba, a roda cria, há quatro anos, um ambiente agradável para todos os públicos. Já pode anotar na agenda.

Gente como Clara Nunes, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Leci Brandão e Clementina de Jesus são sempre presenças confirmadas. E, claro, estão dentro no repertório do grupo. Também entra Paulo César Pinheiro, Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia e muitos outros. “Só não entram musicas machistas”, afirma a vocalista Fabiola Machado, garantindo que todas as canções são escolhidas a dedo. “Nós temos uma preocupação muito grande com o que vamos cantar. Procuramos, primeiramente, aqueles sambas que valorizam as mulheres. Não cantamos só as compositoras, mas fazemos questão de enaltecer as moças prosas da nossa cultura”, conta ela que também toca o reco-reco. E, não se iludam, durante a roda, tem espaço para todas as vertentes do gênero. Tem samba de terreiro, samba de jongo, samba de partido alto, capoeira e tem até samba-enredo.  Ou seja, o negócio esquenta!

Um dos motivos do sucesso é a intenção da roda, que não é apenas um grupo de samba feminino, mas sim um coletivo. “Nós evoluímos um pensamento. Criamos uma ideologia ao olhar a mulher como ela é, e fazemos disso uma luta por meio do samba”, explica a professora de Literatura Jack Rocha, que comanda o pandeiro e a voz do Moça Prosa. De acordo com o grupo, a prioridade é homenagear a força da mulher por meio da cultura popular. O resultado? Cerca de 90% do público da roda é feminino. “Elas se sentem representadas e isso não tem preço”, se alegra Luana Rodrigues, uma das sete mulheres que compõe o conjunto, e que comanda o atabaque e tantã.

E é tudo por conta delas. Elas montam o ambiente, decoram o lugar e, se preciso, carregam todo o tipo de peso. Definitivamente, botam a cara à tapa. “Nós demos um grito de independência aqui”, se orgulha Luana, que também é professora de Literatura. “Somos motivadas pela ideologia da mulher, da mulher negra, da cultura negra. Por isso, temos todo um cuidado com os detalhes”, diz Jack. Resistir em um lugar de resistência só podia resultar em muito samba.

O grupo não passa chapéu e nem cobra entrada. Em contrapartida, as meninas promovem em toda edição uma rifa. “É um momento especial porque a gente se relaciona com as pessoas e entra em contato com o público”, lembra Karina Isbelle, que também é integrante da GRES Paraíso do Tuiuti. Segundo o grupo, a roda recebe frequentemente famílias completas.  Crianças, pai, mãe, avó, avô e até o cachorro da família já esteve presente no evento, que têm em média 300 pessoas por edição.

Preconceito

Não é novidade que o samba sempre foi um nicho dominado pelo gênero masculino. Ao sentarem numa roda, elas perceberam que atitudes machistas e preconceituosas estão presentes em todos os lugares. “A gente sente uns olhares estranhos. Algumas pessoas vêm na roda e fazem ‘carão’ pra nos intimidar, mas a gente fica firme”, conta Karina. De acordo com ela, às vezes, o preconceito vem até do contratante. “Em alguns eventos, querem pagar menos por sermos uma roda de samba de mulheres, acredita?”, se revolta. A resposta para essas atitudes é continuar resistindo: “A gente encara todo esse machismo com muita, luta, resistência e samba – que é o que a gente faz de melhor”. Já dos maridos e namorados, elas têm todo o apoio. “A gente se conheceu no samba, então eles entendem, ajudam, participam e incentivam”, considera Luana.

História

O que iniciou como brincadeira, se tornou um movimento de resistência. Começou em 2012, bem levemente, de forma bem didática pelo sambista Wagner Silveira, o Wagninho. A partir de suas aulas de percussão direcionada a mulheres é que as coisas começaram a surgir. “No início, criei a oficina para ensinar as interessadas a tocar os instrumentos. Nos ensaios, reunia as participantes e montava um pequeno repertório. Com o tempo, percebi que algumas alunas estavam bem evoluídas e as convidei para montar o grupo”, explica ele. Originou-se assim o Moça Prosa, formado inicialmente por doze mulheres.

Tudo aconteceu bem ali, na Pedra do Sal, no mesmo lugar onde Donga, Ismael Silva, João da Baiana e Pixinguinha se reuniam no início do século passado. “Aos poucos, quis montar um grupo para que elas pudessem tocar em encontros pequenos, como festas e reuniões, mas a evolução foi tão grande que tivemos que criar a própria roda delas na Pedra”, se orgulha Wagninho.

Hoje, já passaram por lugares tradicionais como a clássica Roda de Samba da Pedra do Sal, às segundas-feiras, tocaram na ALERJ, na Portelinha, no Trapiche Gamboa, na Casa Porto, na Arena Dicró e muitos outros. “Somos chamadas para representar a mulher. Não é para abrir shows, não. Somos convidadas para ser a atração principal mesmo”, se emocionam elas, que, além de sambistas, são também compositoras.

Exemplo disso é Dani Andrade, tamborim e tantã, que é uma das autoras do conjunto. Toda segunda quinta-feira do mês, ela participa do samba ‘Aos Novos Compositores’, evento que abre um espaço para os que estão chegando. Ao longo dos quatros anos percorridos, todas as mulheres do Grupo Moça perceberam estão crescendo tecnicamente e esperam, um dia, viver do que sabem fazer de melhor, o samba. “Os convites começaram a aparecer e, quando a gente viu, começamos a brincar de verdade”, conta Luana. Brincadeira, essa, que só está começando.

Serviço

O que? Roda de Samba do Grupo Moça Prosa, edição ‘Arraiá das Namoradeiras’. O conjunto é composto por Fabíola Machado (voz e reco-reco); Tainá Brito (percussão de efeito, surdo e voz); Dani Andrade (tamborim); Luana Rodrigues (atabaque e tantã); Karina Isbelle (pandeiro e cuíca); Jack Rocha (voz e pandeiro) e Ana Priscila Silva (tamborim)
Quando? Sábado, 18 de junho, é agenda fixa: todo terceiro sábado do mês
Que horas? 17h
Onde? Na Pedra do Sal
Quanto? Gratuito
Quem pode ir? O evento é indicado para crianças e famílias

Veja mais informações sobre o evento aqui e sobre o grupo Moça Prosa aqui.

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