No Rio, movimento tropicalista e ditadura militar ganham destaque no teatro

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Diante de um nebuloso 2016, peças como Contra o Vento (um musicaos); Nem Mesmo Todo Oceano; e Tropicalistas, o musical ajudam a provocar a memória do país, relembrar o fato que foi um marco recente do Brasil, o Golpe Militar de 1964, e a trazer a democracia como tema. Com leituras diferenciadas, os espetáculos caminham pelo mesmo momento histórico político e cultural, fazendo da própria arte um manifesto de liberdade. Nestas produções, por exemplo, é possível identificar referências como o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; o boom que foi o Teatro Opinião; a Passeata dos Cem Mil; o AI-5, entre outros.

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Com texto de Daniela Pereira de Carvalho e direção de Felipe Vidal, a peça Contra o Vento (um musicaos) relembra o surgimento do movimento tropicalista. A produção conta a história do Solar da Fossa, uma pensão que, no início dos anos 1960, foi o celeiro do tropicalismo, abrigando nomes como Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Zé Keti, Torquato Neto, Gilberto Gil, Paulo Coelho, entre outros. A peça reproduz a lembrança de um diário (fictício) achado nos escombros do casarão, onde hoje é o Shopping Rio Sul, em Botafogo.

A partir de textos de Oswald de Andrade, José Agrippino de Paula, Paulo Leminski e Jorge Mautner, a montagem mostra a aflição dos moradores do Solar ao terem sua liberdade ameaçada. As canções, que além de serem inéditas, também foram compostas em plena sala de ensaio, trazem referências históricas. “É muito louco estar falando sobre isso neste momento. Trazer aos palcos o Golpe que calou toda uma geração é muito importante. É como uma ação política”, garante o diretor Felipe Vidal.

Nem Mesmo Todo Oceano, dirigida por Inez Viana e estrelada pela Cia. OmondÉ, destaca a violência das torturas na Ditadura Militar. A montagem, que está na 7ª temporada, conta a trajetória de um estudante do interior de Minas Gerais que veio ao Rio de Janeiro prestar medicina e, com o passar dos anos, se vê, inesperadamente, como um médico legista do DOI-CODI.

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Foto: Juliana Hilal

A peça, inspirada na obra de Alcione Araújo, é de 2013, mas se mantém totalmente atual. “Não é coincidência, todo mundo precisa e está pedindo democracia”, conta Inez. Segundo a diretora, a ideia é usar os erros cometidos no passado para mostrar quais são os dados que as atitudes do presente podem causar no futuro. “Toda vez que termina a peça eu digo ao público ‘venham nos assistir logo porque não sabemos se ainda estaremos aqui na semana que vem’”, diz se referindo às censuras.

Estreando nesta quinta-feira (2), Tropicalistas, o musical traz as cores, as músicas e toda referência do movimento, que sacudiu o mundo cultural no fim dos anos 1960. Com direção musical de Jules Vandystadt, arranjos de Tim Rescala – que já assinou a música de novelas como Meu Pedacinho de Chão e Velho Chico – e direção teatral de Ciro Barcellos, do grupo Dzi Croquettes, o espetáculo promete trazer um grande protesto aos palcos. “Não é uma peça biográfica, poderíamos montar uma ‘Tropicália’ light, no melhor estilo broadway, mas não, é protesto! Precisamos gritar algumas coisas, e agora!”, diz Ciro, que já foi exilado enquanto estava em cartaz com o Dzi. Ele, que teve a sua história marcada pelo tropicalismo, chegou a fugir de casa para viver de fato o movimento. “Tropicalistas somos nós, manifestando por meio da arte o que é esse movimento e o que ele próprio representa: a liberdade”, conta.

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Com atores do Rio, Salvador e até de Londres, o musical oferece o discurso e a poesia da ideologia. A atriz baiana Verônica Bonfim se sente privilegiada em participar da montagem. “É muita emoção e honra poder contar isso tudo com o cara que viveu de fato toda a intensidade do tropicalismo”, diz. Quem também pensa assim, é o cantor e ator Rico Ayade. “Me sinto honrado como artista e, muito mais como cidadão, por poder reviver a Tropicália nos palcos, principalmente neste momento sombrio do nosso país”, conta. Já a atriz Isadora Medella, do Grupo Chicas, se vê agraciada interpretando a sua classe no palco. “Me sinto representando uma mulher que foi derrubada e todas as outras mulheres que quiseram falar, mas não puderam”, aponta. A peça ainda conta com um grupo de atores, cantores e bailarinos, que prometem fazer um apelo à democracia.

Onde assistir

Contra o Vento (um musicaos) acabou de sair de cartaz, mas eles estão presentes na Festa Internacional de Teatro de Angra, a FITA, que inicia em 3 de junho.

Nem Mesmo Todo Oceano irá encarar a 8ª temporada no Rio de Janeiro, em breve, no Espaço Furnas Cultural. A programação ainda não foi divulgada.

Tropicalistas, o musical estreia amanhã, no Teatro Carlos Gomes, com exibições de quinta a sábado, às 19h, e aos domingos, às 18h. Meia entrada: R$ 20.

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