Mirianês Zabot canta Gonzaguinha em show gratuito

O show gratuito será dia 16 de junho, às 19h30, na FNAC Pinheiros

Mirianês Zabot (Divulgação)
Mirianês Zabot (Divulgação)

Por Oscar Pilagallo, jornalista e escritor

No ano em que lembramos um quarto de século sem Gonzaguinha, uma voz distinta soa suave e límpida para saudar a certeza da eterna presença do compositor. É a voz de Mirianês Zabot, dona de um poder balsâmico capaz de transformar aspereza em brandura, rascância em delicadeza, derramamento em contenção, tudo isso enquanto, mais do que preservar a essência do seu cancioneiro, lhe empresta novas e insuspeitadas possibilidades de interpretação.  

“Há muito tempo que eu caí na estrada”, canta Mirianês, e o verso bem que poderia se aplicar à sua própria trajetória. Adolescente em meados dos anos 90, ela deixou a cidadezinha de São João Bosco, desceu a serra gaúcha — como Gonzaguinha descera o morro São Carlos, no Estácio — e fez o que o coração mandava: “Pegou um sonho e partiu”. Não por acaso a frase batiza o álbum dedicado ao autor de “Com a Perna no Mundo”, uma das faixas mais autobiográficas do CD.

Gonzaguinha ganhou interpretações inesquecíveis de divas da música popular brasileira, entre elas Elis Regina, Maria Bethânia, Claudette Soares e Simone. Pois nessa constelação, a estrela de Mirianês, já vislumbrada no trabalho anterior, Mosaico Foto-Prosaico, pisca com uma luminosidade abundante, como a demonstrar que interpretações podem ser inesquecíveis, sim, mas não definitivas.

Se não, vejamos.

Em “Maravida”, Mirianês eleva o tom maior a um registro solar, que ilumina a exclamação “vida, vida, vida / que seja do jeito que for”. A faixa, aliás, que abre o CD com a expressão “era uma vez”, sugere uma abordagem narrativa do projeto, confirmada pela escolha acertada do repertório, que passeia entre o lírico e o cáustico, o romântico e o engajado, trazendo à tona as várias facetas de Gonzaguinha.

Nas outras baladas, Mirianês sublinha com sutileza as intenções que lê nas palavras do compositor: é quase saltitante em “Caminhos do Coração” e de uma intensidade crescente em “Sangrando”, à qual imprime a marca indelével de introspeção genuína, também presente em “Feliz”, que, a propósito, recebe um eficiente tratamento blusístico.

A versatilidade de Mirianês sobra ao puxar os sambas contagiantes de Gonzaguinha. Transmite uma alegria libertadora em “Com a Perna no Mundo”, sabe sorrir do humor carnavalesco e nonsense de “Desenredo (G.R.E.S. Unidos do Pau-Brasil)”, uma parceria com Ivan Lins, é mordaz na medida em “Comportamento Geral” e tempera ironia com solidariedade em “Um Sorriso nos Lábios”. Tivesse nascido na Lapa, melhor não faria essa gaúcha, carioca da gema por vocação e merecimento.

Pegou um Sonho e Partiu passa ainda pela bossa nova. “Espere por Mim, Morena”, MPB rasgada no vozeirão de Gonzaguinha, rende um momento intimista, que a aproxima daquela outra famosa morena, a dos olhos d’água. E “De Volta ao Começo” marca um encontro de gerações que fecha um círculo virtuoso — no caso, a reunião da primeira e da mais recente intérprete do compositor. Como polos opostos que se tocam, a emoção incontida de Claudette Soares e o controle estudado de Mirianês confluem para um dueto tão surpreendente quanto fecundo.

O CD dedicado ao filho do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, visita, por fim, o Nordeste profundo com “Galope”, que dá vazão ao vocal enérgico de Mirianês, valorizado pelo andamento ligeiramente desacelerado e, sobretudo, pelo arranjo, que recobre o agreste da canção com uma sonoridade moderna, mas sempre fiel à sua natureza.

Respeito, não reverência; criatividade, não invencionice — talvez seja essa, a melhor definição dos arranjos assinados por Oswaldo Bosbah, também responsável, ao lado de Mirianês, pela produção musical. Para realizar essa concepção, Bosbah, que toca violão em todas as faixas, contou com o pianista Marinho Boffa, que acompanhou Gonzaguinha em show e gravação. A banda é formada ainda por Mário Manga (guitarra e violoncelo), Welington Moreira, o Pimpa, na percussão, Pratinha Saraiva (flauta e bandolim), e dois ex-integrantes do Zimbo Trio: o baixista Itamar Collaço e o baterista Percio Sapia.

O CD fecha com uma faixa bônus, “Vidas Idas”, um samba de Bosbah e Mirianês que dialoga com o universo do compositor.

Por isso tudo, parafraseando Gonzaguinha, diga-se: quando ela soltar sua voz, por favor, escute.

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