Luz, câmera, ação! Jovens produzem curta em apenas 100 horas e mostram a degradação da Baía de Guanabara

Realizado pelo Cinema Nosso, o evento 100 X 100 Brasil trabalhou a temática socioambiental

Desenvolver um curta-metragem com a temática socioambiental em exatamente 100 horas. Essa era a tarefa de 19 jovens, de diferentes lugares do Brasil, todos vindos de projetos sociais parceiros do Cinema Nosso, escola de audiovisual e anfitrião do evento 100 X 100 Brasil – Desafio Socioambiental, que ocorreu entre os dias 14 e 19 março. A proposta de produzir um filme nesse curto espaço de tempo surgiu na Bolívia, em 2006, e desde então o país vem sendo palco da ação. E esse ano, pela primeira vez, o desafio aconteceu no Brasil acompanhado de uma programação composta por palestras e oficinas que tratassem do tema ‘socioambiental’ e audiovisual, além do Seminário Brasil 3.0.

Os jovens foram divididos em três equipes diferentes: laranja, vermelha e verde. O objetivo era que eles criassem, a partir de suas experiências e funções nos projetos sociais de onde vieram, um curta, de no máximo sete minutos. Os lugares escolhidos para as externas foram: Niterói, São Gonçalo e Ilha do Governador. Separados por grupos eles foram até esses locais e conheceram um pouco da história dos moradores, além de poderem ver de perto a degradação da Baía de Guanabara.

Uma família destruída pela poluição
A equipe laranja acompanhou de perto a rotina do Seu Pedro, presidente da Associação de Pescadores da Praia da Rosa, na Ilha do Governador. O senhor, que serviu de personagem para os participantes, viu sua família ser destruída por conta da poluição. “Há tempos atrás a gente pescava até camarão. Hoje, por causa da sujeira, os peixes não chegam mais aqui, o dinheiro não dá pra nada. Não tem família que suporte isso”, lamenta Seu Pedro que foi deixado pela esposa e filhos. “Só me restou a pesca. Eu até gostava de estudar, mas tive que parar muito novo para trabalhar. Desde pequeno eu sou pescador. Só sei fazer isso”, completa.

Para os participantes foi um choque ver a situação da Baía de Guanabara e a forma como os pescadores vivem. ‘”Cada um possui um quarto e a cozinha é compartilhada”, conta a participante de Rondônia, Allini Lima, que ficou com a função de produtora durante o processo.

O curta abordou não apenas o tema meio ambiente, mas também o impacto que a sua degradação causa diretamente às famílias que dele retiram o seu sustento, como é o caso do Seu Pedro. “Falamos muito de poluição para preservamos a natureza, mas esquecemos do homem. Esquecemos, principalmente, do homem que sempre teve cuidado, pois tem consciência que necessita de um ecossistema saudável para viver, se alimentar e sobreviver. É seu trabalho estar ao lado da natureza e mantê-la preservada”, diz Allini.   

Reconhecimento
Para Mirian Machado, gestora do Cinema Nosso, esse intercâmbio de ideias foi extremamente importante. “Ter jovens de diferentes estados do país foi uma experiência muito rica e acho que, enquanto instituição, esse foi o grande norte do Cinema Nosso”, conta Mirian.

Aprimorar as técnicas para realização de um bom filme foi uma das experiências que o desafio proporcionou aos presentes. Com a ideia da temática socioambiental em mente, os participantes tiveram aulas de câmera, som, produção, edição e direção. As funções foram dividas entre os grupos e cada um pode por em prática o que aprendeu durante o processo. Alisson Moura veio da Paraíba para o Rio de Janeiro para participar do 100 X 100. O jovem trouxe com ele sua vivência destacando a problemática do uso de agrotóxicos nos alimentos. “Aqui eu aprimorei meus conhecimentos sobre audiovisual e impacto socioambiental que está acontecendo na Baía de Guanabara, que me impressionou pela sujeira e pela conformidade dos moradores em relação a isso”, revela Alisson.

O momento também foi de descoberta pessoal para muitos que ali estavam. É o caso de Allini Lima, de Rondônia, que viu a responsabilidade cair no seu colo quando foi escolhida para ser a produtora de um dos curtas. “O Desafio 100 x 100 me ajudou a sair da zona de conforto porque eu sou jornalista e estudante de publicidade. Fazer produção de cinema abriu meus horizontes e me vi apaixonada por mais essa profissão!”, conta a jovem. Robson Gomes Pedro, do Mato Grosso, também encontrou seu caminho na sétima arte e promete levar adiante o sonho de se especializar em alguma vertente do audiovisual. “Aprendemos muito e ainda temos muito o que aprender. Nunca pensei em vir ao Rio fazer audiovisual. Nunca tinha andando de avião e foi tudo muito especial! Pretendo continuar seguindo nessa profissão. Quero muito ajudar minha comunidade”, revela Robson.

Para Luis Lomenha, fundador do Cinema Nosso, o saldo foi mais que positivo. “Há 10 anos eu acompanho o Desafio 100 x 100 na Bolívia. Neste ano, pela primeira vez, conseguimos fazer no Brasil, resultado dessa relação com o Fenavid. Estou muito feliz e satisfeito. Pretendemos manter o projeto no Cinema Nosso”, conta Luis.

 Seminário Brasil 3.0 e Mostra Brasil 3.0
No dia 18 de março, os presentes puderam participar do Seminário Brasil 3.0, que teve início às 9h e encerramento às 18h. Foram quatro mesas de debates que tinham como tema central ‘tecnologias’ e ‘socioambientalismo’. O grupo Lata Doida fechou a noite apresentando um show consciente, repleto de instrumentos de precursão criados a partir de latas. Já no dia 19 foram exibidos, no Cinema Nosso, os três filmes produzidos pelos jovens nessa maratona de 100 horas.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui