Lucianno Maza dirige companhia portuguesa em espetáculo inédito

Carne Viva (foto: Leonardo Silva)
Carne Viva (foto: Leonardo Silva)

O espetáculo “Carne Viva” que se apresenta nesta quarta-feira, dia 26 de Agosto, no Festival Internacional de Teatro de Setúbal – XVII Festa do Teatro, marca o estreia internacional do dramaturgo e diretor brasileiro Lucianno Maza, após 15 anos de carreira no Rio de Janeiro e São Paulo. O artista passou os últimos dois meses na bela cidade de Setúbal, a 40 minutos da capital Lisboa, criando a montagem a convite da companhia portuguesa Teatro Estúdio Fontenova que em 2015 além de realizar a 17a edição do festival, comemora seus 30 anos.

Sobre a dramaturgia
“Carne Viva” conta a história de Uma Mulher: figura destituída de nome ou características especiais, cuja identidade de gênero – sua condição feminina – é o que lhe determina. Esposa dedicada, ela sempre está preparando algo para saciar a fome de seu marido, enquanto dentro de si acontece uma ebulição de pensamentos e sentimentos. Esta personagem, comum do cotidiano, ganha ares espetaculares ao entrar em transe espiritual e carnal, onde ela própria se crê Jesus Cristo – aquele cuja carne foi cortada violentamente e que o corpo “comemos” a cada eucaristia. Misturando o sagrado da narrativa cristã ao profano do drama doméstico, o texto discute de forma arquetípica o lugar da mulher dentro de uma sociedade patriarcal, representada por um Deus masculino.

Escrita há doze anos por Lucianno Maza como um monólogo, a obra chegará pela primeira vez aos palcos em um formato inesperado. Reconstruída dramaturgicamente, sem alterar nenhuma fala da versão original, o autor e diretor criou três espectros da personagem com trajetórias próprias, colocando em cena o trio Graziela Dias, Eduardo Dias e Sofia Crispim Rosado, além da voz em off da premiada atriz brasileira Juliana Galdino (da companhia Club Noirde São Paulo).

A proposta dessa ampliação do número de vozes foi salientar que a personagem representa em si várias outras mulheres, por isso a presença de uma atriz madura, outra jovem, uma estrangeira (falando em Português do Brasil e também em Aramaico) e um ator, evocando a identidade de gênero trans feminina ao lado da cisgênero (de mulheres biologicamente designadas). Visando ter a cumplicidade acerca deste tema ao qual procurou tratar com grande respeito em sua ficção, o diretor convidou Júlia Mendes Pereira, primeira mulher trans candidata à deputada em Portugal, a assistir um ensaio e compartilhar suas experiências e impressões, recebendo um retorno muito positivo.

Sobre a encenação
A encenação de “Carne Viva”, dirigida por Lucianno Maza com a assistência e iluminação de José Maria Dias (diretor artístico da companhia), possui grande rigor estético, com imagens muito pontuadas e toda a movimentação desenhada de forma geométrica. Apenas três cores fazem parte da paleta do espetáculo: o preto, o branco e o vermelho, como pode ser notado no cenário criado pelo próprio diretor em parceria com Ricardo Guerreiro Campos, com uma enorme mesa de madeira com o tampo de espelho d’água preenchido com sangue cenográfico.

Completam a equipe criativa os artistas Bruno Moraes (trilha-sonora original), Sara Rodrigues (figurino), Gertrudes Felix (execução de figurino), Leonardo Silva (fotografia, vídeo e operação técnica), Fernando Carvalho (design gráfico), Patrícia Paixão (apoio linguístico e produção), Sara Costa (produção),Raphael Henry (visagismo) e Luísa Mendão (hair stylist).

“Carne Viva” realiza sua estreia no Festival Internacional de Teatro de Setúbal, cidade-sede da companhia Teatro Estúdio Fontenova, e na sequência inicia turnê em diferentes cidades de Portugal, retornando à Setúbal em Novembro deste ano para reestreia em série de apresentações. Em 2016 o espetáculo será apresentado no Brasil, possivelmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Lucianno Maza (foto: Guilherme Silva)
Lucianno Maza (foto: Guilherme Silva)

Sobre Lucianno Maza
Lucianno Maza nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, e tem dividido sua carreira entre a cidade natal e São Paulo. Escreveu mais de 15 textos, entre eles “Três T3mpos”, “Restos”, “A Memória dos Meninos” e “Até o Sol Nascer”. Parte de sua dramaturgia foi publicada pela editora Imprensa Oficial na Coleção Primeiras Obras (organizada por Ivam Cabral), a qual foi indicada ao Prêmio Jabuti de Literatura. Como diretor, se dedicou a encenar peças de sua autoria e de outros autores como Gabriela Mellão (“A História Dela” e “Parasita”), Zen Salles (“1,26” e “Agridoce”) e Fernando Ceylão (“Quarto do Nada”). Também dirigiu leituras dramatizadas de Alcides Nogueira, Caesar Moura, Dionisio Neto, Walcyr Carrasco, Paul Zindel, Samuel Beckett, Sarah Kane e Rainer Werner Fassbinder, entre outros. Paralelamente a criação, desenvolve pesquisa téorica e trabalha como crítico e curador, funções que o levou aos principais festivais de teatro do Brasil e a colaborar com diversas instituições culturais públicas e privadas. A encenação de “Carne Viva” é o primeiro trabalho do artista criado no exterior.

Em Portugal, além de preparar a encenação, Lucianno Maza lançou o livro “Teatro” (Chiado Editora; Eur 12,00) reunindo cinco peças de sua autoria, com prefácio de Alcides Nogueira, apresentação de Roberto Alvim e citação de José Teotônio Sobrinho. O evento de lançamento ocorreu no último sábado, dia 22 de Agosto, no pátio da Casa da Cultura de Setúbal, reunindo artistas, políticos e espectadores que, além de ter seus exemplares autografados pelo autor, apreciaram a fala da pesquisadora portuguesa Luísa Monteiro sobre a obra e a leitura encenada de um trecho do livro com direção de Paulo Lage e atuação de Cátia Terrinca e Guilherme Barroso.

Sobre Teatro Estúdio Fontenova
O Teatro Estúdio Fontenova, sediado na cidade de Setúbal, Portugal, iniciou sua trajetória em 1985 e tem direção artística do encenador José Maria Dias. Ao longo de seus 30 anos, o grupo encenou mais de 55 espetáculos, com textos de autores clássicos e contemporâneos como Gil Vicente, Anton Tchekhov,Fernando Augusto, Bernard-Marie Koltès, Arnold Wesker, Edward Bond, Slawomir Mrozek, José Sanchis Sinisterra, Fernando Pessoa e Natália Correia. A companhia também realiza continuamente projetos e eventos de formação e difusão com destaque para o Festival Internacional de Teatro de Setúbal – Festa do Teatro, que em 2015 chega à décima sétima edição.

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