Liniker: “Não sou uma personagem”

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Seis meses após lançar o EP ‘Cru’ nas plataformas digitais, Liniker colhe os frutos do seu trabalho. “Não é um privilégio. Não sou um ‘sortudo’. Teve muito suor e ralação para chegar até aqui”, afirma.

Transgressor. É assim que o cantor de Araraquara, interior de São Paulo, se vê. Com apenas 20 anos, Liniker viu seu mundo virar de cabeça para baixo ao estourar com a faixa ‘Zero’ no YouTube. Recheada de soul e groove, a música, com 2mi de visualizações, explodiu nas redes sociais e fez um alvoroço na vida do artista – e da banda. Ele faz questão de enfatizar: “Não estou sozinho nessa. Somos ‘Liniker e os Caramelows’”, se referindo ao grupo que é composto de duas backing vocals, uma guitarra bem funkeada, um baixo, um trompete e uma bateria swingada.

Há quem pense que ele é uma personagem. Não, ele não é. Foram as aulas de teatro que fizeram Liniker conhecer o palco e fazer do lugar um espaço cênico. Quando está ali, é tudo pela arte. É o seu trabalho. “É performático? É. Mas, sou eu ali. Não sou uma personagem. Ando nas ruas assim como no palco”, garante. Batom? Brinco? E por que não? “Só não estou usando agora porque estou básico, como se estivesse em casa”, brinca ele durante a passagem de som para o show no Teatro SESC, no Rio de Janeiro.

A arte veio de berço. Com família de músicos, Liniker – o nome de batismo do cantor, inspirado no jogador de futebol inglês Gary Lineker – teve em casa suas primeiras referencias. “Se meu tio, que é sambista, pode fazer música, eu também posso”, pensava quando mais novo. Os ídolos são muitos. Vão de Etta James ao Trio Mocotó. “Cantores como Gal Costa, Caetano, Beyoncé foram essenciais na minha descoberta como artista”, diz.

Empoderamento

Essa é sua bandeira. Em todos os seus shows, o cantor faz questão de tocar no assunto. Ele garante que é necessário debater sobre representatividade para os jovens, que são maioria nos seus eventos. “Só cheguei aqui porque alguém me empoderou primeiro”, reconhece. Liniker afirma que tanto o movimento negro quanto o gay já vem acontecendo há tempos e se vê como resultado dele. “Eu sou um reflexo dessa roda, desse agito todo. Longe de mim achar que sou pioneiro, se há cem anos Madame Satã já tombava por aqui”, confessa.

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Amor

Letras como ‘Tua’, ‘Zero’ e ‘Remonta’ contam histórias de descobertas e desilusões amorosas. “Não queria que fosse, mas é tudo real. Sou canceriano assumido, sofredor, amo demais. Me relaciono com as pessoas de forma visceral”, conta. Ele, que sempre viu na arte uma maneira de reverter a situação e se livrar das mágoas, descobriu no violão um lugar de apoio. “Encontrei na música a chave para ressignificar essas minhas desilusões”. Deu certo. O artista, que também escreve poesias, transforma os seus lamentos em composições. A faixa ‘Caeu’ é exemplo disso. Segundo o cantor, o primeiro álbum, que sai no segundo semestre de 2016 é oriundo dessas dores e amores. “O disco Remonta, para mim, é um parto por isso. É como se fosse um filho que foi gerado dos meus dramas. Estou parindo”, diz.

O show

Descalço, Liniker se diverte ousadamente no palco, interagindo sempre com a banda e o público. A voz rouca, seca e exótica preenche todo o teatro. Ele canta e dança em todas as músicas. Fôlego não falta. Ao cantar ‘Sem nome, mas com endereço’, arranca suspiros do público. É até possível ouvir um “ai, ai” apaixonado. Em outros momentos afronta a plateia: “Vocês não vão ficar sentados, né? Podem levantando. Dancem comigo”. Todo mundo obedece, é claro. ‘Zero’ é a música mais esperada. Cantam em coro. Ele desce do palco e a canta no chão do auditório. Haja emoção! No fim, depois de longos aplausos e muitos gritos de amor, Liniker encerra o show de 1h20. “Viva a música preta brasileira e todas as misturas”.