“Há Vagas para moças de fino tratro”, de Alcione Araújo, no Sesc Tijuca

foto: Francisco Costa
foto: Francisco Costa

Dirigido por Bernardo Lorga, trabalho marca início da jovem companhia Almerinda

Encenação coloca o espectador como um vizinho voyeur, fazendo um paralelo com a forma como o texto foi escrito

Escrito em 1972 pelo jovem dramaturgo Alcione Araújo (que viria a ser um dos grandes nomes do teatro brasileiro), “Há vagas para moças de fino trato” foi criado a partir de um voyeurismo. Alcione morava em um apartamento em Copacabana e, observando a vizinhança, se ateve à uma janela em específico. Lá moravam três moças. A partir do acompanhamento do dia a dia delas, Alcione criou seu primeiro texto, centrado na questão feminina e entrelaçado com outros temas como a solidão e a cidade, tudo isso recheado de alegorias e metáforas, necessárias para fugir da censura que imperava na época. Em tempos de muita luta contra uma sociedade machista e patriarcal, a peça mostra que a discussão da opressão sofrida pela mulher – seja no papel da mulher abandonada pelo marido, seja no julgamento sofrido por uma mulher de vida mais desregrada, seja na imposição de regras castradoras – é antiga e continua urgente.

Interessado na temática e nas possibilidades que o texto oferecia, o diretor Bernardo Lorga (que também faz parte da companhia Miúda) propõe uma encenação onde o publico faz o papel de Alcione, na época da feitura do texto. O publico é posicionado em diferentes lugares em relação à cena, que é delimitada por cortinas, colocando-o como um vizinho daquele apartamento onde três mulheres muito diferentes dividem histórias e angústias. A intenção é colocar os espectadores como voyeurs daquele apartamento, onde cada um tenha uma observação da encenação e do cenário.

foto: Francisco Costa
foto: Francisco Costa

As três personagens representam figuras distintas. Gertrudes (Marília Nunes), a solitária, Lúcia (Elisa Ottoni), a sonhadora e Madalena (Cacá Ottoni), a sensual, encapam uma relação onde diferentes formas de encarar a vida e o futuro colidem. A peça se passa toda no pequeno apartamento de Gertrudes, uma mulher amargurada que, depois de abandonada pelo marido, começa a alugar vagas em sua residência. Autoritária e rígida, Gertrudes busca nos afazeres domésticos a fuga para suas frustações. Lúcia é frágil e se coloca submissa em relação ao mundo, não sai de casa e fantasia uma doença inexistente, alimentada por Gertrudes, que a trata como a filha que não teve. Lúcia é o oposto de Madalena, mulher de personalidade forte. Enfermeira de dia, ocupa suas noites na farra, bebendo e se relacionando com muitos homens.  Madalena é a conxão das três com o mundo exterior.

Além da elogiada atuação de Marília Nunes no papel de Gertrudes, a peça marca a primeira oportunidade onde as irmãs Cacá e Elisa Ottoni contracenam juntas. Cacá que além de ter feito diversas peças de teatro e atuado em cinco curta-metragens e, recentemente, no longa “Canastra Suja” de Caio Soh (2016), ao lado de nomes como Adriana Esteves e Marco Ricca, também ficou conhecida pela personagem “Morgana” na temporada 2012 de “Malhação” (Rede Globo). Além disso, na televisão, fez a personagem “Jussara” na primeira série nacional da Sony “Santo Forte”, exibida na AXN (2015) e a personagem “Carolina” na primeira série brasileira da Netflix, “3%” (2016). Atualmente, está gravando “Mamonas Assassinas – A Série” escrita por Carlos Lombardi.

Cacá, Elisa e o diretor Bernardo Lorga, juntos com mais dois artistas formam a Cia Almerinda. Os integrantes são todos amigos de longa data, tendo se conhecido na cidade de Friburgo, onde cresceram. Seguiram caminhos parecidos, vindo para o Rio de Janeiro estudar teatro em instituições como UniRio e UFRJ. Formam agora, depois de alguns anos de estrada e muitos trabalhos no currículo, a Companhia Almerinda.

SERVIÇO
Sesc Tijuca – Teatro II
Temporada: 10 a 26 de Junho (Sextas, sábados e domingos
Horário: 19h
Ingresso: R$ 8,00 / R$ 4,00 (meia) / R$2 (assoc.Sesc)
Duração: 60 min
Classificação etária: 16 anos

FICHA TÉCNICA
Direção: Bernardo Lorga
Elenco: Cacá Ottoni, Elisa Ottoni, Marília Nunes
Cenário: Gabriella Alves
Figurinos: Alice Cruz
Direção Musical: Rafael Lorga
Designer Gráfico: João Miller
Fotos de Divulgação: Francisco Costa
Vídeos de Divulgação: Pedro Capello
Produção: Julia Pimenta

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui