Foram necessários quarenta anos para o funk chegar ao teatro e três anos em cartaz para chegar à Zona Sul do Rio. Depois de levar aos subúrbios e guetos a expressão cultural do orgulho de ser funkeiro, a peça agora pousa no território das elites para mostrar a beleza e riqueza desse gênero musical. Desmistificando estereótipos, vai provar que todo mundo tem um pé no funk. O espetáculo será apresentado no Teatro Ipanema, todas as quintas-feiras de junho e julho, sempre às 20h30, com ingressos a R$ 30.

Com mais de 100 apresentações em seu currículo, o projeto teatral inédito com essa temática estreou em 2012 no Teatro Miguel Falabella, na Zona Norte. Desde então, percorreu diversos locais como os consagrados teatros João Caetano e Carlos Gomes, no Centro, além de outras cidades do Rio de Janeiro. Fora do estado, passou por São Paulo, Goiás e Espírito Santo e ao todo é vencedor de cinco prêmios: Prêmio Montagem Cênica Petrobras 2012, Prêmio Funarte Myriam Muniz 2013, SESI Cultural 2014, iniciativas artísticas ligadas ao funk do Governo do Estado do Rio de Janeiro 2014 e Pitching Favela Criativa 2015.

Em cena, traz a história do pancadão e de personagens como Big Boy, Claudinho e Buchecha, Hermano Vianna, DJ Marlboro, Latino, Gerson King Combo, Tati Quebra-Barraco e Valesca Popozuda, num panorama completo desde a década de 70 até os dias atuais. Ao longo de sua trajetória, este inédito musical tem conquistado o apoio dos integrantes do funk, como DJ Marlboro, MC Leonardo, MC Júnior, Tati Quebra-Barraco, Grandmaster Raphael, Rômulo Costa, MC Sabrina e tantos outros – que destacam a importância de trazer ao público os detalhes dessa história musical. Só assim para deixar para trás o preconceito que ainda assola o gênero e reativar a cena de bailes, cada vez mais escassa.

“O funk hoje sofre a maior perseguição de seus 40 anos. De todos os bailes citados na peça, nenhum está funcionando”, denuncia MC Leonardo. “O preconceito não é com o funk como gênero musical. É contra as pessoas que produzissem essa música. Se a favela produzisse valsa, o preconceito seria com a valsa”, analisa o deputado Marcelo Freixo, autor da lei que legitima o funk como cultura. Fernanda Abreu completa: “É preciso vir um branco de classe média para legitimar a manifestação da favela. Meu papel foi esse, a branca que chegou para dizer que aquilo é bacana, assim como Chico Buarque fez com o samba”, diz a cantora.

O ESPETÁCULO
Baseado no livro “Batidão – Uma História do Funk”, de Silvio Essinger, “Funk Brasil – 40 anos de Baile” desafia o público a permanecer sentado enquanto, no palco, seis atores revivem esta expressão enérgica e polêmica da cultura nacional. Com idealização de Pedro Monteiro e direção de Joana Lebreiro (dos musicais “Meu Caro Amigo” e “Aquarelas do Ary” e dos infantis “Coisas que a Gente Não Vê” e o premiado “Bisa Bia, Bisa Bel”), a peça começa no Baile da Pesada, anos 70, Canecão, no soul de Big Boy, Dom Filó e Gerson King Combo. Mas é quando Hermano Vianna presenteia DJ Marlboro com uma bateria eletrônica que o gênero se transforma para sempre. Depois, Latino, Claudinho & Buchecha e o “Rap da Felicidade” tomam o Brasil, de Norte a Sul, das crianças às vovós, e o país chora a perda de Claudinho. Entre a comoção e o riso, a dança e o canto, estes seis atores desdobram-se entre 64 músicas e personagens como Rômulo Costa, Caetano Veloso, Tati Quebra-Barraco e Valesca Popozuda.

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ATORES DA PERIFERIA
Por ter surgido na periferia, nada mais natural que a primeira temporada desta peça-baile ocorresse em teatro situado no subúrbio. Cerca de cinco mil moradores de diversas comunidades pacificadas assistiram à chegada do funk pela primeira vez ao teatro. Dentre os atores, Dérik Machado, do morro do Chapéu Mangueira/ Babilônia, foi escolhido para integrar o elenco após vencer seleção realizada nas comunidades. Além das temporadas regulares, duas apresentações gratuitas na Arena Carioca Dicró, na Penha, foram destinadas aos moradores dos Complexos do Alemão e da Penha. Todas as ações foram realizadas graças ao apoio do Programa UPP Social.

Para Hermano Vianna, antropólogo, autor de “O mundo funk carioca” e personagem do musical, “apesar de todas as alegrias que já deu para a cidade, o Brasil e o mundo, o funk carioca ainda vive basicamente isolado no mundo dos bailes. Que bom que agora a história desse estilo musical é celebrada também no teatro. O melhor da cultura do Rio tem sido resultado da colaboração entre várias artes. Sempre foi assim e assim será: a mistura inventa aquilo que temos de mais original e enriquece todo nosso panorama artístico. Com ‘Funk Brasil – 40 anos de Baile’, o funk sai ganhando e o teatro também”.

40 ANOS DE FUNK
No início da década de 70, surge, no Rio de Janeiro, o Baile da Pesada, comandado pelo lendário disc-jockey Big Boy. Era apenas o início de uma trajetória ainda baseada nas influências da música negra americana e na valorização da autoestima black sob a filosofia “Black is Beautiful”, uma revolução de costumes e contestação social. Abalado pelo sucesso da disco, o funk ressurge incorporando a bateria eletrônica, os talentos das próprias comunidades e as primeiras letras em português. Com o sucesso de mídia, por meio de nomes como Claudinho & Buchecha, DJ Marlboro e Tati Quebra-Barraco, o gênero deixa o gueto e passa a atrair também as classes média e alta do Rio de Janeiro e, logo, também o resto do Brasil e do mundo. O fenômeno de massa passa a ser alvo também da observação de estudiosos, como Hermano Vianna e Macael Herschmann, ou de nomes da música como Fernanda Abreu, Caetano Veloso, Lulu Santos e Roberto Carlos. Não importa cor, opção sexual, classe ou nacionalidade, o “batidão” hoje é amado por todos porque funk é ritmo, diversão, movimento, funk é espontâneo, é quadril, alegria, brasilidade, funk é “apenas” música, que quando toca ninguém fica parado.

SINOPSE
Em uma inédita “peça-baile”, seis funkeiros cantam, dançam e contam a história e os sucessos do funk carioca, desde a febre do soul, nos anos 70, até os dias de hoje. Em cena, Valesca, Tati Quebra-Barraco, DJ Marlboro, Claudinho & Buchecha, Gerson King Combo, D´Eddy, Latino, William & Duda, Big Boy, Cidinho & Doca, Hermano Vianna e muitos outros.

FICHA TÉCNICA
Idealização: Pedro Monteiro
Baseado no livro “Batidão – Uma História do Funk”, de Silvio Essinger
Texto: João Bernardo Caldeira e Pedro Monteiro
Direção artística: Joana Lebreiro
Elenco: Alex Gomes, Dérik Machado, Luiza Mayall, Marcelo Cavalcanti,
Marcelo Dias, Michelly Campos e Pedro Monteiro
Direção musical: Marcelo Rezende
Pesquisa musical anos 70: Leandro Petersen
Direção de movimento: Nathália Mello
Iluminação: Djalma Amaral
Figurino: Espetacular! Produções e Artes (Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo)
Cenário: Marieta Spada
Assistente de cenografia: Ana Machado
Ilustração de cenário: Coletivo M2FY
Preparação vocal: Pedro Lima
Caracterização: Fernanda Santoro
Design gráfico: Gemmal
Fotografia: Andrea Rocha – ZBR
Assistente de Figurino: Renata Lamenza
Assistente de direção: Vivi Oliveira
Operação de luz: Paulo Ignácio
Operação de som: Luanna Pinheiro
Direção de produção e produção executiva: Gabriela Imelk
Realização: Pedro Monteiro
Apoio institucional: Programa UPP Social, da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Montado com recursos do Prêmio Montagem Cênica 2011, patrocinado pela Petrobras

SERVIÇO

Funk Brasil – 40 anos de Baile
Temporada: de 4 de junho a 30 de julho, todas as quintas-feiras, às 20h30
Local: Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema. Telefone.: 2267-3750
Ingressos: R$ 30 (inteira) / R$ 15 (meia)

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