Feminismo de volta à cena

Após duas apresentações com lotação esgotada, Primavera das Mulheres volta ao Teatro Solar de Botafogo amanhã (23/2) e 1º/3. O show-protesto é encenado por 25 artistas engajadas na luta pelos direitos das mulheres

De um sonho da atriz Laura Castro nasceu um toque de despertar, algo que abrisse os olhos da sociedade para as várias questões que as mulheres sofrem no dia a dia. E foi entre crianças correndo e bebês mamando que o evento “Primavera das Mulheres: um show – manifesto” virou realidade. Nas duas primeiras apresentações, que aconteceram no início deste mês, os ingressos esgotaram uma semana antes. As próximas “primaveras” acontecem nos próximos dias 23/2 e 1º/3, no Solar de Botafogo, às 21h. A ideia é botar a boca no trombone, mesmo que o trombone dê lugar a flautas, violões, pandeiros e atabaques.

“Eu estava dormindo sem conseguir dormir direito, tensa com as manobras de Cunha, emocionada com a mulherada nas ruas, aflita com todos os nossos primeiros assédios… e sonhei que estava no palco, cheia de mulheres a minha volta e que fazíamos um show político e feminista. Acordei em um pulo e na mesma hora entendi onde estavam essas mulheres. Eram mães, em sua grande maioria, de um coletivo cheio de gente engajada na maternidade como um ato político”, diz Laura, diretora do show.

O espetáculo vem à cena após um 2015 marcado por um cenário de crise política e de crescimento de opiniões reacionárias que ameaçam a conquista dos direitos das mulheres. O projeto teve seu embrião durante as manifestações ocorridas em novembro do ano passado contra as propostas de emendas apresentadas na Câmara dos Deputados – sob a batuta do polêmico Eduardo Cunha – que, entre outros absurdos, dificultavam o atendimento e acolhimento às vítimas de violência sexual.

Através da força da internet e das redes sociais, grupos de mulheres se uniram para essa luta e um dos mais representativos foi o coletivo Saaanta Mãe, que além de falar sobre parto, amamentação, criação e educação, também se aproxima de aspectos da política e da sociedade, debatendo temas como o racismo e o machismo histórico. Originalmente formado por um grupo de oito mães do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, hoje, o “Saaanta Mãe” congrega quase 2 mil mulheres no Brasil e no exterior. Participantes que, em comum, enxergam e vivenciam a maternidade de modo mais amplo e socialmente responsável.

Em 1964, ano do golpe militar, o show Opinião estreava impulsionando a classe artística ao engajamento político, que logo marcaria nossa história por meio da música e de outras artes. Agora, em 2016, o espetáculo “Primavera das Mulheres: um show – manifesto” chama a atenção do público para a defesa dos direitos já alcançados pelas mulheres e invoca à mobilização através de palavras de ordem já entoadas nas manifestações. Assim, o roteiro é conduzido por questões fundamentais para a evolução da sociedade, como o combate ao preconceito e à violência de gênero.

Em formato de show-protesto, artistas mulheres interpretam composições inéditas de Diana Nascimento, Elisa Addor, Laura Castro e Manuela Trindade. Outras compositoras que fizeram história se juntam ao repertório, como: Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran, Adriana Calcanhotto, Isolda, Dona Ivone Lara, Zélia Duncan, Anastácia e Joyce. O evento acontece no próximo dia 28, às 21h, no Solar de Botafogo e a direção musical é de Cristina Bhering e Diana Nascimento.

Para Laura Castro, esse é um espetáculo essencialmente feminista, por isso, o repertório traz – em cena e nos bastidores – apenas mulheres. O coletivo de mães traz de volta aos palcos do Rio um show de vozes feministas inspiradas na militância da década de 70.

 “O show ganha forma em momento sócio-político delicado, mas que, para nós, mulheres, é a oportunidade de uma nova revolução em que as mulheres já ocuparam espaço com suas palavras nas redes sociais e com suas crias nas ruas e agora vamos ocupar o palco”, explica ela.

O elenco é composto por 25 mães artistas, entre cantoras, musicistas, roteiristas e atrizes, que já se reúnem regularmente no Saaanta Mãe. No roteiro, o espetáculo conta ainda com textos marcantes de Bárbara Lito, Maria Ana Dias, da peruana Victoria Santa Cruz e de autoras do universo infantil Lygia Bojunga Nunes e Ruth Rocha, que abordam a violência de gênero e de cor. O cenário ousado é criação da arquiteta Lígia Tammela.

 “A luta é longa e, neste momento, as conquistas já realizadas incomodam. Querem calar a grande maioria que forma esse encontro de minorias. Mas é um momento muito potente. É o momento de gritar e cantar para que, no lugar de qualquer retrocesso, essas conquistas criem raízes e cresçam, se multipliquem”, convida Laura. 

Sobre a idealizadora Laura Castro
É atriz, cantora, roteirista, produtora cultural e mãe. De 3. Desde o nascimento de seus filhos que sua produção se tornou engajada nas lutas pelos direitos das chamadas “minorias”. Seu trabalho recente de maior relevância foi o espetáculo “Aos Nossos Filhos”, onde assina a dramaturgia (indicada ao Prêmio APCA) e atua ao lado da atriz internacional, Maria de Medeiros. O texto, sobre as famílias homoafetivas, tem inspiração em sua história de vida. Laura adaptou o mesmo para o cinema, com supervisão de Cacá Diegues. A filmagem está prevista para novembro deste ano, com Marieta Severo como protagonista. Como cantora, Laura participou recentemente da turnê de “Pássaros Eternos”, disco autoral de Maria de Medeiros, em Madrid, Córdoba, Rio de Janeiro e São Paulo.

SERVIÇO:

“Primavera das Mulheres”
23/2 e 1º/3 (terças-feiras)
Local: Solar de Botafogo (Rua General Polidoro, 180, Botafogo)
Horário: 21h
Lotação: 180 lugares
Classificação Indicativa: 14 anos
Ingresso: R$ 40 inteira/R$ 20 meia e R$ 30 lista amiga

FICHA TÉCNICA:
Direção e Roteiro: Laura Castro
Direção Musical: Cristina Bhering e Diana Nascimento
Direção de Produção: Ana Pimentel
Produção executiva: Priscila Continentino
Cenário: Lígia Tammela (com colaboração de obras de Mariana Guimarães)
Figurino: Sofia Benjamim
Iluminação: Thatielly Pereira
Vídeo:  Luiza Pimenta, Maria Flor Brazil e Milena Sá
Fotografia: Bel Junqueira e Layana Losse
Assessoria de Imprensa: Mariana Claudino e Mariana Müller Samor
Programação Visual: Andrea Batitucci
Captação de som direto: Marina d´Ávila
Cabelo: Gabriela Azevedo (Trança Terapia)
Colaboradoras no roteiro: Barbara Lito, Gabriela Bhering, Natália Sambrini e Maria Ana Dias

Em cena:
Voz: Cristina Bhering, Elisa Addor, Glauce Pimenta Rosa, Ilessi, Laura Castro e Luciana Jablonski
Piano e violão: Cristina Bhering
Cavaquinho e Percussão: Diana Nascimento
Violão e Cavaquinho: Manuela Marinho
Baixo: Luciana Requião
Percussão: Marina Chuva
Sopro: Maria Souto
Atrizes: Marta Nobrega, Frida Renfro e Sofia Benjamim
Contação de História: Mariana Müller Samor
Coro: Gabriela Bhering, Mariana Claudino, Maria Ana Dias, Maria Rita Taunay, Marta Nobrega, Sofia Benjamim e Tatiana Mafra
Dança: Glauce Pimenta Rosa
Participação especial: Aline Valentim, Bárbara Aires e Oliver Costa

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