Cinquenta e um anos após seu lançamento, Quarup – obra prima de Antonio Callado e marco da literatura brasileira – está mais atual do que nunca. Afinal, a realidade vivida à época em que o romance foi escrito parece ter os mesmos contornos: os povos indígenas continuam vítimas do preconceito e do descaso e estão sendo dizimados de nossa cultura em nome de interesses questionáveis. Com a proposta de trazer à baila essa discussão e iniciar os festejos do centenário do romancista, jornalista, biógrafo e teatrólogo, em janeiro de 2017, a Galeria Arte e Literatura, da Biblioteca Estação Leitura, localizada na estação Central do MetrôRio, inaugura no dia 26 de julho, às 10h30m, a exposição QUARUP baseada no romance homônimo de Antonio Callado. A exposição QUARUP integra o Circuito Cultural Rio, idealizado pela Secretaria Municipal de Cultura e pela Prefeitura do Rio, para a programação cultural dos períodos Olímpico e Paralímpico, que vai de maio a setembro de 2016.

Concebida pelo Instituto Oldemburg, a exposição QUARUP faz parte do projeto Vivências Lúdico-Literárias, tem o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura por meio do Programa de Fomento à Cultura Carioca e o apoio do MetrôRio e Instituto Invepar. A mostra reunirá 10 painéis com nove fotos do Museu do Índio e uma feita especialmente pela fotógrafa Cristina Oldemburg. As 10 imagens serão dispostas ao longo da galeria e estão associadas a fragmentos literários do livro.

 “— …Como é que você se machucou assim?”

 “— Se machucou, não senhor. Me machucaram. Tiro, Nando. Bala de rifle. O Brasil se civiliza.” (Pág 9)

QUARUP, Antonio Callado

Na visão de Cristina Oldemburg, a exposição QUARUP é “uma homenagem aos índios vivos, à riqueza de seus conhecimentos e de sua cultura, e também à maneira sábia como eles vivem em integração e harmonia com a natureza”. Ela ressalta a importância desses povos para a permanência de nossa cultura mais genuína. “O Brasil agonizante insiste em não acreditar que o desenvolvimento sustentável está contido na sabedoria dos nossos povos indígenas, uma sabedoria milenar, baseada no respeito à natureza e no equilíbrio entre os seres vivos”.

QUARUP poderá ser vista de 26 de julho a 26 de setembro e durante sua permanência o público visitante poderá assistir e participar de atividades coordenadas do Projeto Vivências Lúdico-Literárias, Oficinas de Arte-Educação para crianças e jovens e também voltadas para instituições educacionais e sociais. Os participantes das atividades receberão um exemplar do livro Kuarup – A festa dos mortos, do autor Jô Oliveira, numa adaptação para colorir. Cada escola e instituição visitante receberá um exemplar do Quarup de Antonio Callado para a sua biblioteca.

Ao unir artes plásticas e literatura, a exposição QUARUP amplia seu leque de ação e tem como um de seus principais objetivos atrair novos leitores para a Biblioteca Estação Leitura, espaço público montado dentro da Estação Central do MetrôRio pelo Instituto Oldemburg. Além de conhecer melhor a obra de Antonio Callado e entrar em contato com a realidade indígena, o visitante poderá fazer empréstimos de livros do autor e ter acesso no local a outros títulos cedidos pelo Museu do Índio. No dia da abertura da exposição um grupo de 30 alunos do Centro Cultural Esportivo do Engenho da Rainha participará da Oficina de Grafismo. 

“A festa do quarup começou com um moitará. Ou seria talvez mais certo dizer o moitará se efetuou antes, durante e depois do quarup e que o trabalho mágico do Maivotsinim começou a borbulhar no seio dos quarups…”

(pág. 223)

Expo Quarup (foto: Goretti Moreira)
Expo Quarup (foto: Goretti Moreira)

Livro de Antonio Callado
Publicado em 1967, Quarup é um romance que transcorre no período que vai da queda final de Getúlio Vargas (1954) ao golpe militar de 1964 e mostra, sob a ótica do jovem padre Nando, a realidade social e política do Brasil desses tumultuados dez anos. Considerado pela crítica uma das obras mais representativas do Brasil após a instauração do Regime Militar, Quarup retrata, através de seu protagonista, a realidade de um país em conflito e de temas diversos, tais como o surgimento dos Sindicatos Rurais no Brasil, o começo dos movimentos populares e discussões sobre a influência estrangeira no país. Assim como outras obras do período, há uma forte crítica ao regime militar vigente. O título foi tirado de um antigo rito dos índios do Xingu em homenagem aos mortos (Kuarup, com K na grafia do rito), uma volta às origens para poder recomeçar uma nova vida. Por meio de um rito de ressureição, celebra-se o eterno ciclo da vida. Assim, o “quarup” do qual o protagonista do livro participa, funciona como um rito de passagem para uma nova vida, tanto do próprio Nando, quanto do Brasil. Quarup é literatura engajada, de denúncia e uma verdadeira aula de história do Brasil.  

Galeria Arte e Literatura, da biblioteca Estação Leitura
Inaugurada em 2014, já recebeu seis exposições sobre autores brasileiros e estrangeiros e coleciona histórias e números. Das exposições – homenageando autores como Shakespeare, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Rubem Braga e José Lins do Rego – a visitação já bate quase 2 mil visitantes, só pelo livro de assinaturas. O grande mérito é transformar os visitantes das mostras na Galeria em novos leitores do acervo da biblioteca, através de suas ações casadas, possibilitando a descoberta dos autores homenageados nas exposições. Há um trabalho de formação de novos leitores. Mérito maior, também, da primeira exposição, sobre Graciliano Ramos, que com dados concretos de números de visitantes e empréstimos na biblioteca de obras do autor virou case e possibilitou o patrocínio da prefeitura do Rio de Janeiro. Entre as histórias curiosas, está a da mostra Flamengo é puro amor – José Lins do Rego, queganhou uma performance do coral do Flamengo no dia da sua abertura. O bardo inglês Shakespeare virou um dos autores mais solicitados na biblioteca até hoje, contrariando qualquer pré-julgamento sobre o gosto literário dos passantes do metrô. A exposição “Rio de Janeiro de Machado de Assis” recebeu um grupo de senhoras que faz parte de um projeto de letramento para pessoas da terceira idade, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. 

Oficina de grafismos indígenas
Coordenada pela arte-educadora Krika Viana, a Oficina tem como objetivo estimular a criatividade dos alunos após visita a exposição. Eles serão convidados a participar da Oficina inspirados pelos grafismos indígenas e principalmente pelos grafismos das pinturas corporais da festa do Kuarup no Xingu. Cada participante, explorando diversas possibilidades de combinações gráficas, poderá criar um padrão de grafismos que será fixado em uma réplica do Quarup (tronco de madeira que dá nome a um ritual indígena, cujo significado para os índios é a despedida dos mortos e encerramento do período de luto). As crianças e jovens poderão usar papel kraft, lápis de cor aquarelável na paleta de cor mais próxima dos pigmentos utilizados pelos indígenas. “O Grafismo dos povos indígenas ultrapassa o desejo da beleza, trata-se, sim, de um código de comunicação complexo, que exprime a concepção que um grupo indígena tem sobre um indivíduo e suas relações com os outros índios, com os espíritos e com o meio onde vive”, diz Krika Viana. 

Serviço:

Exposição: QUARUP 
Local: Galeria Arte e Literatura, anexa à Biblioteca Estação Leitura, na estação Central do MetrôRio
Data: A partir de 26 de julho.
Horário: de segunda a domingo – das 6h as 23h
Entrada franca
Patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura
Apoio MetrôRio e Instituto Invepar 

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