Exposição no BNDES reúne vida e obra de Ferreira Gullar

Mostra em homenagem aos 85 anos de trajetória do múltiplo artista maranhense terá objetos do acervo pessoal, fotografias, poemas e instalações de arte

Ferreira Gullar_Obra da série A Revelação do Avesso - Coleção UQ Editions_Aprazível Edições e Arte (foto: Nana Moraes)
Ferreira Gullar_Obra da série A Revelação do Avesso - Coleção UQ Editions_Aprazível Edições e Arte (foto: Nana Moraes)

Aos 85 anos de idade, Ferreira Gullar poderia muito bem estar apenas administrando sua carreira. Mas o múltiplo artista brasileiro não tem competência para ficar parado. Em seu ateliê, em Copacabana, ele dá palpites, organiza materiais e produz as obras que serão apresentadas numa exposição em sua homenagem, a partir de 11 de maio, na Galeria do BNDES, no Centro do Rio.

Com concepção e realização da Fase 10 Ação Contemporânea e curadoria de Cláudia Ahimsa e Augusto Sérgio Bastos, a exposição traça uma linha cronológica que se inicia no Maranhão e vem até os dias de hoje. Estão reunidos textos, vídeos, livros, objetos, fotografias, pinturas, colagens, letras de canções interpretadas por músicos da MPB e um trabalho inédito, criado em 1959, e nunca apresentado ao público: o Poema Enterrado. Trata-se de uma instalação em madeira, com três metros de altura, por onde o visitante poderá entrar.

Ao ver o projeto publicado em 1959 no Jornal do Brasil, Hélio Oiticica telefonou entusiasmado para Gullar, propondo realizá-lo no quintal da nova casa da família que seu pai estava construindo na Gávea Pequena. Perguntou se estava de acordo, e Gullar disse que sim, mas não tinha certeza de que seu pai fosse da mesma opinião. Não o era, mas Hélio insistiu, caiu doente e o pai se rendeu: admitiu construir o poema no lugar destinado à caixa-d’água. Num domingo, meses depois, todo o estado-maior neoconcreto estava lá para inaugurar o primeiro poema com endereço da literatura mundial. “Sucede que havia chovido muito na véspera e, ao abrirem a porta do poema, verificaram que havia dentro dois palmos d’água e que os cubos flutuavam. Assim, o poema virou caixa-d’água, parecia ser o seu destino”, lembra Gullar.

Ferreira Gullar_Obra da série A Revelação do Avesso - Coleção UQ Editions - Aprazível Edições e Arte (foto: Nana Moraes)
Ferreira Gullar_Obra da série A Revelação do Avesso – Coleção UQ Editions – Aprazível Edições e Arte (foto: Nana Moraes)

A exposição contará, ainda, com uma reprodução do ateliê do poeta, num espaço onde o visitante poderá sentar e ler os livros publicados por ele. Um painel de 37 metros apresentará documentos, fotografias, pensamentos, manifestos e datas importantes, como a publicação de seu primeiro livro (1949), o ingresso no Jornal do Brasil (1956), a idealização do movimento Neoconcreto (1959), a criação do Livro Poema (1959), sua prisão na Ditadura (1968), o exílio para o Chile (1973), a publicação do Poema sujo, um dos principais poemas da língua portuguesa (1976), a posse na Academia Brasileira de Letras (2014) e a nova e atual produção em artes plásticas, com colagens em relevo, realizadas em metal e aço. 

Será apresentado um ensaio inédito realizado pelo fotógrafo Marcelo Magalhães no ateliê do artista e, também, uma entrevista em vídeo, feita especialmente para o projeto, que será exibida em quatro monitores. A mostra será dividida em quatro segmentos: “1930 – 1951| Gullar em São Luís do Maranhão”; “1951 – 1961|Gullar e as experiências de vanguarda”;  “1961 – 1980|Gullar e o engajamento político e social”; “1980 – 2016|Gullar em tempos de reinvenção”. Há imagens impactantes com a família, com o uniforme da escola e ao lado de Vinicius de Moraes e Oscar Niemeyer.

A exposição mostrará um Gullar multifacetado, mas com ênfase no humor, lado pouco explorado nas abordagens feitas sobre o poeta. Nesse sentido, dentre outras, serão reunidas caricaturas de diversos grandes artistas brasileiros. Haverá, ainda, um núcleo dedicado a crianças, uma vez que Gullar possui um segmento de sua obra dedicado a público infanto-juvenil. Áudios de poemas declamados e canções escritas pelo autor, assim como móveis impressos com poemas e livros-objetos também fazem parte do projeto da Fase 10 Ação Contemporânea, que ganhou o primeiro lugar no edital de ocupação da Galeria 2015-2016 do BNDES. “Nosso desafio é expor em poucos metros quadrados uma vida inteira que se desdobra em múltiplas facetas”, resumem os curadores Cláudia Ahimsa e Augusto Sérgio Bastos.

Ferreira Gullar (foto: Marcelo Magalhães)
Ferreira Gullar (foto: Marcelo Magalhães)

Mais sobre Ferreira Gullar
Batizado como José de Ribamar Ferreira, Ferreira Gullar nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930. É poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta. Aos 19 anos, publicou com recursos próprios seu primeiro livro de poesia, Um pouco acima do chão, e dois anos mais tarde mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade em que mora até hoje. Colaborou para jornais e revistas, escreveu peças de teatro, letras de músicas, diversos ensaios e publicou algumas das mais importantes obras da poesia brasileira como o Poema sujo, escrito na década 1970, período em que esteve exilado, e os livros A luta corporal (1954), Dentro da noite veloz (1975), Na vertigem do dia (1980), Barulhos (1987) e Muitas vozes (1999). Em 2010, ganhou o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra. Em 2012, as ilustrações que fez para seu livro Bananas podres deu a Gullar o Prêmio Jabuti, o primeiro que ganhou como ilustrador.

Serviço

Ferreira Gullar
Local: Galeria BNDES
Espaço Cultural BNDES, Av. República do Chile, 100.
Inauguração: 10 de maio, das 18h às 21h
Período: 11 de maio a 1º de julho de 2016
Visitação: de 2ª a 6ª, das 10h às 19h.
Entrada franca

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