O Museu Nacional de Belas Artes inaugura no dia 27 de setembro, as 18h, a exposição Raimundo Cela, um mestre brasileiro, sob a curadoria de Denise Mattar. A mostra, com caráter retrospectivo, reúne 70 obras desde o periodo academico até seus últimos trabalhos na década de 1950, com destaque para imagens do Rio de Janeiro. No primeiro semestre a exposição foi apresentada no Museu de Arte Brasileira da FAAP em São Paulo. No Rio de Janeiro ficará em cartaz até 20 de novembro, com patrocínio da água mineral MINALBA.

Raimundo Cela (1890 |1954) é considerado um pré-modernista pois estudou na ENBA na década de 1910. Em 1917 recebeu o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Belas Artes pela obraÚltimo Diálogo de Sócrates. Por causa da guerra, embarcou somente em 1920 e permaneceu na França por dois anos. Segundo Denise Mattar, o artista é um dos criadores da visualidade cearence:

“Cela descartou a representação do nordestino como o sertanejo miserável e faminto, para mostrar o trabalhador forte e decidido do litoral. Pintou pescadores, jangadeiros e barcos, a intensa luz das praias cearenses e as nuvens rosadas do céu equatorial. Suas composições, minuciosamente construídas, são plenas de ritmo e emoção. Elas reúnem a precisão do engenheiro à sensibilidade do artista, o épico ao cotidiano, a precisão do desenho à energia da cor. A exposição Raimundo Cela – Um Mestre Brasileiro, tem como objetivo apresentar ao público carioca e paulista toda a sua trajetória. A retrospectiva parte de momentos-chave, como o prêmio da Escola Nacional de Belas Artes, a viagem à Europa, o retorno a Camocim, a mudança para Fortaleza e a volta ao Rio de Janeiro. Desenhos, gravuras, aquarelas e pinturas permitem compreender o processo criativo do artista”, explica a curadora.

A exposição reúne obras do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, do Instituto Dragão do Mar, do Palácio da Abolição, do Palácio Iracema, em Fortaleza, e do próprio Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, além de 15 coleções particulares de Fortaleza, Rio e São Paulo. Em contribuição à preservação da memória do artista e de sua obra, o projeto realizou o restauro de quatro obras que serão exibidas ao público pela primeira vez: Rendeira (1931, óleo sobre madeira, 32 x 40,5 cm); Cabeça de vaqueiro (1931, óleo sobre madeira, 38 x 46 cm) e Cabeça de Jangadeiro (1933, óleo sobre madeira, 38 x 46 cm) e  Catequese (Óleo sobre tela 190 x 200 cm).

A mostra abre com desenhos e óleos de seus primeiros trabalhos, marcados pela influência do academicismo, ou seja, obras determinadas pelo perfeito domínio da técnica clássica, na composição de telas figurativas, evocações à Antiguidade Clássica e à paisagem brasileira. Nesse setor, destaca-se, entre outras, o Último diálogo de Sócrates (1917), obra premiada pela Escola Nacional de Belas Artes com uma viagem ao exterior.

Por causa da Primeira Guerra, a viagem acontece apenas em 1920, justamente o princípio dos anos loucos da capital francesa, onde Cela dedica-se aos estudos da gravura em metal, dando uma nova perspectiva à sua obra, não apenas na técnica, como também na temática. Ao longo dos anos em que permanece na Europa, como o público verá na exposição, seus desenhos, óleos e gravuras retratam cenas da paisagem francesa, como na tela Paisagem de Saint-Agrève (1921), e da realidade parisiense e de seus tipos, em estudos de nus e nos desenhos Ferreiro e Funileiro (1921). 

Seus trabalhos despertam atenção da crítica parisiense e ele tem obras selecionadas para o Salon des Artistes Français. Nesse momento o artista sofre um AVC que o impede de pintar. Retornando ao Brasil reside em Camocim e fica sete anos sem pintar. Volta a faze-lo em 1929 e já realizando a temática que será a sua marca.

Na mostra, o público poderá ter acesso a uma visão única do Ceará. Um Ceará da gente do mar, com muita luz, vento, areia e água salgada. Certamente está em seus quadros a melhor tradução dessa paisagem nordestina, como na série Pinturas Brancas, de marinas e paisagens. Cela também foi um caçador de almas e dos tipos cearenses, com destaque para as figuras populares, como pescadores, vaqueiros, rendeiras e os jangadeiros, estes representados em uma série de obras criadas entre 1940 e 1946 que, na mostra, estarão dispostas de modo narrativo, mostrando a sequência de ações que levam a jangada ao mar.

Um dos grandes destaques da exposição, e da obra de Cela, o painel Abolição (1938), estará reproduzido em suas dimensões originais. Primeiro estado brasileiro a abolir a escravatura, em 25 de Março de 1884, o Ceará, terra-natal de Cela, encomenda a ele, em 1938, um painel que simbolize o momento histórico tão marcante para o Ceará e para o Brasil.

Raimundo Cela, um mestre Brasileiro
Curadoria: Denise Mattar
Vernissage: 27 de setembro de 2016 às 18h
Visitação: 28 de setembro a 20 de novembro de 2016

Horário de funcionamento:
Terça a sexta: 10h às 18h; 
Sábados, domingos e feriado:  de 13h às 18h.
Ingressos:   R$ 8,00 inteira, R$ 4,00 meia e ingresso família(para até 4 membros de uma mesma família) a R$ 8,00. 
Grátis aos domingos.

Museu Nacional de Belas Artes – MNBA
Avenida Rio Branco, 199 – Cinelândia  Rio de Janeiro
Tel:  (21) 3299-0600.

www.mnba.gov.br
www.facebook.com/MNBARio

O artista
Raimundo Cela nasceu em 1890, em Sobral, no interior do Ceará, mas cresceu em uma cidade litorânea próxima: Camocim. O artista foi criado em um meio familiar culto. Cela foi para o Rio de Janeiro em 1910 estudar engenharia, desejo de seu pai, e pintura, por ambição própria. Formou-se sob orientação dos maiores mestres do começo do século, tendo contato especial com Eliseu Visconti.

A pintura de Cela inicia-se totalmente acadêmica, tendo ele recebido, em 1917, o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Belas Artes, pela obra clássica “Último Diálogo de Sócrates”.

Por causa da Guerra só viajou em 1920. Permaneceu na França por dois anos, quando dedicou-se ao aprendizado da gravura em metal com Frane Brangwyn, pintor, gravador e litógrafo inglês. Seu trabalho nessa técnica é de excepcional qualidade. Suas gravuras, segundo Adir Botelho, não são apenas registros gráficos, históricos, são obras universais no sentido e na expressão. Foi o pioneiro do ensino da gravura em metal na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, lecionando durante nove anos.

De volta ao Brasil, foi viver em Camocim, onde trabalhou durante dez anos como engenheiro de uma pequena usina elétrica. Em 1938, a pintura de um painel para o governo do Estado representando a libertação dos escravos do Ceará o trouxe de volta à vida artística. Pouco depois, em 1940, estabeleceu-se em Fortaleza. O artista francês Jean Pierre Chabloz o conheceu nessa fase e encantou-se com sua obra.

Raimundo Cela, sendo um moderno, nunca foi um modernista. Ele apareceu justamente naquele momento de nossa história cultural em que as artes iam ser atingidas pelo radicalismo de 1922. Criou-se, então, o mito, que hoje vem sendo revisto pelos estudos sobre o pré-modernismo, de que aconteceu um hiato entre os mestres do século XIX e a Semana de Arte Moderna. Neste período nada teria sido produzido de interessante e criativo. Os que surgiram naquela fase foram mantidos numa espécie de limbo cultural. Mas o valor da arte de Raimundo Cela deve-se ao fato de ter sido concebida à margem das escolas, de não ter sido contaminada pelos modismos passageiros.

Nas palavras de Cláudio Valério Teixeira (artista plástico, restaurador e crítico de arte): “Na obra de Cela nada é inocência, tudo é fruto de planejamento, economia e técnica. Mas tudo é também movimento, força, agilidade e graça. Sua arte não procura simplesmente imitar as coisas representadas, é de uma beleza solene, meio melancólica, mas luminosa”.

O pintor retornou ao Rio de Janeiro em 1945. Tornou-se professor de gravura em metal da Escola Nacional de Belas Artes, cargo que ocuparia até a sua morte, em 1954. Nesta última fase da carreira, Cela foi duas vezes premiado com a medalha de ouro do Salão Nacional de Belas Artes.

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