Espetáculo “Mãe, cheguei bem” traduz em movimento a construção da identidade pela ótica de um estrangeiro

Com 3 performers em cena, obra une dança, artes visuais, literatura e música

Mãe, cheguei bem (Crédito Dinho Moreira)

Memória e construções de identidade sempre foram temas centrais da vida destas jovens artistas. Ceci Gil Mariño, argentina de Buenos Aires, com 33 anos já morou na França, Rio de Janeiro e se entende como uma cidadã do mundo. “Quando você passa tanto tempo fora de casa, isso que chamamos ‘casa’ deixa de ser alguma coisa material para começar ser um território intangível onde moram todas as pessoas que você quer lembrar na sua vida”, conta ela. A partir dessa experiência cotidiana e inspirada pelo ensaio Nord perdu de Nancy Huston, estas artistas de fora do Rio se encontraram para uma criação coletiva. Desta fusão nasce “Mãe, cheguei bem”, uma obra que parte da expressão através do movimento e se une às artes visuais, literatura e música, num resultado multidisciplinar. Como grande diferencial, o espetáculo se constrói a partir da história e material autobiográfico das três artistas em cena, numa construção afetiva e sincera.

A obra parte, objetivamente, da perspectiva do que acontece quando alguém sai do seu lugar de origem e migra para outro. Quais são os elementos que nos definem? O que acontece quando nos distanciamos da nossa cultura de origem, dos progenitores, de toda a genética social e cultural? Não só a percebemos de longe como a carregamos o tempo inteiro, através do olhar de fora. Se o estrangeiro nunca consegue sair totalmente dessa condição de ‘outro’, ele também perde a familiaridade com seu local de berço. Aquele que é – era – familiar para ele, não existe mais. Este lugar, por conseguinte, transpõe sua condição física e não se restringe mais à dimensão espacial. Ele vira temporal.

Numa narrativa em capítulos crono-espaciais, faz uma reflexão sobre o que significa ser de um lugar, estrangeiro, a partir de seu repertório, na procura de referências outras e na construção de uma nova identidade híbrida. Desta forma, o encaixar-adaptar se coloca como uma questão central, sendo trazido para a cena numa metáfora física: se encaixar em caixas como alusão aos encaixes das vida.

A partir do mote autobiográfico, o espetáculo brinca com clichês dos locais de origem e ascendência das artistas – Argentina, França e Alemanha – e desafia o espectador carioca jogando também com clichês e características específicas do Rio de Janeiro. Três artistas de formações e culturas completamente diferentes – uma atriz e dançarina argentina, uma cenógrafa e desenhista paulista e uma dançarina e bibliotecária francesa –, que convergem numa cena que mistura o ficcional, o fantástico com o real. Vídeos, fotos e referências de acervo familiar dão o tom pessoal à obra, que se coloca como um relato desmascarado de histórias vividas. Mas quando e como se sustentam e caem as máscaras?

Num espaço cênico igualmente híbrido, as três artistas dividem, interpenetram e reinventam a utilização do espaço, mesclando momentos de isolamento e fusão não somente entre elas, como entre seus corpos e elementos de cena como projeções. Como elementos base, o papel, em referência às cartas, cartões postais e fotografias impressas enviados antigamente pelos que estavam fora de seu local de origem e o papelão, material de que são feitas as caixas de mudança. Como disparos criativos, esses elementos vão se transformando ao longo da peça, em diálogo com luz e projeções audiovisuais. Compondo a cena, dois músicos interpretam no palco a trilha musical em saxofone e violão.

Neste contexto geral, a obra se apresenta como um ensaio sobre a verdade, na expressão mais orgânica e desnuda das experiências das três artistas. Inevitavelmente, nesse relato fica explícito o desafio que é estar fora de seu local nativo, com todo o desconforto que ele abarca, mas, ao mesmo tempo, presente todo o prazer e riqueza de uma construção de identidade plural e descentralizada.

No traço filosófico de sua narrativa, a obra induz o espectador à percepção da essência do que realmente se é. Parte da ótica do estrangeiro, mas, de forma ampla, apresenta uma reflexão sobre o processo de (re)construção da identidade por qual passa toda e qualquer pessoa.

Sobre o encontro das três artistas
“Um dia nós três chegamos ao Rio. E quando nos conhecemos, começamos a trocar experiências sobre não ser daqui, quase de imediato. A literatura sobre o tema é grande, por ser uma experiência muito comum no mundo inteiro. Mas, ler e falar não nos era suficiente. Por termos também formações artísticas, resolvemos utilizar a linguagem das artes cênicas e visuais para refletir sobre nossas experiências no assunto. 

A cidade do Rio de Janeiro foi sempre, desde sua fundação, uma cidade de misturou de povos, em muito fruto da aventura do Novo Mundo. Vários fatores, geográficos, culturais, sociais e político-econômicos fizeram do Rio uma cidade com uma identidade muito forte e fascinante aos olhos dos seus habitantes e visitantes. A cidade maravilhosa. O turismo se instalou mais tarde como traço forte da cidade e o contato com os estrangeiros hoje é constante para os cariocas. Algumas dessas ‘pessoas de fora’ se apaixonam pelo lugar e querem vivê-lo mais, se instalando de vez ou por tempo determinado. Os cariocas se mostram geralmente simpáticos com os estrangeiros e a sua sociabilidade favorecem as trocas entre pessoas muito diferentes. Essa interação é constante e diz muito a respeito da identidade carioca também, já que todos acabamos sendo espelhos uns dos outros. Esses processos de deslocamentos espaciais propõem reflexões interessantes e complexas sobre a identidade dos indivíduos, a composição da sociedade e seus trânsitos.

Motivadas por esse universo que nos pertence e ao qual somos tão fascinadas, resolvemos refletir sobre o sentimento de ser estrangeiro é falar sobre o que somos, ou o que acreditamos ser. Nesse sentido, a presente obra vem expressar estas experiências e construções de identidade, através de imagens com nossos próprios corpos, sentimentos, histórias e memórias.”

Ceci Gil Mariño, Débora Oelsner Lopes e Valérie Lengronne

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Sobre as artistas

Ceci Gil Mariño
Mestre em Teatro e Cinema Argentino e Latino-americano pela Universidade de Buenos Aires e atriz, com formação em dança. Como atriz, desde o ano 2000, realiza cursos e seminários com diferentes professores, tais como Guillermo Cacacce, Ciro Zorzoli, Marcelo Subiotto, Heidi Steinhardt, Lorena Vega (Buenos Aires) e Alain Alberganti (Rio de Janeiro), entre outros. Também fez seminários de clown com Hernán Gené, Lila Monti e Silvia Aguado. Em dança e expressão corporal, dançou vários anos Butoh com Quio Binetti e fez diversos cursos de dança contemporânea e contact improvisation. Nos últimos anos, treinou e estudou a técnica de dança Flying Low e Asymmetrical Motion com Lucas Condró e fez aulas com Diana Szeinblum (Argentina). Em 2014, foi bolsista da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, para desenvolver um projeto de dança e audiovisual, Gêmeas, que foi apresentado no mês de dezembro. Esse mesmo ano, no Rio também, foi selecionada para participar das oficinas de dança ditadas por David Mambouch (França) e Anne Teresa De Keersmaeker (Bélgica), durante o Festival Panorama. Como performer, participou da homenagem a Clarice Lispector no Museu do Livro e a Língua da Biblioteca Nacional da Argentina em 2013. Entre os anos 2011 e 2013 trabalhou como roteirista de documentários de televisão para o canal Encuentro do Ministério de Educação e para o Ministério da Cultura da Argentina. Em ficção, este ano estreará na web série Malos Deseos o ¿quién mató a Marcos López?, na qual participa como roteirista e atriz. Atualmente, cursa doutorado em História do Cinema com uma bolsa do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) na Universidade de Buenos Aires sobre cinema argentino e brasileiro. Recentemente, foi lançado  seu primeiro livro El mercado del deseo –, uma versão da dissertação de mestrado que ganhou o segundo prêmio na categoria ensaio do Régimen de Fomento a la Producción Literaria Nacional del Fondo Nacional de las Artes da Argentina.

Débora Oelsner Lopes
Paulistana, graduada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU USP (2009), residente no Rio de Janeiro onde defendeu mestrado no Centro de Letras e Artes da UNIRIO (maio, 2015), intitulado ” ‘A inquieta busca da cenografia’: a experiência didática de Helio Eichbauer nos anos 1970″, sobre o período em que o professor/artista lecionou na Escola de Belas Artes da UFRJ, na Escola de Teatro Martins Pena e na Escola de Artes Visuais Parque Lage (EAV). É professora substituta na habilitação em Cenografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi integrante de diversos grupos de produção em figurino, cenografia, happenings em espaços públicos, entre outros, no Rio e em São Paulo. Em 2012, foi assistente da cenógrafa Cristina Novaes para a ópera multimídia Bério sem censura, de Jocy de Oliveira, com apresentações no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e no Sesc Vila Mariana em São Paulo. De 2009 a 2011 trabalhou com o arquiteto e artista gráfico Rafic Farah. Trabalhou no escritório responsável pela comunicação visual das exposições da Pinacoteca do Estado de São Paulo, com destaque para a exposição Anni e Josef Albers – Viagens pela América Latina em 2009. Mantém parceria com o arquiteto paulistano Marcos Cartum em projetos de design gráfico.

Valérie Lengronne
Francesa, residente no Rio de Janeiro. É mestre em Antropologia cultural pela Universidade de Toulouse na Franca, e dançarina. Tem formação em dança Clássica, Jazz e Contemporânea desde 1989. Estudou na Escola Studio Dance, Issoire, Clermont-Ferrand; Escola Saint Cyprien, Espace James Carles, Toulouse; Crisantempo, Cia Corpos Nômades, Núcleo Artístico Pedro Costa, São Paulo. Participou Companhia de dança-teatro “Pasina & Cie”, Toulouse nos anos 2008-2009. No ano 2014, co-dirigiu o projeto Gêmeas com Cecilia Gil Mariño que foi apresentado na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Se formou em antropologia, biblioteconomia e gestão cultural. Trabalhou em São Paulo e no Rio de Janeiro desde o ano 2010  no setor audiovisual.

Ficha técnica
Uma criação coletiva de Ceci Gil Mariño, Débora Oelsner Lopes e Valérie Lengronne
Direção: Ceci Gil Mariño
Elenco: Ceci Gil Mariño, Débora Oelsner Lopes e Valérie Lengronne
Músicos: Alberto Goyena Soares e Felipe Chernicharo
Iluminação, fotografia e operação de luz: Dinho Moreira
Cenografia: Débora Oelsner Lopes
Figurino: Caro Pierro e Florência Santángelo
Vídeos e edição: Alexandre Britto
Animação de fotografias: Celina Wolffelt
Desing gráfico: Elsa Burguière
Operação de áudio e vídeo: Philippe Baptiste
Trilha sonora: “La espada de Carmona” de Morbo e Mambo, “So Mad” de Mompox e “Elle se casse au Brésil” de Mathieu Serradell
Produção: Gabriela Imelk
Apoios: Consulado Geral da República Argentina no Rio de Janeiro, Cibrapel, Depil All Time e Nikito Brownies

Serviço

Mãe, cheguei bem
Dias 15 e 16/07/15, quarta e quinta, às 19h30
Local: Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas – Rua Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa
Telefones: 21 2215-0621 | 21 2224-3922
Ingressos: R$20 (inteira) / R$10 (meia)

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