Envelhecimento e dificuldades alimentares: como lidar com a disfagia

Engasgos frequentes, tosses e dor ao engolir podem ser sinais que inspiram maiores cuidados

Envelhecer com saúde é o desejo da maioria das pessoas e, graças aos avanços da medicina e da ciência, isso já é uma realidade. Segundo dados do IBGE, estamos vivendo mais: somente no Brasil, estima-se que a população idosa triplique até 2050. Se por um lado isso representa um avanço a ser comemorado, por outra evidencia a necessidade de uma abordagem mais ampla dos desafios dessa etapa da vida que, por natureza, inspira mais cuidados.

Com o passar dos anos, o corpo vai dando sinais próprios do envelhecimento: enfraquecimento da visão e audição, movimentos mais lentos, e dificuldades na hora de se alimentar são consequências comuns do avanço da idade. Porém, a atenção aos sinais do corpo deve ser redobrada nessa fase da vida, uma vez que a sensibilidade do organismo e a fragilidade da saúde são maiores nessa etapa. Sinais que muitas vezes passam despercebidos na hora da alimentação podem representar muito mais do que incômodos banais. Engasgos frequentes durante a refeição, pigarros, tosse, dificuldade de mastigação, lentidão na hora de engolir, recusa do alimento e falta de apetite podem ser sinais de disfagia.

Esse quadro não caracteriza propriamente uma doença, mas um sinal de alerta que algo não vai bem no organismo e, se negligenciado, pode levar à complicações que podem comprometer seriamente a saúde do idoso: desnutrição, desidratação e infecções respiratórias graves estão entre as principais consequências da falta de atenção à este problema. Como os idosos costumam conviver com doenças crônicas, o problema requer ainda mais atenção: além de aumentar a probabilidade de internação hospitalar, a disfagia representa um risco à própria vida do paciente. Por isso, identificar esses sintomas e buscar auxílio profissional quando o idoso começa a apresentar dificuldades na alimentação é fundamental para garantir sua saúde e qualidade de vida.

O que causa a disfagia?
O processo normal de deglutição envolve diversas etapas neuromotoras que visam transportar o alimento da boca até o estômago de forma segura, evitando que pedaços da refeição sejam aspirados e entrem nas vias respiratórias. Anormalidades em qualquer uma das etapas desse processo podem caracterizar a disfagia, ou seja, a dificuldade de engolir alimentos sólidos ou líquidos. É importante esclarecer que ela não é uma alteração exclusiva da terceira idade, podendo ocorrer em qualquer etapa da vida. Mas sua incidência é mais comum em pessoas na terceira idade.

A perda da dentição, do tônus muscular das estruturas faciais (maxilar, bochechas, língua) e o uso de próteses dentárias mal adaptadas são problemas comuns aos idosos que podem dificultar sua alimentação e reduzir seu apetite. De acordo com a nutricionista da  Nova Nutrii, especializada em nutrição clínica, Jéssica Freitas “O maior risco nesses casos é a subnutrição e desnutrição comprometendo a saúde do idoso, especialmente se ele já convive com alguma doença crônica. Além disso, a disfagia causada por esses transtornos pode levar ao isolamento, uma vez que a refeição também é um ato social, que muitas vezes envolve familiares e amigos.”

Outras causas comuns e mais delicadas da disfagia envolvem processos automáticos, que são executados pelo organismo sem o nosso controle. A partir do momento em que o alimento é engolido, as etapas subsequentes que passam pela laringe e esôfago são comandadas pelo cérebro de maneira autônoma, sem que possamos interferir. Quando qualquer anormalidade ocorre a partir desse ponto, pode ocorrer a sensação de engasgo, de sufocamento e dor ao engolir, levando a pessoa a tossir e/ou regurgitar o alimento.  

Sintomas como esse estão ligados à diversos problemas, que só podem ser diagnosticados precisamente por um profissional especializado como um fonoaudiólogo. Outra razão pela qual essa anormalidade é bem comum em pacientes idosos é que as funções que controlam a deglutição podem ser prejudicadas por distrofias musculares, canceres e doenças neurológicas como derrames (AVCs), traumas no crânio e doenças degenerativas como o Mal de Alzheimer, Mal de Parkinson, esclerose lateral amiotrófica e esclerose múltipla.

Cuidados com a alimentação
É comum que aos primeiros sinais de dificuldade mastigação e/ou deglutição, o idoso corte deliberadamente determinados alimentos da dieta. Alimentos fibrosos ou duros como carnes, por exemplo, são consumidos cada vez menos ou em menor quantidade. Isso resulta em menor oferta de proteínas, carboidratos e outras vitaminas essenciais para manutenção da massa corporal e para obtenção de energia. “Uma das maiores preocupações em relação à disfagia é sua capacidade de comprometer ainda mais outros quadros clínicos do idoso, que normalmente já convive com doenças crônicas. A desnutrição e desidratação decorrentes desse problema aumentam as chances de necessidade de internação hospitalar, além de prolongarem o tempo de permanência nesse tipo de intervenção.” – explica Jéssica Freitas.

Outro agravante é que a ingestão de líquidos requer maiores cuidados em pacientes com disfagia: como esses alimentos passam mais rapidamente pela garganta, têm mais chances de serem broncoaspirados. A entrada de alimentos e líquidos no pulmão é extremamente perigosa, podendo acarretar em pneumonias, graves infecções no sistema respiratório ou até mesmo asfixia. Isso significa que até mesmo um simples copo d´água pode ser um desafio para o idoso com disfagia. O que fazer então? “Pacientes disfágicos precisam ter a dieta adaptada para reduzir tanto o desconforto ao deglutir, quanto os riscos de broncoaspiração. A alteração da textura dos alimentos é um dos principais passos. A adoção de uma dieta pastosa e o uso de espessantes afim de “engrossar” e dar mais viscosidade à alimentos líquidos são medidas que podem ajudar a de deixar a água e outras bebidas mais espessas, facilitando a ingestão e minimizando o risco da broncoaspiração.” – explica a nutricionista.

Porém, isso não significa que o idoso passará a ter uma alimentação monótona, com gosto de remédio ou até mesmo insípida: “Já existem produtos específicos para alterar a textura do alimento, sem modificar sua cor ou sabor, facilitando a introdução de espessantes na dieta.” Além disso, a nutricionista explica que por mais que exista a necessidade de amassar ou processar os alimentos, isso não significa que a dieta do idoso deve se restringir à papas: “Purês e alimentos liquidificados podem facilitar a aceitação, mas para que fiquem mais atrativos e saborosos, é recomendado que se amasse e sirva os alimentos separadamente. Dessa forma preserva-se o sabor, cor e odor do alimento, estimulando o paladar e permitindo maiores variações, mesmo em uma dieta pastosa.” – aconselha Jéssica. Da mesma forma, a interação social é muito importante: sempre que possível, o idoso deve fazer as refeições à mesa, juntamente com a família, para tornar essa hora mais agradável. Cuidados durante a refeição também devem fazer parte da rotina do idoso: comer e engolir vagarosamente, manter a postura durante a alimentação e atentar-se a higiene bucal são medidas que devem ser feitas diariamente. É importante que cuidadores e familiares supervisionem a alimentação de idosos, mesmo que eles tenham independência para se alimentar sozinhos, afim de auxiliar em qualquer dificuldade.

Quando a situação é mais delicada e o paciente encontra-se acamado, o cuidador / familiar deve ter sempre o cuidado de deixar o idoso em posição reclinada durante as refeições afim de evitar complicações. Além disso, a dificuldade de adaptação à dieta e problemas na absorção dos nutrientes podem levar à necessidade da suplementação nutricional, afim de tratar ou prevenir a desnutrição: “Os suplementos alimentares podem enriquecer a dieta em termos calóricos e vitamínicos, suprindo a carência de micronutrientes. Eles podem combater a perda muscular, enfraquecimento ósseo e comprometimento do sistema imunológico causados pela desnutrição.” – explica.

Tratamento
O tratamento da disfagia depende muito das suas causas, por isso, mesmo diante dos sinais mais brandos, é fundamental recorrer à um profissional de saúde para investigar a origem do problema. Normalmente, esse processo envolve uma equipe multidisciplinar que, em conjunto, vai indicar a forma mais adequada de reverter o problema ou amenizar os transtornos e prover mais qualidade de vida quando a situação é permanente. Otorrinos, fonoaudiólogos e geriatras compõem o quadro de profissionais que podem estar envolvidos no diagnóstico. Porém, no geral, o acompanhamento de um nutricionista é indispensável no tratamento, uma vez que a dieta deve ser revista e adaptada. Por isso, a especialista Jéssica Freitas reforça as orientações que podem ajudar a facilitar a convivência com a disfagia:

  • A alimentação deve ser feita sem pressa, os alimentos devem ser bem mastigados e engolidos vagarosamente;

  • Mesmo com a dificuldade, o idoso não deve se isolar. A alimentação deve ser uma hora prazerosa, de interação com familiares e amigos;

  • A postura durante a refeição é fundamental para o conforto e segurança: o idoso deve permanecer sentado ou levemente reclinado afim de reduzir a chance de engasgo;

  • Os cuidados com a saúde e higiene bucal são indispensáveis, próteses mal adaptadas e problemas de dentição podem agravar a perda do apetite;

  • Alimentos pastosos e bebidas espessas reduzem a chances de engasgo, porém alterações drásticas dieta devem ser orientadas por um nutricionista;

  • Adequar a consistência da dieta de acordo com a aceitação do paciente e orientação de um profissional da saúde.

  • Ao notar perda do apetite e/ou perda excessiva de peso, procure imediatamente um médico.

Fonte: Nova Nutrii

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