Embarque na memória da Flip

Flip 2016 / Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Se o nome da Flip é Festa Literária Internacional de Paraty, bem que seu sobrenome poderia ser Liz Calder, a inglesa criadora desta festa, que em 2003 realizou seu sonho de trazer para as ruas coloniais desta cidade de príncipes, um pouco da atmosfera que criou no festival de Hay-on-Wye, no País de Gales. O que talvez ela não pudesse prever fosse o sucesso cada vez maior do festival, que chega a sua 14ª edição com um público que só faz crescer a cada ano, lotando as ruas de paralelepípedo para ver, ouvir e esbarrar com escritores consagrados da literatura mundial ao lado de novos autores que lançaram na cidade suas obras, além de debates, palestras e até atividades para as crianças, a Flipinha, que se esbaldam entre os livros embaixo das árvores da cidade, formando novos leitores a cada ano.

Liz calder, que viveu no Brasil na década de 60 trabalhando como modelo, é uma das fundadoras da renomada editora inglesa Bloomsbury, lançadora de autores como Salman Rushdie e J.K Rowling, que, ainda desconhecida quando bateu à porta da editora com seu bruxinho Harry Potter debaixo do braço, devolveu à Liz a independência financeira que possibilitou a realização do festival da maneira que imaginou.

A cidade sul-fluminense recebe a 14ª edição da Festa Literária Internacional (Flip) /  Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A cidade sul-fluminense recebe a 14ª edição da Festa Literária Internacional (Flip) / Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Quem participa da Feira hoje em dia, com tendas lotadas onde se abrigam mesas-redondas com autores de diversas nacionalidades e estilos, mal pode imaginar como foi a primeira edição em 2003, em que prevaleceu a presença quase que exclusiva de autores ingleses, e dos nacionais, uma exclusividade dos escritores da Companhia das Letras, que apesar da excelência de seu catálogo, privou o público de uma seleção mais democrática. Pouca participação dos frequentadores, pois os debates aconteciam dentro das casas do tempo do caminho do ouro e nem tampouco dispunham de uma boa infra-estrutura para assistir aos debates em praça pública,  onde os telões montados não atendiam à esta demanda. Liz calder admitiu na época que essa opção por autores conhecidos funcionaria como um chamariz para dar credibilidade ao evento, diversificando ano a ano a seleção de autores e editoras que por ali viriam a passar. Dito e Feito!

Liz Calder,  Fundadora da Flip / Foto: Reprodução
Liz Calder, Fundadora da Flip / Foto: Reprodução

Desde então, a Flip foi se afirmando como um porto em que ali já desembarcaram, sempre  nesta época do ano escritores do mais alto gabarito como Eric Hobsbawn, o próprio Rushdie, Gay Talese, Ian McEwan, Milton Hatoum, Ariano Suassuna, Paul Auster, Lígia Fagundes Telles, Miguel de Souza, Agualusa, L. F. Veríssimo, os  prêmio Nobel J. M Cotzee e Nadine Gordimer, e tantos outros, sendo alguns desconhecidos, mas que viraram verdadeiros pop-stars do evento, como a poetisa portuguesa Matilde Campilho e a freira Maria Valéria Rezende. Os debates sempre foram outro ponto alto da Feira, em mesas que trataram de assuntos sempre atuais, como a que reuniu o jornalista Glenn Greenwald e o jornalista do NYT, David Carr, que discutiram a questão da liberdade de imprensa na edição de 2014 ou, anos antes, o debate que emocionou o público ao tratar dos meninos do tráfico, levando para a mesma mesa MV Bill, Luís Eduardo Soares e Arnaldo Jabor, vaiado em cena aberta por defender Fernando Henrique Cardoso.

Flip 2016

A homenageada deste ano,  Ana Cristina César, poetisa da década de 70,  está em boa companhia: em suas 13 edições, a Flip teve como homenageados nossos queridos autores Vínicius de Moraes, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Millor Fernandes e Mário de Andrade, que mereceram mesas-redondas com convidados que analisaram  suas obras e sua importância no cenário nacional. E a cada noite de abertura, um show para animar a festa: Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, e tantos outros. Chico Buarque não cantou, mas por ali esteve na primeira edição, lendo poesias de Vinícius e levando a plateia ao delírio ao usar os óculos femininos da filha do poeta e já falecia Susana de Moraes.

O melhor de relembrar é saber que a Flip está no ar! Corra!

 

 

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