Editora Malê promove encontro de literatura e cultura negra

foto: Fagner França
foto: Fagner França

O evento ainda teve a participação dos escritores Cuti Silva e Conceição Evaristo, que fizeram o lançamento de seus livros, ambos publicados pela Malê; das atrizes Mary Sheila e Léa Garcia, que emocionaram o público durante o sarau; da apresentação musical do grupo Soul de Brasileiro; da DJ Ana Paula Lisboa, no comando da festa; e ainda contou com o show da rapper paulista Tássia Reis.

Conceição Evaristo (foto: Fagner França)
Conceição Evaristo (foto: Fagner França)

A editora Malê promoveu um encontro de literatura e cultura negra na sede do Cordão do Bola Preta, no último sábado. A “Àjoyó: celebração da literatura afro-brasileira” ficou marcada por atividades culturais, dentre elas o café literário, o debate com personalidades, o sarau de poesia e muita música negra. A editora também produziu o Prêmio Malê de Literatura, no qual 180 jovens de todo o Brasil puderam se inscrever e participar.

Para Vagner Amaro, editor da Malê e também curador do “Àjoyó”, eventos como esse são mais que importantes, são necessários. “Foi significativo pelos assuntos abordados, que fazem parte da pauta dos temas mais preocupantes para a população afrobrasileira, como a violência policial, os assassinatos dos jovens negros e a vulnerabilidade em diversos campos em que pessoas negras ainda estão expostas”, conta ele, que comanda a editora junto do sócio Francisco Jorge.

Cuti Silva (foto: Fagner França)
Cuti Silva (foto: Fagner França)

Ele, que também é bibliotecário e jornalista, ressalta a importância de se abrir um lugar no mercado para autores negros. “O espaço para divulgação de autores negros e dos seus livros é reduzido, se comparado com os autores brancos.  Por isso, enxergo a festa [Àjoyó] como uma espécie de Quilombo dentro da cena literária, que costuma privilegiar autores brancos e segregar os negros e indígenas. Essa forma de resistência e atuação na literatura já veio com a geração de autores que surgiram no fim dos anos de 1970”, aponta. 

Cuti Silva, um dos responsáveis pelo movimento literário negro nesta década [o Quilombhoje, de São Paulo], fez o lançamento de seu livro “Contos Escolhidos” durante a tarde de sábado. Para ele, oportunidades como essas servem para quebrar preconceitos. “É extremamente necessário ter celebrações como esta para desconstruir estereótipos e construir espaços”, acredita o autor, que escreveu mais de vinte livros, entre contos, romances e poemas.

Cuti Silva, Léa Garcia e Simone Ricco (foto: Fagner França)
Cuti Silva, Léa Garcia e Simone Ricco (foto: Fagner França)

Quem também aposta nessa iniciativa é a própria Conceição Evaristo, escritora de Belo Horizonte, responsável por mais de oito livros e que já teve suas autorias publicadas fora do país. “A importância desse evento, de se fazer um encontro como este é enorme. Foi criado aqui um espaço democrático, que reuniu pessoas que foram minhas contemporâneas, pesquisadores e professores. É muito bom ver uma editora completamente voltada para o jovem negro”, diz.

Ela é outra que enfatiza a falta de espaço no mercado cultural que a literatura negra possui nas grandes editoras. “As empresas grandes não estão muito ligadas nessas publicações representativas, seja de negros, índios ou homossexuais. A não ser que o escritor seja muito famoso”, diz.

O Prêmio

Com objetivo de colaborar com uma visibilidade positiva do jovem negro, a editora criou o Prêmio Malê de Literatura. Foram 180 inscrições de jovens de todo o Brasil, dos quais 10 foram publicados na coletânea ‘Letra e Tinta’, lançada no dia do evento. Durante a cerimônia do Prêmio, as atrizes Mary Sheila e Léa Garcia participaram por meio de leituras dramatizadas. Responsável pela iniciativa, Vagner acredita que o prêmio é um incentivo aos jovens para que continuem escrevendo. “A ideia de promover o Prêmio foi no sentido de melhorar a visibilidade do jovem negro. A gente sabe que o perfil está sempre associado à violência e, por isso, associamos a imagem desses jovens à cultura, literatura e às atividades intelectuais. Estes escritores agora entram no mercado literário, com seus textos, e sua publicação, nós desejamos que continuem produzindo e sigam a produzindo textos tão bons e sensíveis quanto os que venceram o prêmio”. Ao todo, foram 10 premiados, dentre eles, jovens de Brasília, Ceará, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

Vencedores do prêmio (foto: Fagner França)
Vencedores do prêmio (foto: Fagner França)

A Festa

O evento, além das conversas literárias, promoveu uma festa com a participação do grupo Soul de Brasileiro, composto por jovens da Vila Kennedy. Juntos há cinco anos Genilson Vieira, Negra Silva e José Junior formam o trio de voz que compõe a banda. O grupo trouxe, em forma de soul e jazz, músicas representativas como ‘Canto das Três Raças’, ‘Morro não tem vez’, ‘Olhos Coloridos’ e ainda apresentaram a canção autoral ‘Partida de dois(ouça).

Soul de Brasileiro (foto: Fagner França)
Soul de Brasileiro (foto: Fagner França)

O vocalista Genilson Vieira conta que apresentações como essa são mais que um prazer artístico, para ele é uma missão. “Essa iniciativa é verdadeiramente importante para inclusão e fortalecimento da autoestima do jovem negro. Nós precisamos de atenção, e eu não poderia deixar de nos incluir porque também somos de origem pobre, vivemos em uma comunidade e vemos a realidade do que é estar inserido na periferia. Então, mais do que prazer, como artista, de estar cantando, é estar aqui em função de uma coisa que eu sei que transforma vidas, uma comunidade, uma cidade, um país”, conta. 

DJ Ana Paula Lisboa (foto: Fagner França)
DJ Ana Paula Lisboa (foto: Fagner França)

Já José Junior, também vocalista do grupo, acredita que eventos recarregam as baterias. “Participar de uma festa como essa é uma recarga nas nossas forças para que a gente continue. Para nós, é exatamente como uma confirmação para a gente continuar nessa luta louca”, acredita. A festa também contou com a Dj Ana Paula Lisboa, que trouxe um misto do rap, trap, black e do hip-hop para a pista do Bola Preta.

Tássia Reis

Como se não bastasse o café literário, os saraus poéticos, a apresentação do grupo Soul de Brasileiro e a festa promovida pela DJ, o evento ainda trouxe a rapper Tássia Reis para cantar ao público de “Àjoyó”. A paulista de Jacareí, que acaba de lançar seu primeiro disco “Outra Esfera”, agitou o público com suas músicas que falam de amor, luta, representatividade e empoderamento feminino. No palco, o público viu uma Tássia leve, extrovertida e verdadeira. “Para nós, por nós sempre”, é como ela abre o show.

Tássia Reis (foto: Fagner França)
Tássia Reis (foto: Fagner França)

Talvez seja por isso que, com menos de um mês, o disco já possui mais de 15 mil acessos apenas no YouTube. Para a cantora, o lançamento é a continuidade do que foi feito no primeiro trabalho. “É uma busca de quem eu sou. E acho que essa busca é eterna. Só é um pouco diferente agora. Vou percebendo outras coisas. Me percebendo, vendo meus limites, seja impostos por mim mesma ou pela sociedade. A partir disso, tento compreender quem eu sou, entender minhas relações afetivas, minha insegurança, e a fonte dela, se é esse racismo que opera junto com machismo e que me deixa no escanteio, mas ao mesmo tempo me adoece por dentro. Eu tento buscar essa cura, pra poder transcender e viver algo diferente”, explica.

Tássia Reis (foto: Fagner França)
Tássia Reis (foto: Fagner França)

Para Tássia, poder empoderar mulheres é motivo de orgulho. “Fico feliz em poder acender uma fagulha nas mulheres e dizer: ‘ei, você pode’. Afinal, eu não posso transformar ninguém, é a pessoa que tem a chave para mudança e eu fico muito feliz e grata em poder participar dessa libertação e de acender essa bomba”, diz.

Estar em um evento como esse, para a cantora, é muito significativo. “É muito bom poder aprender com essa galera que, para mim, é mais do que referência. Sem antes não tem depois, não é”, indaga ela que, à tarde, participou da mesa de debates ao lado de Conceição Evaristo, Lívia Natália e Luciana Barreto.

Com cerca de 35 mil seguidores nas redes sociais, Tássia recebe hoje um retorno positivo do seu primeiro CD. “Fico muito feliz, muitas pessoas de nichos diferentes estão compartilhando. Entramos como Rap, mas passamos por outros caminhos. As pessoas estão absorvendo o que eu estou dizendo”, se alegra. No comando do som estava o Dj 3D e, ao seu lado, a fiel escudeiro Lívia Máfrika. “Outra Esfera” está disponível nas plataformas digitais e para download no site da cantora (clique aqui para baixar).