Do samba, para o samba: a Roda PedeTeresa celebra hoje a cultura popular

Foto: Sérgio Phelipe

Não importa se é branco, negro ou pardo. Não existe classe média, doutor ou empregado. É de direita? De esquerda? Não faz diferença. Numa roda de samba só uma coisa interessa: o samba.

Foi justamente em uma roda de samba que os integrantes do grupo PedeTeresa se conheceram. Nessas bem tradicionais, onde o samba é respeitado. Aos poucos, a afinidade se tornou amizade e a amizade virou parceria. Alguns anos depois, numa noite de Halloween – melhor dizendo, Dia do Saci – a Roda de Samba PedeTeresa se reuniu para tocar pela primeira vez. Era terça-feira. Estavam no clássico Bar do Cabeça, no Bairro de Fátima. Bem ali, no pé de Santa Teresa. A partir deste dia, não pararam mais.

Hoje, quase três anos após a primeira reunião, a roda de samba formada pelos músicos Léo Rosário, no cavaco; João Paulo, no banjo; Marcos Raddi, no violão; Wanderson Luna, no tantã; Carlos André, no pandeiro; e Rodrigo Mendes, no surdo, mantém um religioso encontro semanal, mas agora às sextas-feiras, no consagrado boteco A Paulistinha. “Em menos de seis meses tivemos que sair do Bar do Cabeça. O espaço não estava mais suportando”, conta Felipe Duarte, que antes de se tornar produtor da Roda de Samba PedeTeresa era apenas frequentador do local. A sorte ajudou o grupo e os colocou no colo da Rua Gomes Freire, localizada bem do Centro do Rio. “Foi muita sorte achar um bar que quisesse fazer uma parceria bacana. A gente queria estar nessa região do Centro, Cruz Vermelha, por aqui. Hoje, a rua é praticamente nossa, nos deram de presente”, brinca, se referindo ao samba que, atualmente, é realizado na rua, em frente ao bar.

Se antes o lugar era pequeno e limitado, agora a rua é toda deles. Em função das obras do Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, a prefeitura interditou a Rua da Constituição, que fica na esquina do bar, dando mais espaço para o samba acontecer. Com um público que varia entre 200 a 300 pessoas por semana, a Roda de Samba PedeTeresa – que tem esse nome por, inicialmente, estar “ao pé” do bairro de Santa Teresa – consolida seu espaço, alcançando cada vez mais curiosos.

11779954_400066143519444_7382690205699920041_o

O samba

Na mesa ficam o cavaquinho, o banjo, a viola, o pandeiro, o tantã e o surdo. Sem se esquecer da cerveja gelada, do São Jorge protetor e dos amigos ao redor do grupo, que canta sem microfone. “A caixa de som acaba restringindo a galera de chegar junto, pedir uma música. Ficar perto da roda é uma troca de comunicação, deixa tudo mais intimista e agregador”, diz o cavaquinista Léo Rosário. Já sentaram ali nomes como Rogério Família (da Roda de Samba da Pedra do Sal), Barbeirinho do Jacarezinho, Chiquinho Vírgula e muitos outros.

O repertório é grande. Vai de Mauro Duarte, passa por Jovelina Pérola Negra e Beto sem Braço. Tem Bezerra da Silva, Mestre Candeia, Chico Buarque e Dona Ivone Lara. Samba-enredo? Claro! E aquele Fundo de Quintal? Também! Tem samba para todos os gostos. “A gente não fica separando os sambas. Tocamos de tudo sem restrição, mantendo sempre a qualidade. Cantamos só o que é bom”, conta Felipe.

Léo Rosário no cavaco Foto: Sérgio Phelipe
Léo Rosário no cavaco Foto: Sérgio Phelipe

Espaço democrático

Uma coisa eles garantem: jamais irão cobrar entrada. “A roda de samba é um evento independente, de cultura popular. A gente sabe que se um dia quiser cobrar R$ 10, pessoas que são fundamentais para o samba acontecer vão deixar de frequentar”, avalia Léo. Segundo eles, aquele espaço é democrático e todos têm a mesma voz. “É muito bom poder fazer samba para alguém que ganha R$ 600 e ao mesmo tempo para quem recebe R$ 100 mil. Todo mundo, aqui, se enxerga da mesma forma porque estão aqui pelo mesmo objetivo: o samba”, diz.

Não é à toa que, acima de tudo, a roda de samba é um lugar de resistência. “O samba sempre esteve presente na história do Brasil e é impossível falar de cultura e de resistência sem falar dele”, conta o produtor Felipe que descreve o gênero como um estilo de vida. “É quem eu sou. É o modo de pensar, de vestir, de lidar com a sociedade. Não é só o tipo de música que eu ouço. É uma escolha de vida, como ser vegetariano”, brinca. Para o músico Léo, as pessoas que estão inseridas nesse contexto se agregam pelo fato do samba ser um lugar de resistência cultural. “Historicamente, o samba foi um espaço democrático e um centro de referência para a juventude pensante”, lembra.

Novos Compositores

Além do encontro religioso às sextas-feiras, alguns integrantes da Roda de Samba PedeTeresa também participam do projeto cultural “Aos Novos Compositores”, que ocorre uma vez por mês. O objetivo é democratizar o microfone e abrir espaço para que, como diz o nome, os novos compositores de samba possam expor seu trabalho. “O samba agrega, cria igualdade”, diz o Léo. O encontro acontece toda segunda quinta-feira do mês, também no bar A Paulistinha, às 19h.

DIvulgação
Divulgação

Samba: no estilo, no ouvido e no olhar

Na sexta-feira (13), o grupo dá início ao projeto Feira de Samba PedeTeresa, que traz o gênero em todas as suas expressões culturais: música, moda, literatura, artesanato, gastronomia, fotografia e artes plásticas. O evento conta com a participação da cantora Thaís Macedo, que promete representar o samba da forma que ele merece.

A data de estreia da Feira coincide com o dia em foi assinada a Lei Áurea, lei que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil (13 de maio de 1988). Visando expressar a cultura negra, que é a mãe do conhecimento rítmico brasileiro, o evento mostra que o samba não é apenas um gênero musical e sim uma das principais manifestações culturais do país. A Feira de Samba PedeTeresa é gratuita e acontece também no bar A Paulistinha, às 19h30.

O endereço do samba é na Rua Gomes Freire, nº 27, Centro do Rio de Janeiro.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UM COMENTÁRIO