Dez anos depois, Shadow of the Colossus ainda é uma obra prima

Assim como alguns filmes, jogos também se tornam icônicos, tanto pela sua ousadia, estética  ou algum elemento que cative milhares de jogadores. Shadow of the Colossus (SOTC para os íntimos) é um desses exemplos. Desenvolvido pelo Team ICO, responsável pelo aclamado jogo “ICO” e publicado pela Sony, foi lançado em Outubro de 2005 no Japão e no ano seguinte na América e Europa, para o console Playstation 2. Escrito e dirigido por Fumito Ueda,  SOTC possui uma atmosfera única e a visão particular do diretor, que buscava proporcionar ao jogador uma experiência intimista, sem precisar seguir a fórmula básica dos jogos da época.  

SOTC narra a história do jovem chamado “Wander” (Andarilho em português), que entra em um zona conhecida como “Região Proibida” acompanhado por sua égua chamada Agro e carregando o corpo da princesa Mono. As lendas de sua terra dizem que nesse local há espíritos capazes de retornar os mortos à vida, levando o protagonista a fazer tudo a  seu alcance para que a princesa volte a viver. No começo da jornada, uma entidade chamada Dormin informa que é possível revive-la, mas para isso Wander terá que derrotar todos os gigantes que habitam aquela região inóspita, os Colossi. Cumprindo sua missão, a princesa poderá respirar novamente.

Embora possua uma premissa simples, SOTC é um jogo profundo e reflexivo, que aos poucos vai levando o jogador a questionar suas próprias ações e qual seu papel  naquele local esquecido pela civilização. Talvez essa seja uma das partes mais interessantes do jogo: a sensação de solidão. Conforme você cavalga na Região proibida, percebe que não há nenhum sinal de vida humana por ali, e seus únicos companheiros são sua Égua e os Colossi que você tem a missão de matar. A cada gigante morto, você acaba se sentindo cada vez mais solitário e questionando sua missão, embora você seja obrigado a cumpri-la para chegar ao fim do jogo.

Os Colossi dão um show à parte. Embora sejam lentos e não falem, possuem um olhar único e emblemático, além de apresentarem em seu design uma personalidade própria. Em um momento você está lutando contra um gigante que parece ser um senhor idoso com uma enorme barba, enquanto em outro enfrenta uma águia de pedra em pleno ar, sobrevoando um lago e fazendo piruetas no ar. Ao todo são 16 Colossi a serem enfrentados.

As mecânicas de Shadow of the Colossus se baseiam em jogos de ação e puzzle (quebra cabeças), já que para derrotar os Colossi é necessário entender como cada gigante funciona e qual a melhor opção para acertar seus pontos vitais, representados por runas brilhantes no corpo deles. Os Colossi são abatidos através de golpes da espada do héroi. Vale lembrar que os corpos de alguns Colossi podem ser considerados como as próprias fases, já que para alcançar seus pontos vitais, é necessário escalar e realizar diversas acrobacias, correndo o risco de ser derrubado e ter que repetir todo o processo até ser bem sucedido. Alguns outros utilizaram o próprio estágio como elemento de quebra cabeça, já que apenas utilizando elementos presentes no cenário é possível derrota-los.

O jogo basicamente repete o ciclo a cada inimigo derrotado; você começa no templo central da Região Proibida, e através da sua espada e da luz solar consegue detectar o próximo Colossi a ser encontrado e  derrotado. A região é basicamente um mundo aberto com poucas indicações de localização; o jogador pode consultar um mapa para se localizar, porém nem sempre é útil, já que as regiões a serem descobertas encontram-se tapadas por nuvens e só aparecem depois de você passar pela região. Porém só é possível enfrenta-los na ordem definida pelo jogo, em detrimento da narrativa.

Wander conta com algumas armas em sua jornada: A espada lendária, seu arco e flecha, além de Agro para enfrentar os perigos do mundo. Basicamente o arco e flecha é utilizado para atirar em frutas nas árvores, que aumentam permanentemente sua energia vital, e também em lagartos que são responsáveis por aumentar sua Stamina (apenas os de cauda branca), permitindo você permanecer pendurado nos Colossi por mais tempo. A espada serve para localizar os próximo alvo e também para derrota-los. Sua égua serve para transporta-lo rapidamente pela região e na luta contra alguns gigantes, além de fazer companhia durante todo o jogo.

Pode-se afirmar que foi um jogo que ousou e modificou estruturas de uma indústria que basicamente seguia um padrão. Não possuía fases, inimigos ou mecânicas complexas, apenas chefes enormes e comandos simples; o personagem pulava, golpeava e se agarrava nos inimigos. Inovou também ao incorporar o Game Design dos estágios ao próprio corpo de alguns dos inimigos. Até então, os jogos faziam o jogador seguir um determinado percurso até o encontro com o chefe. Em SOTC, o percurso era o próprio chefe ou então a própria área que ele habitava.

Além disso, possui uma arte belíssima, com cenários bem feitos e com uma tonalidade quase sem cor, para representar a desolação do lugar, além de uma trilha sonora muito bem construída e aplicada nos momentos corretos. Até hoje sua trilha sonora é considerada como uma das mais belas já produzidas para um jogo. Seus gráficos atualmente são “datados”, já que a indústria avançou durante esse período, mas mesmo assim, diante de todo o conjunto da obra, seja talvez o fator menos importante. Vale lembrar que uma versão remasterizada foi lançada para o Playstation 3, contando também com a versão refeita de ICO, o primeiro jogo do estúdio.

Shadow of the Colossus pode ser considerado uma obra prima pelo conjunto de fatores que levaram a sua criação: a visão única do diretor, inimigos e cenários maravilhosos, uma estrutura diferenciada dos jogos da época (e até mesmo os atuais) e mecânica inovadora, além de contar com uma trilha sonora e fotografia excelentes. Todo esse conjunto o transformam em uma experiência intimista e subjetiva, levando cada jogado à reflexão de suas atitudes, mesmo sendo obrigado a toma-las para terminar o jogo. Pode ser considerado um jogo poético, despertando sentimentos pouco explorados pela indústria. Para quem ainda não jogou, é recomendada a versão para PS3, por contar com uma taxa de frames constante e permitir uma melhor jogabilidade.

 

 

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