‘Deixa na Régua’ vai além da estética e mostra as barbearias como um espaço de diálogo

Foto: Saulo Nicolai

O novo filme de Emílio Domingos, que traz o cotidiano de três barbearias da Zona Norte e Baixada, será exibido durante Festival do Rio  

Belo, Deivão e Ed têm muito mais do que um salão em comum. Os três barbeiros são os personagens centrais de ‘Deixa na Régua’, filme que estreia hoje, no Festival do Rio, com exibição para público, nesta segunda-feira (10), no Cinema 1 do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), às 16h. O novo documentário do Emílio Domingos – o mesmo diretor de ‘A Batalha do Passinho’, eleito melhor filme na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2012, e ‘L.A.P.A’ – entra no universo da estética da periferia masculina, mas vai muito além da vaidade. Um dos objetivos do filme é mostrar os salões como um espaço de diálogo para os clientes que passam por ali, que diga-se de passagem, são mais que fiéis.

Das 10 barbearias visitadas, Emílio escolheu três. Deivão (em Piabetá, Magé), Ed (Morro da Caixa d’Água, Quintino) e Belo (na Vila da Penha) ficaram cerca de quatro meses em gravação. Os assuntos são diversos e cotidianos.  Vão dos mais intensos, como oportunidade de vida para moradores de favela, política e violência, aos mais leves – e sacanas –, como sexo, o baile da noite anterior e a próxima namorada. ‘Deixa na Régua’ mostra que as relações pessoais entre os clientes e os barbeiros trazem uma grande troca de experiências, fazendo com que estes profissionais do corte atuem também como uma espécie de psicólogos ou até conselheiros.

O Sopa Cultural conversou com o diretor do filme, Emílio Domingos. Veja abaixo nossa entrevista.  

Sopa Cultural – O que te motivou a fazer o filme?

EMÍLIO DOMINGOS: O interesse surgiu ainda durante a gravação do ‘A Batalha do Passinho’. Percebi que, entre os meninos, havia uma estética própria. O cabelo me chama a atenção. Durante o filme, ligava para o Gambá (personagem do ‘A Batalha’) sempre às sextas-feiras para gravar com ele, mas ele negava, dizendo que ia pra barbearia. Achei que ele não queira mais fazer o filme. Fiquei intrigado. Comecei a pesquisar. Quando cheguei no salão do Ed, encontrei uns 15 garotos. E nem todos iam cortar o cabelo. Iam só trocar ideia, jogar vídeo game, conversar sobre diversos assuntos. E aquilo ali me deixou intrigado. Mais que a própria estética, que é bem bacana com os cortes, os riscos, os desenhos, tudo é fantástico.

Durante a gravação, o que mais te chamou a atenção?

O fato de um lugar conseguir reunir tanta gente para trocar ideia num espaço tão pequeno. O corte de cabelo é algo quase que religioso pra eles. Eles vão toda semana. Todos vão religiosamente no mesmo dia da semana. Uns vão na sexta, outros no sábado. São os dias que os salões lotam. E foi isso que me chamou atenção: o salão como troca ideia, como um espaço de diálogo entre aquela juventude. Era incrível porque cada um tinha uma estética própria no cabelo, uma identidade visual. As pessoas são diferentes. Todos tinham um corte ousado, meio geométrico, mas cada um tinha sua subjetividade no corte. E todo mundo estava convivendo ali, com ideias diferentes. Haviam verdadeiros debates dentro do salão. E, por conta disso, resolvi arriscar em fazer um filme ambientado totalmente no salão.

Para você, qual tem sido o maior desafio na hora de documentar a realidade suburbana do Rio?

O maior desafio, na verdade, é o preconceito que existe por parte da sociedade, do mercado em relação aos temas e às pessoas que eu abordo. Filmar em si não é nenhuma dificuldade. Lógico que tem o esforço com a equipe de deslocamento, mas isso aí é suplantado quando chego aos lugares e é sempre bom e incrível. O maior esforço é ter o trabalho respeitado. As pessoas têm preconceito contra o subúrbio, contra a favela e muita gente acaba tendo preconceito com o meu trabalho também. É uma coisa que eu engulo bastante.

Qual tua relação com a favela?

Eu não sou de favela, mas convivo lá desde que eu era criança. (Morador da Tijuca). Estudei em uma Escola Municipal e meus melhores amigos eram da comunidade. Com 8 anos de idade eu já subia o morro do Borel. A favela, pra mim, é um espaço que produz muita cultura tradicionalmente nessa cidade. E eu tenho a maior admiração por vários artistas que surgiram nas favelas. Musicalmente falando, as maiores representações culturais que a gente tem na cidade surgiram na Favela, como o samba e o funk. Vários dos meus ídolos moravam em Favelas. Cartola, Bezerra da Silva… Se eu começar a falar da favela, eu não vou acabar. É um espaço que surgiram diversos artistas que eu admiro, inclusive os contemporâneos, como os garotos do Passinho e próprios barbeiros.

O que te motiva a trazer a realidade do subúrbio para as telas?

Eu sou pesquisador. Ela sempre esteve entre os meus interesses, por isso, durante as minhas pesquisas, sempre busquei imagens, mas não conseguia achar. E eu percebia que as comunidades não eram muito registradas e documentadas. Vi que a Favela era um lugar, até mesmo hoje em dia, em que falam mais da violência e de aspectos que não revelam a sua complexidade como um todo. Favela é um ambiente complexo como a cidade. Faz parte da cidade. Favela é a cidade. Não tem que existir essa diferença entre asfalto e morro. Existe porque o Poder Público não investe nas Favelas e aí tem uma diferença estrutural, que é fruto da ausência do estado.

Como foi retratar a opinião dos clientes da barbearia sobre assuntos, como política e oportunidade de vida?

Quando eu me predispus a fazer um filme sobre esse retrato, eu estava aberto para realmente ouvir o que eles pensavam e o que eles vivem. O filme tem essa intenção de ouvir um pouco sobre o cotidiano dessas pessoas. Nada me surpreendeu. As pessoas são muito mais complexas do que esses estereótipos que tentam limitar e impor os indivíduos. Eu achei incrível, por exemplo, não se veem TVs nos salões. As pessoas criam suas próprias formações críticas por meio do diálogo e da internet. Então, não me surpreende que as pessoas falem desses assuntos com total propriedade e tenham visão crítica sobre tudo isso. Eu fiquei contente em ouvir. É bom ver que existem pessoas pensando sobre a própria realidade.

Fala um pouco sobre a técnica. As câmeras estão sempre paradas?

A câmera não tá exatamente parada. Ela está em busca das conversas do salão. A gente prioriza sempre o barbeiro e o cliente que está sentado na cadeira, mas a gente vai atrás das pessoas que estão ali. A câmera é na mão, o que é incrível por ser um trabalho difícil. Às vezes, ela tem que ir atrás de quem está falando e essa pessoa está num outro plano,  lá atrás. É um filme todo observacional. Eu não faço perguntas diretas aos clientes. Eu filmo a relação. O barbeiro é quase um co-autor, ele quem conduz. Durante as filmagens, eu interrompia o mínimo possível. É um filme de risco, em que você tem acreditar nas situações e nas pessoas que vão participar.

O que significa, pra você e toda equipe, ter o filme exibido no Festival de Cinema do Rio?

O Festival do Rio é muito importante aqui na cidade. Eu queria que ele fizesse parte para que muita gente visse. Faz parte de uma estratégia tornar o filme o acessível para as pessoas. Para que muitos conheçam e saibam de uma outra realidade. Eu quero muito conseguir distribuidores para o filme no Festival do Rio. Pessoas que possam exibir o filme futuramente, que se interessem pelo trabalho e queiram falar sobre o filme. É o início de carreira do ‘Deixa na régua’, é a estreia. Pra mim, a principal coisa é exibir para o publico e ter um feedback. Faço questão de ir a todas as sessões para ver a reação das pessoas. O grande barato é quando o filme vai para o cinema e acontece essa troca. Antes disso, o filme ainda não nasceu.

Para saber mais sobre a programação de ‘Deixa na Régua’, clique aqui. O filme, produzido pela Osmose Filmes, com montagem de Jordana Berg e direção fotográfica de Léo Bittencourt, é a segunda parte da “Trilogia do Corpo”, obra idealizada pelo diretor. O próximo trabalho já está a caminho e se chama ‘Favela é Moda’, que promete contar sobre a moda nas favelas cariocas.

 

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