Criador do “Risadaria”, Paulo Bonfá prova que tem humor na veia

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Idealizador do maior festival de comédia do mundo, Paulo Bonfá conta ao portal Sopa Cultural sobre sua carreira humorística e sobre o “Risadaria”, que este ano acontece durante todo o mês de julho em São Paulo.

Além dos shows de humor para o público adulto, o festival conta também com uma programação para o público infantil, debates, exposições e pela primeira vez com sessões exclusivas de inclusão de pessoas com deficiências auditivas e visuais.risada

 

Sopa Cultural: Você é radialista, apresentador, narrador… Quando surgiu o Paulo Bonfá humorista?
Na realidade, a minha primeira veia foi a do humor. Eu ainda na escola comecei a criar textos, piadas, personagens, isso foi o embrião de um hobby que se transformou em trabalho quando eu iniciei minha carreira no rádio. O meu primeiro programa estreou em 1991, quando eu tinha 18 pra 19 anos, então era algo bem jovem mesmo. E a partir daí que a comunicação virou profissão e por esses caminhos um tanto quanto tortos ou incomuns, eu acabei me tornando também apresentador, narrador esportivo, mas sem deixar de lado a minha veia cômica, meu estilo irreverente e mais divertido de ver a realidade, inclusive a realidade esportiva e especificamente do futebol aqui no Brasil. Então eu diria que sempre serei um humorista. As vezes com mais intensidade, as vezes com menos. Mas eu sempre gosto de dar uma leveza à aquilo que estou fazendo, ainda que o assunto venha a ser sério.

Com o aumento do mercado de humor no país e os diversos shows de stand-up comedy, aconteceram muitos processos de pessoas que se sentiram ofendidas pela piadas de diversos humoristas. Você acha que atualmente o público está mais careta do que antigamente?
Existe hoje, mas não é um fenômeno “agora”. É um movimento que já tem um tempo, talvez de uns três ou quatro anos pra cá. Um movimento que andou em paralelo, inclusive, com a difusão em massa das redes sociais, das mídias sociais, em que todos se comunicam com todos muito rapidamente, uma certa regressão, um “encareteamento”, vamos dizer assim… “A ditadura” do politicamente correto. Isso não tem a ver com teor de piadas, nem com estilo dos comediantes ou a forma de humor que se pratica. Até porque se mantém vários gêneros que existem há muitos anos, no humor gráfico, no teatro, no rádio, que estão aí alguns há centenas de anos, outros há dezenas de anos, mas que tem a mesma pegada, só vão mudando as temáticas, fora agora também o trabalho dos vloggers, da galera da internet, que veio, em alguns momentos até a suplantar a mídia eletrônica da TV. Então, eu acredito que existe um movimento mais conservador. Não acho que isso é uma reação ou abuso de quaisquer comediantes. Acho que para vários setores da sociedade, isso reflete também na educação, política, nos direitos humanos. Até no futebol, eu acho que isso acaba se manifestando. Portanto, o que o brasileiro tem perdido é a capacidade de rir de si mesmo. Para quem vive em grandes centros e convive com pressões como a segurança, o trabalho, o trânsito. Enfim, é muito cruel não ter válvulas de escape… É esse o caminho dos comediantes: provocar o riso, cutucar a sociedade. Com isso gerar reflexão. Pois alguns temas quando ditos de maneira séria não atingem tanto o público como quando você coloca num patamar mais cômico, mais divertido.

O conceito de “politicamente correto” atrapalha no processo criativo do humorista?
Por definição eu acredito que um artista, seja ele um comediante, um músico, poeta, escritor. Enfim, qualquer pessoa com uma atividade eminentemente artística, não pode se impor limites no momento de criar. Se você parte de algumas amarras ou de uma autocensura antes de pensar num tema, numa situação, num anticlímax que acontece no caso dos comediantes, você vai ser limitado e dificilmente vai primeiro, usufruir aí de todo o seu potencial. Depois dificilmente vai conseguir atingir o público na veia de uma forma contundente, de uma maneira avassaladora. Eu acredito que o conceito do politicamente correto vem depois. Eu acho que hoje as pessoas tem muito mais liberdade de se manifestar e criticar, se sentir de alguma maneira ofendido pejorativamente, deve e pode buscar os seus direitos. Da mesma forma o artista, e agora especificamente falando dos humoristas, também tem que ter a noção e o bom senso de saber que haverá impacto e reação naquilo que ele propuser.

Como surgiu o projeto do Festival Risadaria?
A história do Risadaria começou num único endereço, no Pavilhão da Bienal do Ibirapuera, onde tudo acontecia. Então, se construía ali teatro, auditório, cinema, áreas expositivas, até os restaurantes e banheiros era construído por nós. Isso fez com que a gente conseguisse passar o conceito para o público de que o Risadaria é um movimento para reunir todas as formas de fazer as pessoas rirem. Afinal de contas, num único endereço eles encontravam todo o tipo de humor. Indo do palhaço ao stand up comedy, passando por humoristas com personagens, grupos de esquetes, imitadores, contadores de piadas, mímicos, ventríloquos, toda sorte de apresentação e disciplina de comédia. Junto com isso também vem à exposição de acervos com o melhor da nossa história em cada plataforma, trazendo o humor do rádio, o humor gráfico, o humor da internet, o humor do cinema, o humor da literatura, humor da fotografia e, colocando tudo isso a mostra, ao mesmo tempo botando peso na atividade cômica.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Qual a importância do Festival RISADARIA para as novas gerações do humor?
O Risadaria mistura as plataformas, os estilos e as gerações. Nós, desde 2010, na primeira edição do festival, temos um trabalho de pesquisa e de resgate dos acervos, o que se apresenta muito bem nas nossas exposições e no cinema. Ou seja, quando a gente fala sobre o humor gráfico e o humor no rádio, na fotografia, humor na televisão, na internet, cinema, nós estamos eminentemente voltados a busca daquilo que foi representativo, não importa se foi no ano passado ou há décadas, mas estamos mostrando ao público para quem já conhece rever, e para quem nunca viu, apresentar aquele conteúdo como relevante, importante e também como uma forma de abrir os caminhos para tudo aquilo que virá depois. O Risadaria também tem a tradição de resgatar grandes nomes do humor e de abrir portas para novos talentos, como temos vários exemplos no elenco do Risadaria.

O Festival Risadaria hoje é considerado o maior festival de comédia do mundo. O que você considera o ponto principal que contribuiu para que  ganhasse essa importância no cenário humorístico mundial?
Se deve a importância que a comédia tem na vida do povo brasileiro, faz parte do DNA, a irreverência, a sacanagem. A gozação está no dia-a-dia. Dou exemplos como a Copa do Mundo em que o Brasil perdia de 5x 0 para a Alemanha no primeiro tempo do jogo disputado em Belo Horizonte, chegavam piadas no meu Whats App enquanto pessoas choravam na arquibancada. Enfim, todo tipo de piada, até mesmo com tragédia. No Brasil, a gente tem a cultura do “Rir para não chorar”. O público brasileiro consome bastante todo o universo farto do humor. 

Enfim, essa projeção de um evento feito em português, para brasileiros, alcançar o maior número de visitantes no mundo, é a medida de como é importante o humor como cultura, e a comédia é uma manifestação artística natural ao nosso povo.

O festival teve sessões de inclusão para pessoas com deficiência, você acha que esse público fica um pouco de lado nas programações culturais no Brasil?
Eu creio que essa questão da inclusão está limitada apenas nas questões culturais. É muito difícil ser cadeirante em São Paulo e não andar na calçada, a qualidade é péssima, as guias muitas das vezes não são rebaixadas. Então, é conviver com um problema ainda maior do que a limitação física imposta. Quando a gente vai falar dos deficientes auditivos e visuais, a gente também tem exemplos péssimos no dia-a-dia no atendimento a essa população que não é pequena, mas acaba passando batida no trabalho, no esporte…

O fato de termos conseguido realizar  essa iniciativa deixou a nossa equipe muito motivada, os artistas, os criadores de conteúdo. Porque este trabalho foi feito em conjunto com o público dito “normal”, proporcionando a inclusão dessas pessoas. Contando com a presença de todos no mesmo espetáculo.

Como foi a experiência dessas sessões para os humoristas do Risadaria?
Os comediantes que participaram dessas sessões, primeiro nunca tinham tido a experiência e ficaram positivamente surpresos  de que o Risadaria apesar  de todo o seu tamanho, tenha conseguido cuidar de um detalhe como esse. E depois, em alguns momentos para falar. Por exemplo da tradução para a linguagem de sinais para libras, que tem que ser feita ao vivo e no palco do teatro, algumas vezes acabavam interagindo até com esses profissionais que estavam realizando a tradução, porque é inevitável para se contorcer fisicamente afim de dar o correto sentido de uma piada, essas pessoas tenham feito ali alguns movimentos, algumas posturas engraçadas para todos que estavam na plateia acompanhando, inclusive os comediantes no palco que olhavam ao lado e viam essa pessoa realizando a tradução com sinais daquilo que estava sendo dito e falado. Por isso, foi muito legal e positivo em todos os aspectos. Se a gente puder repetir a dose, mais e mais artistas vão querer participar.

 

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