Como Habitar Abismos

Exposição da artista Mariana Guimarães que trata das ambiguidades da vida cotidiana, erotismo e empoderamento feminino a partir de linguagem do bordado é atração do Castelinho do Flamengo

De 02 de julho a 04 de setembro, o Castelinho do Flamengo recebe a primeira exposição individual da artista, pesquisadora e educadora Mariana Guimarães. Entitulada Como Habitar Abismos, tem curadoria de Beatriz Lemos e produção de arte de Arthur Moura.

Em obras que se espalham por oito cômodos, a pesquisa que Mariana desenvolve há alguns anos sobre os conceitos de habitar, sexualidade, vida cotidiana, afeto, presença e ambiguidades a partir da linguagem do bordado, pode ser vista em diferentes suportes, como instalações e fotografias.

“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel” – Guimarães Rosa

Inspirada pelo filósofo e poeta francês Gaston Bachelard, cuja obra reflete sobre as possibilidades e os modos de se chegar à “primitividade da casa”, Mariana propõe um olhar mais atento aos seus signos: “A casa é o santuário da nossa intimidade, da nossa nudez, mas também o local das ambiguidades. Lugar de acolhimento, mas também onde ficam escondidos interditos, opressão e violência.Um local sagrado, mas tratado como uma entidade menor”, diz ela. E completa: “São as ambiguidades que me interessam, os lados distintos que integram a existência, assim como o bordado tem seus dois lados. Procuro caminhar entre eles”.

A primeira sala abriga a instalação Mesa Posta, em que o espectador é convidado a entrar em seu universo íntimo. Em uma mesa de jantar, delicados forrinhos bordados servem de suporte a vulvas e pênis em moldes de silicone em que Mariana borda detalhes.  “Toda mesa de jantar familiar guarda seus segredos, sejam repressões das escolhas sexuais ou repressões de gênero. É um convite para o público entrar nesse universo com tudo posto à mesa e deixar também um pouco da sua intimidade lá”, comenta a curadora Beatriz Lemos.

Nos cômodos posteriores, um no primeiro andar e outro subindo as escadas,  estão em cena dezenas de peneiras de plásticos com aplicação de bordados de renda que carregam a discussão do que se separa, do que se coa, da feminilidade, seguidas de cerca de 40 bacias também bordadas. Objetos que usualmente acolhem as crianças, a comida e a roupa, num paralelo com a bacia da mãe, a maternidade e renovação da vida. “Tenho um interesse muito grande por dar um significado mais profundo aos objetos cotidianos que pertencem ao universo doméstico e habitualmente são desprovidos de observação”, diz Mariana.

A seguir, uma vitrine guarda 12 bordados eróticos. Quase um sinônimo de delicadeza, o bordado ganha desenhos de sexo explicito. O que seria profano, o que seria sagrado? No meio da escada, uma instalação traz escritos da artista e textos de filósofos e pensadores, entre eles Simone de Beauvoir, Michel Foucault e George Bataille, que discutem questões relativas e à vida privada e erotismo.

Subindo ao terceiro andar, Mariana se apropria dos desenhos da filha, Rosa, de três anos – que disse à mãe “que também é artista e faz arte ‘temporânea’”- , e os borda em  tecidos, num trabalho a quatro mãos. Branco sobre Branco é a obra seguinte: em 12 bordados feitos em papel artesanal o avesso e direito se confundem. “Verdade e mentira, yan e ying, dor e prazer são a mesma coisa”, diz ela.  Em Slides, que encerra a exposição, fotografias mostram grandes obras da representação feminina na historia da arte, como A Maja Nue, de Francisco Goya, e La Primavera, de Botticelli, mas as mulheres retratadas ganham cicatrizesbordadas em seus corpos idealizados.

“O fato de Mariana ser também educadora e pesquisadora, com um grande interesse pela história da mulher, é muito importante para o seu trabalho como artista. Existe um discurso fundamentado em suas obras. E a escolha do castelinho é muito fortuita, o fato de ter sido um espaço privado e ainda manter uma divisão de cômodos faz com que a experiência do público seja como  entrar na casa da artista ou em uma casa que mantém seus segredos”, diz Beatriz Lemos.

“O trabalho dela se faz urgente em tempos obscuros de retrocesso da linguagem libertária relacionada à sexualidade dos corpos. Seu processo é intimo e compulsivo, assim como nossas pungências mais agudas. Uma obra política que convida para a ação disfarçada de contemplação”, finaliza e curadora.

Serviço:

Exposição Como Habitar Abismos, de Mariana Guimarães
Curadoria: Beatriz Lemos 
Produção de arte: Arthur MourA
Local: Castelinho do Flamengo – Centro Cultural Oduvaldo Viana Filho
Endereço: Praia do Flamengo, 158
Data: De 02 de julho a 04 de setembro
Horário de funcionamento: Terça a domingo, das 10h às 18h.
Gratuito