Cida Airam estreia em disco

 No primeiro álbum, cantora nordestina reafirma suas raízes e influências

“Prazer. Sou Cida Airam. Já morri de morte matada e de morte morrida. Mas aqui tô eu de novo pra cantar uma nova Cida”, assim Cida Airam descreve sua estreia em disco, batizada com o nome adotado a partir de 1990, numa busca pela liberdade que conseguiu cantando. Segundo ela: “Para o primeiro CD, aos 40 anos, melhor se apresentar direito.”

Composto por quatro músicas autorais e nove de compositores diversos, o álbum foi gravado em 2015, na produtora Gramofone, com Luís Otávio como arranjador: “gravar um disco é deixar registrado fases de uma vida musical. O tempo que estou em Curitiba me fez amadurecer vocalmente e experimentar outros repertórios e jeitos de interpretar.”

Para que este trabalho tomasse a forma desejada, um personagem foi fundamental: “Luís Otávio, o arranjador e produtor do disco, surgiu num momento meu de transição para a vida materna, mas mesmo assim conseguimos realizar algumas apresentações musicais com o repertório que iria para o CD. Já vimos o que funcionaria ou não.”

Os polos opostos, reunidos neste álbum (Nordeste e Sul), ganham coesão através da voz desta cantora e compositora potiguar, o que justifica a inclusão de canções de diferentes naturalidades, mas que aqui, convivem harmoniosamente:

“Aparelho de Memoriar”, da sergipana Patrícia Polayne, com participação especial de Janine Mathias, é o hit deste disco: em pouco mais de três minutos, a música deixa claro seu acento comercial.

Em “Arribaçã” (Ricardo Ribeiro), Cida voa envolvente por versos como “eu sinto o frio açoitar o meu peito, e o calor da alma me faz aquecer”.

Na faixa três, “Cacau Caju Laranja”, parceria de Carlito Birolli e Luís Felipe Leprevost, Cida canta ao pé do ouvido, num momento pautado por leveza.

Parte do repertório de Cida há muito tempo, “Eclipse em Meia Lua” (Carlos Careqa, Adriano Sátiro e Arrigo Barnabé) ganhou a consistência que só os shows podem dar, já chegando com mais força.

Com ambiência que remete ao estado do Pará, “Memória” (Du Gomide) ganhou a cara desta região, vide, principalmente, a guitarra de Cacá Veloso. Para dançar.

Composição própria assinada em parceria com Marta Catunda, “Procissão de Ipês” tem participação especial do Vocal Brasileirão e de Fernanda Sabagh. Canção etérea.

“Menino, quem fica parado é poste”, assim, de maneira convidativa, Cida tem participação de Ricardo Ribeiro, “Coco Sincopado”, de Jacinto Silva. Aqui, a cantora reafirma suas origens.

Assinada solitariamente pela própria artista, “Flor das Águas”, com percussão marcante de Carlos Ferraz, remete aos tempos de outrora.

“Tunina” (Cida Airam) explicita a ligação da cantora com as benzedeiras, como atestam os versos: “veia rezadeira, cura o mal olhado, casca de romã, murta e capim, folha miudinha, goembegaçu, Mãe Tunina china la do sul”.

“Tamanquero” (Domínio Público), coco paraibano recolhido por Mário de Andrade, com participação de Rodrigo del Rey, é marcado pela força típica dos nordestinos.

Composta pelo carioca Antônio Saraiva, “Ritual Profano” é a primeira faixa a ganhar um videoclipe. Aqui, a voz de Cida vai dando força para as imagens da letra inspirada: “planta do pé sobre a face da terra, o ritmo bate no peito do tempo, nos olhos o fogo roubado dos deuses”.

“Solitária” (Carlito Birolli, Luís Felipe Leprevost, Troy Rossilho e Matheus Lacerda), conhecida em Curitiba, é a música onde Cida se testa como cantora, experimentando um tipo diferente de interpretação, fugindo da lembrança de outros registros.

“Para Badeba Quiki” é tema instrumental feito pela própria Cida. Além da participação especial, no acordeon, de João Pedro Teixeira, tem trecho do cordel “Nordestino da Gema”, de Hélio Crisanto.

Com letra biográfica/auto-explicativa, “Ave Cida” (Hélio Crisanto) encerra este trabalho com o seguinte recado: “se cantar como pássaro é tua sina, faz da vida um gorgeio permanente, canta alto pra nós ave menina”.

Tudo isto também só foi possível graças a uma pessoa que, na época, nem tinha nascido: Samuel, filho da cantora. Ele influenciou diretamente no que você ouve agora: “O nascimento do CD também coincidiu com o nascimento do meu filho e tudo ficou mais claro, aberto e fluiu como o líquido amniótico que vai aumentando, ao longo da gestação, e termina com o nascimento tão esperado.”

Por fim, a tônica deste disco é unir regiões, sintetizá-las a partir de um denominador comum: “Cida Airam”, portanto, trata-se de um trabalho que une raízes nordestinas e a vivência sulista, ou seja, um duelo amistoso entre o seco do sertão, abundante de luz solar, e o seco dos galhos do inverno cinza curitibano.

Arthur Vilhena

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