“A Bruxa” é uma assustadora jornada ao Velho Testamento

Se você não se sentiu perturbado ao assistir “A Bruxa” (The Witch, 2015), pode se considerar bastante corajoso e/ou descrente. Embora não seja um filme de terror “bubblegun” (baseado em sustos e sons altos, os famosos scary jumps), se trata de uma obra assustadora, que nos leva a acreditar que realmente o mal possa existir, mesmo que não consigamos perceber.

A produção Canadense é o primeiro longa do diretor Robert Eggers e já consegui diversas criticas positivas dos principais veículos cinematográficos, mas dividiu a opinião do público em geral; alguns a idolatram, enquanto outros a detestam, justamente por fugir do padrão hollywoodiano, abordando questões profundas, que vão além de um demônio assassino matando a todos com seus chifres.

A história se passa em torno do ano de 1620, na Nova Inglaterra. Uma família liderada por William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) é  expulsa do vilarejo em que reside e obrigada a criar raízes em uma área descampada perto de uma floresta na qual segundo as lendas, habita uma Bruxa. Logo no início da trama, a filha mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy) está cuidando do bebê da família e quando vira o rosto, a criança é levada pela bruxa. A partir desse momento, começa todo o drama familiar envolvendo a culpa da garota por ter perdido seu irmão caçula, enquanto é acusada pela família.

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Embora possa possuir inúmeros sentidos e interpretações, como a crítica ao fervor religioso, sexualidade na adolescência e ao empoderamento feminino, a obra deixa claro que aborda uma temática sobrenatural; no começo da trama o telespectador é conduzido a um universo onde o bem e o mal existem. E acreditem, o bem não possui um papel de destaque. A primeira cena é chocante,  ditando todo o restante da obra.

Um dos pontos interessantes é justamente mostrar o drama familiar sob os pontos de vista de cada um dos personagens. Em um momento temos os irmãos gêmeos Mercy e Jonas se divertindo e algumas vezes sendo cruéis; o irmão Caleb (Harvey Scrimshaw) descobrindo a sexualidade, cujo olhares passam pelo corpo de Thomasin. Enquanto isso o pai continua tentando manter sua fé inabalável, rezando pela segurança de sua família, e Katherine culpa a filha mais velha pelo desaparecimento do seu bebê, a acusando de bruxaria.

O terror não se apresenta de forma direta, mas sim sorrateiro, aos poucos minando toda uma estrutura familiar já abalada. Esse recurso torna o filme extramente perturbador, pois consegue ser enxergado como algo crível. O sobrenatural está ali, porém em quase nenhum momento se manifesta diretamente. Há algumas exceções, especialmente relacionadas à bruxa e ao final, que diga-se de passagem, foi um dos melhores já vistos em filmes do gênero.

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A ambientação do filme é opressiva, com uma atmosfera cinza e com varias cenas noturnas, deixando o ambiente agoniante. As tomadas diárias são frias e desprovidas de qualquer positividade. Os únicos elementos coloridos na obra são as chamas e o vestido da bruxa, obviamente de forma intencional.

A trilha sonora é macabra, deixando o espectador tenso e esperando algo, que geralmente não vem. É uma obra intimista do ponto de vista sonoro. O destaque vai para os diálogos, exaustivamente estudados pela produção e pelos atores, simulando o inglês típico da época. É interessante de se ouvir. As atuações são fantásticas, com destaque para Thomasin, que dá um show de interpretação. Mas o restante da equipe não fica muito atrás. A cena do exorcismo de Caleb é uma das melhores já feitas nessa temática.

“A Bruxa” não é um filme para todos, mas deveria ser. Na verdade, foi mal recebido pela maioria da população no Brasil. É uma obra que certamente se tornará cultuada com o passar dos anos. Está no mesmo nível dos excelentes “Babadook” e “Corrente do Mal (It Follows)”, dois destaques dos últimos anos. Recomendadíssimo.

Ficha Técnica:
Ano: 2015
Título: A Bruxa
Título original: The Witch
Direção: Robert Eggers
Roteiro: Robert Eggers
Elenco:  Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw.

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