Bonecas quebradas reestreia no Espaço Sérgio Porto

O espetáculo integra as comemorações do Rio, Cidade Olímpica, da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro

Bonecas Quebradas (foto: Américo Júnior)
Bonecas Quebradas (foto: Américo Júnior)

A história de Ciudad Juarez, no México, na fronteira com El Paso, no território dos Estados Unidos, é especificamente icônica. Desde 1993, contabilizam-se na região milhares de assassinatos de mulheres sem a devida punição. Uma situação sem precedentes, que levou, pela primeira vez na História, à condenação de um país – o México – na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Desde 1994, são mais de 4.000 mulheres desaparecidas e mais de 2.000 mortas em Ciudad Juarez. Todos os crimes seguem o mesmo padrão: sequestro, violência sexual, morte por asfixia, perfurações corporais, esquartejamento e desaparecimento dos cadáveres. Poucos corpos são encontrados e, quando localizados, geralmente em um período de tempo muito grande após o assassinato, encontram-se em um estado que impossibilita a investigação minuciosa. Os crimes estão prescrevendo, os mexicanos se sentem impotentes e o mundo não tem ideia do que se passa ali.

No dia 12 de agosto, às 21h, Luciana Mitkiewicz, Lígia Tourinho e Ilea Ferraz reestreiam Bonecas quebradas, depois de uma temporada de sucesso no SESC Copacabana em junho. O espetáculo de teatro documental, de base performativa, tem dramaturgia compartilhada de João das Neves, Verônica Fabrini, Isa Kopelman e as próprias Luciana e Lígia. A peça se utiliza desse emblemático acontecimento para falar sobre o feminicídio na América Latina (e no Brasil). Contemplado no edital Rumos Itaú 2014-2015, para realização de intercâmbio e criação artística, inicialmente, o espetáculo buscava investigar a imagem da boneca Quebrada, maltratada, despida, riscada, despedaçada, como nos devaneios mais infantis, para descobrir os motivos de seu despedaçamento. Essa imagem instigou as atrizes idealizadoras do projeto, Luciana Mitkiewicz e Lígia Tourinho, a pesquisar outros mundos, a participar da dor de algo desconhecido e assustador, que acabou levando toda a equipe de criação ao México, em fevereiro de 2015, para descoberta dos casos de violência extrema contra mulheres na fronteira com o maior consumidor de drogas do mundo: os EUA.

Entremeando cenas dramáticas, baseadas em relatos reais, com projeção de imagens, reflexões críticas e registros documentais, a dramaturgia estrutura-se em episódios recortados por oratórios típicos dos coros gregos. Criados por João das Neves, os coros dão o tom épico e trágico aos acontecimentos cênicos, ancorando-os na realidade sócio histórica do México e da América Latina e em uma perspectiva mítica, para a qual a magnitude dos fatos parece nos convocar. Utilizando-se de um fato localizado em Ciudad Juarez, no território mexicano, o texto expande a reflexão sobre a violência social e de gênero para todo o continente. Trata-se de uma obra marcada pelo aspecto documental, e que apresenta personagens emblemáticos da trama dos acontecimentos ocorridos no México em diálogo com uma reflexão sobre as profundas implicações que os fatos narrados têm com acontecimentos no Brasil e em outros países latino-americanos.

Bonecas quebradas é parte da programação cultural do Rio, Cidade Olímpica e fica em cartaz no Espaço Sérgio Porto de 12 a 22 de agosto, reunindo teatro e reflexão social acerca do problema da violência contra a mulher no Brasil.

O espetáculo:
Bonecas quebradas foi uma curiosidade que se transformou em desejo. O espetáculo é um processo colaborativo de construção de cena e dramaturgia, que se ampara em algumas fontes e referências, tais como: o conceito de cuerpo roto e de cuerpo sin duelo, apresentados por Ileana Diéguez Caballero em seus ensaios e palestras; a Isla de las Muñecas, na cidade do México, com suas imagens e lendas; bem como o conceito de objects-trouvés, de Tadeusz Kantor, com os qual as bonecas encontradas nos canais de Xochimilco (México) parecem dialogar.

O conceito de cuerpo roto, apresentado por Diéguez, trata de um conjunto de alegorias e representações e de sua extensão em relação à dimensão da ausência, mais do que das implicações do ser morto. Trata de uma investigação do fragmento-rastro, daquilo que conta uma história de despedaçamento, de violência impingida. Em sua obra Cuerpos sin duelo: iconografías y teatralidades del dolor, a autora desenvolve o conceito acima, apresentando exemplos de obras artísticas que partem deste paradigma temático e lançam a ausência, o luto, os desaparecimentos da América Latina como tema e paradoxo para as Artes da Cena, estas fundamentalmente estruturadas a partir da presença do corpo.

Os rumos do projeto foram se delineando melhor e cercando com uma maior precisão a história dos feminicídios quando foi assinado o Acordo de Livre Comércio com os EUA (NAFTA). Desde 1994, são mais de 4.000 mulheres desaparecidas e mais de 2.000 mortas em Ciudad Juarez. Todos os crimes seguem o mesmo padrão: sequestro, violência sexual, morte por asfixia, perfurações corporais, esquartejamento e desaparecimento dos cadáveres. Poucos corpos são encontrados (por empreendimento particular, por parte dos parentes das jovens, muitas vezes). Quando localizados, geralmente em um período de tempo muito grande após o assassinato, encontram-se em um estado que impossibilita a apuração minuciosa. Sabe-se, por investigações de grupos independentes, que os culpados dos assassinatos em Juarez são homens muito poderosos, que continuam soltos, corrompendo o judiciário e ramificando-se pelos demais poderes estatais do país. Delegados e promotores buscam os chamados “bodes expiatórios” — quase sempre parentes das vítimas — num esforço para enquadrar tais homicídios na ordem da chamada “violência doméstica” ou dos “crimes passionais”.

Ficha Técnica:
ENCENAÇÃO: Verônica Fabrini
DRAMATURGIA DE PROCESSO: João das Neves, Isa Kopelman, Lígia Tourinho, Luciana Mitkiewicz e Verônica Fabrini
CONSULTORIA TEÓRICA: Ileana Diéguez
ELENCO: Isa Kopelman, Lígia Tourinho e Luciana Mitkiewicz
DIREÇÃO MUSICAL: Silas Oliveira
PREPARAÇÃO VOCAL: Flávio Lauria
ILUMINAÇÃO: Bruno Garcia
TÉCNICO DE LUZ: Tabatta Martins
PROJEÇÕES: Júlio Matos e Coraci Ruiz
TÉCNICO DE SOM E VÍDEO: Alex Guimarães
CENÁRIO E FIGURINOS: Rodrigo Cohen
ASSISTENTE DE CENOGRAFIA: Érico Damineli
CENOTÉCNICO: Basquiat Rezende
ASSISTENTE DE FIGURINOS: Silvana Nascimento
EQUIPE DE COSTURA: Adelvane Neia, Maria do Carmo Bianchi, Nilton Machado e Silvana Modelli
FOTOS DE PROCESSO: Maycon Soldan
FOTOS DE CENA: Maycon Soldan, Patrícia Cividanes e Américo Júnior
REGISTRO VIDEOGRÁFICO: Laboratório Cisco, Flávio Lauria e Tabbata Martins
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Cau Fonseca
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Lígia Tourinho e Luciana Mitkiewicz
FORMAÇÃO E RECEPTIVO DE PÚBLICO: Carolina Spork
REALIZAÇÃO: Mítica! e Bonecas Quebradas Produções Artísticas

Serviço:

Bonecas Quebradas
Temporada: 12 a 22 de agosto.
Horários: 1ª semana – De sexta a segunda. Sexta e sábado às 21h, domingo e segunda às 20h.
2ª semana – De quinta a segunda. Quinta, sexta e sábado às 21h, domingo e segunda às 20h.
Sessão acessível (libras e audiodescrição): quinta, dia 18/08, às 21h.
Sessão extra: sábado, dia 20/08, às 16:30
Local: Espaço Sérgio Porto – Rua Humaitá, 163 – Humaitá, Rio de Janeiro – RJ, 22261-003
– Tel.: (21) 2535-3846
Valor Ingresso: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Bilheteria: diariamente a partir das 19h. Vendas antecipadas no local.  Pagamento em dinheiro.
Gênero: Drama documental