Bonecas Quebradas estreia dia 9 de junho no Sesc Copacabana

O espetáculo é parte do Projeto Mulheres em Cena: Corpo e Violência

Bonecas Quebradas (foto:Patricia Cividanes)
Bonecas Quebradas (foto:Patricia Cividanes)

A história de Ciudad Juarez, no México, na fronteira com El Paso, no território norte-americano é especificamente icônica. Desde 1993, contabilizam-se na região milhares de assassinatos de mulheres sem a devida punição. Uma situação sem precedentes, que levou, pela primeira vez na História, à condenação de um país – o México – na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Desde 1994, são mais de 4.000 mulheres desaparecidas e mais de 2.000 mortas em Ciudad Juarez. Todos os crimes seguem o mesmo padrão: sequestro, violência sexual, morte por asfixia, perfurações corporais, esquartejamento e desaparecimento dos cadáveres. Poucos corpos são encontrados e, quando localizados, geralmente em um período de tempo muito grande após o assassinato, encontram-se em um estado que impossibilita a investigação minuciosa. Os crimes estão prescrevendo, os mexicanos se sentem impotentes e o mundo não tem ideia do que se passa ali.

Dia 9 de junho, às 21h, Luciana Mitkiewicz, Lígia Tourinho e Ilea Ferraz, estreiam em Bonecas Quebradas, no Sesc Copacabana, com dramaturgia compartilhada de João das Neves, Verônica Fabrini, Isa Kopelman e as próprias Luciana e Lígia. A peça de teatro documental, de base performativa, se utiliza desse emblemático acontecimento para falar sobre o feminicídio na América Latina (e no Brasil). Contemplado no edital Rumos Itaú 2014-2015, para realização de intercâmbio e criação artística, inicialmente, o espetáculo buscava investigar a imagem da Boneca Quebrada, maltratada, despida, riscada, despedaçada, como nos devaneios mais infantis, para descobrir os motivos de seu despedaçamento. Essa imagem instigou as atrizes idealizadoras do projeto, Luciana Mitkiewicz e Lígia Tourinho, a pesquisar outros mundos, a participar da dor de algo desconhecido e assustador, que acabou levando toda a equipe de criação ao México, em fevereiro de 2015, para descoberta dos casos de violência extrema contra mulheres na fronteira com o maior consumidor de drogas do mundo: os EUA. O espetáculo será apresentado pela primeira vez no Rio.

Booking.com

Entremeando cenas dramáticas, baseadas em relatos reais, com projeção de imagens, reflexões críticas e registros documentais, a dramaturgia estrutura-se em episódios recortados por oratórios típicos dos coros gregos. Criados por João das Neves, os coros dão o tom épico e trágico aos acontecimentos cênicos, ancorando-os na realidade sócio histórica do México e da América Latina e em uma perspectiva mítica, para a qual a magnitude dos fatos parece nos convocar. Utilizando-se de um fato localizado em Ciudad Juarez, no território mexicano, o texto expande a reflexão sobre a violência social e de gênero para todo o continente. Trata-se de uma obra marcada pelo aspecto documental, e que apresenta personagens emblemáticos da trama dos acontecimentos ocorridos no México em diálogo com uma reflexão sobre as profundas implicações que os fatos narrados têm com acontecimentos no Brasil e em outros países latino americanos.

Bonecas Quebradas é parte do projeto Mulheres Em Cena: Corpo e Violência, que vai reunir filmes, leituras e debates sobre a condição da mulher, além de uma temporada da peça O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha, de Matéi Visniec, que também trata da violência contra o corpo da mulher, tendo como pano de fundo a guerra da Bósnia. Mulheres em Cena abre sua programação dia 24 de maio com leituras de ambos os espetáculos, exibição de documentários seguida de um debate sobre o tema “violência contra as mulheres” com ativistas, juristas e advogadas.

Bonecas Quebradas (foto:Patricia Cividanes)
Bonecas Quebradas (foto:Patricia Cividanes)

O espetáculo:

Bonecas Quebradas foram uma curiosidade que se transformou em desejo. O espetáculo é um processo colaborativo de construção de cena e dramaturgia, que se ampara em algumas fontes e referências, tais como: o conceito de cuerpo roto e de cuerpo sin duelo, apresentados por Ileana Diéguez Caballero em seus ensaios e palestras; a Isla de las Muñecas, na cidade do México, com suas imagens e lendas; bem como o conceito de objects-trouvés, de Tadeusz Kantor, com os qual as bonecas encontradas nos canais de Xochitlmilco (México) parecem dialogar.

O conceito de cuerpo roto, apresentado por Diéguez, trata de um conjunto de alegorias e representações, e de sua extensão em relação à dimensão da ausência, mais do que das implicações do ser morto. Trata de uma investigação do fragmento-rastro, daquilo que conta uma história de despedaçamento, de violência impingida. Em sua obra Cuerpos sin duelo: yconografias y teatralidades del dolor, a autora desenvolve o conceito acima, apresentando exemplos de obras artísticas que partem deste paradigma temático e lançam a ausência, o luto, os desaparecimentos da América Latina, como tema e paradoxo para as Artes da Cena, estas, fundamentalmente estruturadas a partir da presença do corpo.

Os rumos do projeto foram se delineando melhor e cercando com uma maior precisão a história dos feminicídios quando foi assinado o Acordo de Livre Comércio com os EUA (NAFTA). Desde 1994, são mais de 4.000 mulheres desaparecidas e mais de 2.000 mortas em Ciudad Juarez. Todos os crimes seguem o mesmo padrão: sequestro, violência sexual, morte por asfixia, perfurações corporais, esquartejamento e desaparecimento dos cadáveres. Poucos corpos são encontrados (por empreendimento particular, por parte dos parentes das jovens, muitas vezes). Quando localizados, geralmente em um período de tempo muito grande após o assassinato, encontram-se em um estado que impossibilita a investigação minuciosa. Sabe-se, por investigações de grupos independentes, que os culpados dos assassinatos em Juarez são homens muito poderosos, que continuam soltos, corrompendo o judiciário e ramificando-se pelos demais poderes estatais do país. Delegados e promotores buscam os chamados “bodes expiatórios” – quase sempre parentes das vítimas – num esforço para enquadrar tais homicídios na ordem da chamada “violência doméstica” ou dos “crimes passionais”.

Ficha Técnica:

ENCENAÇÃO: Verônica Fabrini
DRAMATURGIA DE PROCESSO: Isa Kopelman, Lígia Tourinho, Luciana Mitkiewicz e Verônica Fabrini
DRAMATURGO CONVIDADO: João das Neves
CONSULTORIA TEÓRICA: Ileana Diéguez
ELENCO: Ilea Ferraz, Lígia Tourinho e Luciana Mitkiewicz
DIREÇÃO MUSICAL: Silas Oliveira
ILUMINAÇÃO: Bruno Garcia
CRIAÇÃO DE VÍDEOS:  Júlio Matos e Coraci Ruiz (Laboratório Cisco)
CENÁRIO E FIGURINOS: Rodrigo Cohen
PREPARAÇÃO VOCAL: Flavio Lauria
DIREÇÃO TÉCNICA: RGB Brasil
OPERAÇÃO DE VÍDEO E SOM: Alex Guimarães
OPERAÇÃO DE LUZ: Alexandre Greco
ASSISTENTE DE CENOGRAFIA: Érico Damineli
CENOTÉCNICO: Basquiat Rezende
ASSISTENTE DE FIGURINOS: Silvana Nascimento
EQUIPE DE COSTURA: Adelvane Neia, Maria do Carmo Bianchi, Nilton Machado e Silvana
Modelli
FOTOS DE PROCESSO: Maycon Soldan
FOTOS DE CENA: Maycon Soldan e Patrícia Cividanes
IDEALIZAÇÃO DE PROJETO E DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Lígia Tourinho e Luciana Mitkiewicz
REALIZAÇÃO: Bonecas Quebradas Teatro

Serviço:

Bonecas Quebradas
Temporada: 9 de junho a 26 de junho

Horários:
1ª semana – De quinta a domingo. Quintas aos sábados, às 21h, domingos, às 20h
2ª a 3ª semana – De quarta a domingo. Quartas aos sábados, às 21h, e domingos às 20h.
Local: Sesc Copacabana / Mezanino – Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana – Rio de Janeiro/RJ
www.sescrio.org.brTel.: 21 2547 0156
Valor Ingresso: R$20,00 (inteira), R$10,00 (meia-entrada), R$5,00 (associados SESC)
Bilheteria: Terça a domingo a partir das 15h às 19h. Vendas antecipadas no local. 
Gênero: Drama documental
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos

Booking.com