Aquela Cia. – 10 anos

Aquela CIA - Laio e Crisipo
Aquela CIA - Laio e Crisipo

A companhia carioca apresenta dois espetáculos inéditos no Mezanino do Espaço Sesc entre 25 de junho e 19 de julho

Criada por Marco André Nunes e Pedro Kosovski, Aquela Cia. celebra uma década de criação teatral com as duas montagens, oficina e lançamento de livro

LAIO & CRÍSIPO
De 25 de junho a 19 de julho
De quinta a sábado, às 21h; Domingos, às 20h

Releitura do mito que acompanha a juventude de Laio, futuro pai de Édipo. Em cena, a paixão condenada pela sociedade entre Crísipo, jovem príncipe da Frígia, e seu preceptor, Laio, que desemboca num triângulo amoroso com Jocasta

CARANGUEJO OVERDRIVE
De 30 de junho a 18 de julho
Terças e quartas, às 21h; Sábados, às 17h

No fim do século XIX, um soldado que lutou pelo Brasil contra o Paraguai retorna ao Rio de Janeiro – para encontrar sua cidade em profunda transformação

Marcada pelo desenvolvimento de uma linguagem artística própria, por uma dramaturgia sempre inédita e colaborativa, com forte referencial na literatura e um atravessamento da música com a cena, Aquela Cia. De Teatro celebra os dez anos de existência com uma ocupação do Espaço Sesc a partir de 25 de junho. Duas novas peças, uma oficina e o lançamento do novo livro de Pedro Kosovski, responsável pela dramaturgia da Cia., dão a partida para as atividades que pontuam uma década de trabalho.

As duas peças alternam-se nesta ocupação intensiva de um dos palcos do Espaço – o Mezanino. Laio & Crísipo será vista de quinta a domingo; Caranguejo Overdrive, às terças, quartas e sábados (dia em que o público pode assistir às duas em sequência). “São duas montagens muito diferentes nos seus temas”, conta Pedro Kosovski, que assina os textos. “Ao mesmo tempo, ambas – mesmo deslocadas no tempo – abordam

temas emergentes na atualidade, como o ciclo das transformações urbanas e a identidade dos seus habitantes, ou a homoafetividade e o poliamor. São obras que falam de exílio – os personagens das duas peças não têm lugar e estão em busca de um novo pouso.

Na Grécia antiga, Laio & Crísipo vivem paixão e sofrimento. O texto é baseado no mito de Laio, o primeiro registro na cultura ocidental de uma obra cujo tema é uma relação homoafetiva. Já Cosme, que conduz Caranguejo Overdrive, volta da Guerra do Paraguai e faz a descida ao mangue de dejetos e de fertilidade, lugar do lixo e do renascimento.

Outro ponto que as une são os dispositivos hipertextuais e a relação com a cultura pop contemporânea. “Caranguejo Overdrive dialoga com o movimento manguebeat de Chico Science e a ação de Laio e Crísipo se passa num inferninho de beira de estrada, com cabines de strip-tease”, descreve o diretor Marco André Nunes. Procuro criar um universo que soe familiar e que ao mesmo tempo traga algo de surpreendente, seduzindo o espectador para além do que está sendo informado ou compreendido, que lance dúvidas e o instigue a questionar o mundo em que vive.

Pedro e Marco André estarão à frente de uma oficina sobre os processos criativos da companhia, dias 14 e 16 de julho. E Pedro Kosovski lança, também no âmbito das comemorações, seu segundo livro – Cara de Cavalo, ed. Cobogó, com autógrafos nas duas estreias.

A COMPANHIA
Ancorada a princípio nas relações entre teatro e literatura, Aquela Cia. – nascida da reunião de artistas vindos das várias escolas de teatro do Rio – montou em 2005 o Projeto K. (a partir da vida e obra de Franz Kafka); vieram em seguida Sub:Werther (interpretação do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, a partir dos intertextos do livro Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes), Lobo nº1 [ A Estepe] (baseado no romance de Herman Hesse), Do Artista Quando Jovem (em torno do universo literário de James Joyce).

Em 2011, a linha de trabalho passou a investigar a relação entre teatro, música e espetacularidade, com Outside, um musical noir (a partir do encarte do álbum homônimo de David Bowie), Cara de Cavalo (que narra a trajetória trágica do inimigo público nº 1 do Rio de Janeiro em 1964, e suas interlocuções com a obra do artista Hélio Oiticica) e Edypop (explorando o encontro imaginário entre o mais pop dos herói gregos, Édipo, e o mais trágico dos artistas pop, John Lennon).

Desde o primeiro momento, a linguagem singular da companhia se definiu. “Somos movidos pela ideia de construir um espetáculo através de um processo aberto, que se renova a cada ensaio, onde atores e músicos são também criadores”, diz Marco André. “As contribuições de toda a equipe estão presentes na dramaturgia e na elaboração final da cena feita pela direção”.

A música, sempre com banda em cena, em trilha e canções originais ou arranjos novos, desde sempre, desempenha uma função quase narrativa”, explica Pedro Kosovski. “É uma dramaturgia musical no atravessamento entre teatro e música”.

AS PEÇAS DA OCUPAÇÃO 2015

LAIO & CRÍSIPO

Na tragédia que você conhece sou assassinado antes do começo.

Na tragédia que você conhece eu sou apenas uma citação

e tudo só acontece em função da minha morte. (Laio)

O jovem Laio fugiu de Tebas – sua cidade natal, onde uma sangrenta disputa pelo trono torna sua vida perigosa – e foi acolhido pelo rei Pélops da Frígia, que o nomeou preceptor de seu herdeiro, o adolescente Crísipo. Mas a relação entre mestre e pupilo se transmuta em paixão. Perseguidos pelo rei que amaldiçoa Laio e pela sociedade, forjam um sequestro e se dirigem a Tebas, onde a situação política se tornara favorável a Laio, que ali reencontra também a jovem Jocasta, prometida a ele como esposa. Sagrado rei, casa-se com Jocasta e mantêm a relação com Crísipo – e os três se envolvem em um ardente triângulo amoroso.

Esta livre interpretação do mito de Laio deriva da pesquisa para Edypop (2014). Há registros de que Ésquilo e Eurípedes escreveram tragédias sobre o episódio, que não chegaram aos nossos tempos.

Em cena, Laio (vivido por Erom Cordeiro) educa Crísipo (Ravel de Andrade) nas artes da luta, da política… e do amor. Uma Jocasta no frescor dos 19 anos (Carolina Ferman) forma o terceiro vértice dessa relação. Os três caminham sobre o frágil fio da paixão até que Laio é obrigado a optar pelo casamento com Jocasta, levando Crísipo a um rompimento dramático.

A trilha musical, executada ao vivo por Felipe Storino e João Paulo, que se alternam em vários instrumentos, foi especialmente composta para a peça, à exceção da canção There Must Be an Angel, dos Eurythimcs.

CARANGUEJO24CARANGUEJO OVERDRIVE
Me desovaram no Rio de Janeiro, mas a cidade em que nasci era outra, eu nunca tinha vista o Rio de Janeiro com esses olhos, será que explosão branca da guerra havia dissipado magicamente não só o meu espirito mas uma cidade inteira pelos ares? Eu era ninguém e não reconhecia mais nada, resolvi ir atrás do mangue e dos caranguejos, mas a cidade nova (como chamavam agora) era um corpo doente paralisado em uma enfermaria de obras, com muitos buracos, apitos e explosões, e um formigueiro de escravos operários zanzando de um lado ao outro, tudo disperso pelo ares como fumaça de suas obras inacabadas.

Ele é um homem, ou um caranguejo, ou um soldado, ou um operário. Mergulhado na guerra, sofre um colapso; de volta à cidade onde nasceu, encontra um Rio de Janeiro em convulsões urbanísticas – uma cidade, para ele, irreconhecível e com sabor de exílio. Cosme, excombatente da Guerra do Paraguai, dispensado por ter enlouquecido na batalha, volta nos anos 1870 ao Rio. Procura o Mangue a parte da cidade então chamada Rocio Pequeno, hoje a Praça 11 e se emprega na construção do canal que representou a primeira grande obra de saneamento do Rio. Mais uma vez é presa de uma crise – abandona tudo, vaga pela noite, mergulha no delírio. Apanhado por uma tempestade dessas tão conhecidas dos cariocas, torna-se enfim um caranguejo.

Mais duas referências se impõem na proposta de Caranguejo Overdrive – a primeira, a do Manguebeat de Chico Science, uma fusão de música eletrônica e tambores de maracatu. Mais uma vez, a música em cena compõe a performance, com Felipe Storino (guitarra e direção musical) à frente. São todas canções/trilhas originais, dialogado com a performance dos atores.

A segunda referência é ao trabalho do geógrafo Josué de Castro , em sua dura poética, serve aqui de mote: “A lama dos mangues de Recife, fervilhando de

caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo. São seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo – este leite de lama -, se faziam irmãos de leite dos caranguejos. […] A impressão que eu tinha era a de que os habitantes dos mangues – homens e caranguejos nascidos à beira do rio – à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama” .

No elenco, a experiente Carolina Virguezvivendo a prostituta paraguaia e a cientista – contracena com Eduardo Speroni, Matheus Macena, Fellipe Marques e Alex Nader.

SERVIÇO

LAIO & CRíSIPO
De 25 de junho a 19 de julho
De quinta a sábado, às 21h | Domingos, às 20h
Duração: 80 minutos
Capacidade: 65 lugares
Direção: Marcos André Nunes | Texto: Pedro Kosovski
Com Carolina Ferman, Erom Cordeiro e Ravel Andrade
Músicos em cena: João Paulo, Felipe Storino
Direção Musical: Felipe Storino | Direção de Movimento: Marcia Rubin
Figurino: Marcelo Marques | Iluminação: Renato Machado
Cenário: Aurora dos Campos | Patrocínio e Produção: Quintal Produções

CARANGUEJO OVERDRIVE
De 30 de junho a 18 de julho
Terças e quartas, às 21h | bados, às 17h
Duração: 50 minutos
Capacidade: 50 lugares
Direção: Marco André Nunes | Texto: Pedro Kosovsk
Com Carolina Virguez, Alex Nader, Eduardo Speroni,
Fellipe Marques, Matheus Macena
Músicos em cena: Felipe Storino, Maurício Chiari e Pedro Kosovski
Direção Musical: Felipe Storino | Iluminação: Renato Machado
Instalação Cênica: Marco André Nunes Ideia Original: Maurício Chiari
Patrocínio e Produção: Quintal Produções
Espaço Sesc (Mezanino)
Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabanatel: 25470156
Classificação: 16 anos
Ingressos: R$ 20 (inteira); R$ 5 (associados do Sesc) e R$ 10 (jovens de até 21 anos, maiores de 60 anos, estudantes e classe artística)
Funcionamento da bilheteria: de terça a domingo, das 15h às 21h
Pagamento em dinheiro. Ingressos antecipados somente no local.

OFICINA: PROCESSOS CRIATIVOS DA AQUELA CIA
7, 9, 14 e 16 de julho (terças e quintas-feiras), das 14h às 17h

Capacidade: 20 alunos

O objetivo da oficina é compartilhar os procedimentos criativos desenvolvidos pela Cia . Os participantes vivenciarão um processo de criação, construindo sua cena a cada encontro. Através de estímulos e referências dadas eles escreverão seu texto e irão forjar a sua cena ampliando as possibilidades de construção cênico dramatúrgicas.

Público-alvo: atores, dramaturgos, professores e estudantes de artes em geral.

Seleção dos participantes através de currículo e carta de intenções enviados para espacosesc.faleconosco@sescrio.org.br

Informações: (21) 2547-0156

QUINTAL PRODUÇÕES
Direção Geral: Verônica Prates
Gestora de Projetos: Maitê Medeiros | Assistente de Produção: Fellipe Marques

2015
Ocupação Aquela Cia – 10 anos no Espaço Sesc: estreias de Laio & Crísipo e de Caranguejo Overdrive; oficina (Processos Criativos Aquela Cia: Escrever, Compor e Pensar a Cena); lançamento do livro Cara de Cavalo, de Pedro Kosovski, pelo selo Dramaturgias da editora Cobogó

Edypop no Festival Sesc Palco Giratório – Porto Alegre, Theatro São Pedro

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