A geladeira

L., ex-modelo, faz 50 anos e uma geladeira aparece no meio da sua sala de visitas: presente de sua mãe. Vivendo com a mordoma Goliarda, L. fala com o editor e com um amigo distante ao telefone; é estuprada pelo marido da governanta, agredida por um detetive, recebe a visita da psiquiatra, Dra Freud, da mãe que quer extorquir dinheiro para dar ao gigolô; por fim, resolve se suicidar trancando-se na geladeira, onde encontra um bebê-rato; desiste do suicídio, quer sair para se encontrar com um novo noivo, mas Goliarda avisa que o elevador morreu e engole a chave da geladeira.  Finalmente, L. se deita com o rato e uma pele de raposa.

Escrita em 1983 por um Copi já totalmente consiciente da doença que o levaria à morte pouco tempo depois, A Geladeira foi levada à cena naquele mesmo ano, pelo próprio autor. Concebida como um monólogo, a peça traz rubricas precisas para as constantes trocas de roupa e a utilização de vozes em off, bonecos e fantasias. As cenas vertiginosas metralham o público com a história surreal da ex-modelo com seu totem-geladeira, “um objeto cotidiano que se transforma em coisa estranha”, como define Thomas Quillardet, o primeiro a encenar um texto de Copi no Brasil, em 2007. É Thomas que faz esta nova montagem na Ocupação Copi – e, como em 2007, tem em cena o ator Márcio Vito para esse tour de force. A Geladeira será encenada na Sala Multiuso de quinta a sábado às 19h e, aos domingos, às 18h.

[quote_right]Ela está louca, uma geladeira no meio da cena! (Goliarda, a mordoma)[/quote_right]

“Copi nunca é agressivo, nunca é sentimental ou piegas – e sempre é impactante”, diz Quillardet. “É poético em sua extrema provocação; faz, digamos, um carinho político no mundo”.  A inquietação suscitada pelo teatro de Copi permanece ao longo do tempo, diz o encenador. “Meu primeiro espetáculo foi As 4 Gêmeas; fiz também Eva Perón, uma caricatura da mítica primeira dama que havia estreado nos anos 1960 em Paris, quando argentinos inconformados puseram fogo no teatro.

[quote_box_left]Parei no caminho para visitar o jazigo da família, e você sabe
o que ele me disse, aquele seu fantasma de pai?
Ele me disse: não faz mal que ele tenha virado viado, disse,
é um bravo menino, vai brindar com ele no dia do seu cinquentenário (Mãe)[/quote_box_left]

Em A Geladeira, a vida se sobrepõe à morte. Se na obra de Copi a  solidão, a finitude e o humor cáustico estão no centro da cena, e a morte ronda seus escritos de maneira geral, esta peça se destaca como “uma declaração de amor ao teatro”, lembra ainda Quillardet.

[quote_right]Pois bem, isso é a arte, mas não se pronuncia rate, pronuncia-se ator.(L.,  para o Rato)[/quote_right]

O ator Marcio Vito, que se desdobra na cena deste monólogo, acredita que “os textos de Copi ainda têm um DNA muito avant-garde”. De sua primeira atuação, em 2007, para a deste ano, Vito experimenta uma mudança de tom: “Diminuímos a histeria, aumentando a esquizofrenia”, explica. “Não sublinhamos a provocação, mas procuramos a interseção artística para colocar em cena a dimensão humana. Copi explode minhas vivências, me tira do cotidiano, é muito transgressor e libertador – e sempre de maneira delicada e genial”.

A GELADEIRA

Texto de Copi | Tradução: Maria Clara Ferrer
com Marcio Vito
Direção: Thomas Quillardet

Espaço Sesc ( SALA MULTIUSO) – Capacidade: 60 lugares
De 11 de junho a 5 de julho
De quinta a sábado às 19h; Domingo às 18h
Duração: 50 minutos | Classificação: 18 anos
Ingressos R$ 20 (inteira); R$ 5 (associados do Sesc) e R$ 10 (jovens de até 21 anos, maiores de 60 anos, estudantes e classe artística)

Espaço Sesc
Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana – (21) 2547-0156
Funcionamento da bilheteria: de terça a domingo, das 15h às 21h
Pagamento em dinheiro. Ingressos antecipados somente no local

 

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